Mais e melhores anos com Claude Lelouch

Mais e melhores anos com Claude Lelouch

Rodrigo Fonseca

28 de junho de 2021 | 13h52

Claude Lelouch durante o Rendez-vous Avec Le Cinéma Français

Rodrigo Fonseca
Envolvido na finalização no que define ser seu último longa-metragem (#sqn), chamado “L’Amour c’Est Mieux Que La Vie” e estrelado por Béatrice Dalle e Christopher Lambert, o diretor parisiense Claude Lelouch, hoje com 83 anos, conversou pela última vez com o P de Pop antes de a pandemia começar, em janeiro de 2020, na 22ª edição do Fórum Rendez-vous Avec Le Cinéma Français, em Paris. À época, ele falou muito de morte, mas não de maneira alarmista.
“Cheguei numa idade onde filmes inteiros podem ser feitos com um telefone celular, sem a necessidade dos rolos de película do passado, preservando um frescor que existia nos anos 1960 quando as relações afetivas e as discussões sobre o mundo começavam a mudar. Eu fiz filmes sobre a maneira como o amor sobrevive ao Tempo. É hora de falar como o Tempo pode sobreviver a um amor”, disse o oscarizado realizador francês, conhecido por cults como “Toda uma Vida” (1974), que acabava de lançar, em solo europeu, “Os Melhores Anos de Uma Vida”, lançado no Brasil no fim de semana.

Cena de “Les plus belles années d’une vie”, com Anouk Aimée e Jean-Louis Trintignant

Batizado originalmente de “Les plus belles années d’une vie”, esse delicado longa resgata a figura do piloto de corridas Jean-Louis Duroc e a roteirista Anne Gauthier: Jean-Louis Trintignant e Anouk Aimée são seus intérpretes. A mítica dupla encarnou esses personagens em 1966 em “Um homem e uma mulher”, filme que rendeu a Palma de Ouro e dois Oscars a Lelouch. Os dois, viúvos, viviam uma paixão descabelada, mas cuidadosa, na Deauville dos anos 1960. “Eu vinha de dois fracassos, sem a menor perspectivas, até que peguei o carro e saí em disparada pela França, até chegar a uma praia, onde, no desespero, na angústia, adormeci. Acordei com um nascer do sol belíssimo, vendo uma mulher passeando na areia com seu cão. Ali veio a ideia de um idílio amoroso e nasceu o longa que mudou minha vida”, disse Lelouch, que penou para convencer Trintignant a atuar de novo, uma vez que o ator, abatido por câncer, decidiu se retirar das telas. “Em ‘Um homem, uma mulher’, em meados da década de 1960, quando Anouk Aimée envia um telegrama para Jean-Louis Trintignant, durante o Rally de Monte Carlo, brota-se uma sensação mágica de espera, de surpresa, algo que parece impensável no cinema de hoje, quando as narrativas são elípticas por pressa e não por estilo. Mas não gosto de reclamar do esgotamento da arte cinematográfica. As tecnologias digitais deram ao cinema uma sobrevida. Não gosto de reclamar de nada. Cheguei aos 80. Passei deles. Estou na luta. E ainda existem espectadores”, disse o diretor.

Apesar da negativa inicial de Trintignant, a chance de reviver um dos longas mais míticos da década de 1960 animou o astro. Retomar Duroc e Anne é uma chance de se ouvir de novo a trilha sonora de Francis Lai, com Pierre Barouh, Baden Powell e Vinicius de Moraes, que embalou gerações ao som da melodia “chabadabada”. No reencontro deles ouvimos as vozes de Calogero e Nicole Croisille num duo homônimo ao título francês, que embala os percalços dos dois velhos amantes. Na trama, Duroc está numa casa de repouso, com o Alzheimer chegando. Eis que Anne é chamada para visita-lo, depois de décadas de separação. “Não filmo para defender teses. Filmo para mostrar a beleza de um amanhecer e a riqueza da conversa entre dois enamorados”, disse Lelouch, um especialista bas vicissitudes do querer, temas que é seu objeto de estudo em joias como “A nós dois” (1979), “Retratos da vida” (1981) e “Un + Une” (2015), lançado aqui na Netflix. “Para que eu filme, é necessário que um tema ou uma imagem se apresente a mim, pois eu sou um observador do mundo”.

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