‘Magal e os Formigas’ faz o ‘Corujão’ ferver

‘Magal e os Formigas’ faz o ‘Corujão’ ferver

Rodrigo Fonseca

27 de outubro de 2021 | 15h21

RODRIGO FONSECA
Tem comédia brasileira das boas nesta madrugada: “Magal e os Formigas”. É um sopro de leveza na grade da TV aberta, com sessão às 2h40, na Globo. Dos anos 1970 até hoje, eternizado por sua pomabjírica Sandra Rosa Madalena, o cantor Sidney Magal já foi ator várias vezes, tendo sido um dublê de Zorro na novela “Bang Bang” (2005), um coadjuvante de luxo (mau) em “O Caminho das Nuvens” (2003) e até um dublê de Rudolph Valentino em “Amante Latino” (1979). Faltava a ele – à luz da maturidade e dos fios grisalhos – assumir o papel de mentor, de oráculo, de Sr. Miyagi de um Daniel San já cansado de guerra. Mas essa tarefa chegou para ele embrulhada em tintas surreais (e marxistas) numa trama bem-humorada que se destaca na atual cena nacional do gênero pela originalidade do tema e por uma fina (e irônica) análise do calvário nosso de cada dia.
“Magal e os Formigas” é uma fábula com aroma de Frank Capra, à la “A Felicidade Não se Compra” (1946). Em seu primeiro exercício no posto de realizador, o roteirista paulista Newton Cannito – apoiado na experiência e rigor narrativo raras vezes reconhecidos de Michael Ruman, da série “9MM São Paulo” – nos surpreende pela habilidade de fundir crônica de costumes, fabulação e reflexão social sem embolar os vértices deste triângulo cômico sobre aposentadoria e acomodação.

Ver Magal como um Grilo Falante que ensina um aposentado viciado em loteria a não desistir do amor, do prazer e de suas próprias virtudes é algo tão inusitado que enche o filme de estranheza. Mas uma estranheza convidativa, engraçada, carismática e até sensual como é o perfil do intérprete de “O Meu Sangue Ferve Por Você”. Mas o acerto maior do filme é a escalação de Norival Rizzo, um mito do teatro paulistano, como protagonista. Com um ferramental interpretativo dos mais fartos, ele dá um ar de James Stewart à figura fustigada de João, um ex-músico, hoje aposentado, que gasta suas tardes numa fabriqueta de fundo de quintal, sem dar bola pra mulher. Canções de Magal despertam sua fúria, por recalque, até que o latin lover se materializa diante dele, como uma entidade, disposto a fazer com que ele espane a preguiça e o marasmo de seu cotidiano.
Elementos místicos não diluem a agudez sociológica do filme, em sua investigação sobre a vida suburbana de São Paulo e sobre o desemprego. E nesse quesito de crônica social que o elemento Capra fala mais forte, com algo do Ettore Scola de “Feios, Sujos e Malvados” (1976). Tem muita reflexão ali, mas bem dosada com o humor e a fantasia. Não é um “filme-bula-de-remédio”, e sim um exercício de despretensão, que se liga a uma linhagem popular brasileira que passa por “Tangarela, a Tanga de Cristal” (1976), com Jô Soares, e “Por Incrível Que Pareça” (1986), com Tim Rescala.

p.s.: No Mostra Play, online (www.mostra.org), não perca o drama lusitano “Listen”, de Ana Rocha de Sousa. Laureado com 22 láureas desde o Festival de Veneza de 2020, quando ganhou o Prêmio do Júri da seção Orizzonti e o troféu Luigi De Laurentiis (de melhor filme de estreia), esse drama social celebra a maternidade. Na trama, um casal luso, Bela (Lúcia Moniz) e Jota (Ruben Garcia), tenta pagar as contas de uma vida em Londres, para onde foram atrás de mais e melhores oportunidades de emprego. Mas tudo dá errado para eles e seus três filhos, ameaçando uma intervenção judicial que os separe.

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