‘Magal e os Formigas’ alia o encanto das fábulas ao alarmismo social

‘Magal e os Formigas’ alia o encanto das fábulas ao alarmismo social

Rodrigo Fonseca

15 Dezembro 2016 | 15h51

Norival Rizzo encontra em Sidney Magal um Grilo Falante na comédia social de Newton Cannito

Norival Rizzo encontra em Sidney Magal um Grilo Falante na comédia social de Newton Cannito: uma fábula alarmista


RODRIGO FONSECA
Dos anos 1970 até hoje, eternizado por sua pomabjírica Sandra Rosa Madalena, o cantor Sidney Magal já foi ator várias vezes, tendo sido um Zorro trans na novela Bang Bang (2005), um coadjuvante de luxo (mau) em O Caminho das Nuvens (2003) e até um dublê de Rudolph Valentino em Amante Latino (1979). Faltava a ele – à luz da maturidade e dos fios grisalhos – assumir o papel de mentor, de oráculo, de Sr. Miyagi de um Daniel San já cansado de guerra. Mas essa tarefa chegou para ele embrulhada em tintas surreais e levemente marxistas numa comédia que se destaca na atual cena nacional do gênero pela originalidade do tema e por uma fina (e irônica) análise do calvário nosso de cada dia: Magal e os Formigas, uma fábula com aroma de Frank Capra, à la A Felicidade Não se Compra (1946). Em seu primeiro exercício no posto de realizador, o roteirista paulista Newton Cannito – apoiado na experiência e rigor narrativo raras vezes reconhecidos de Michael Ruman, da série 9MM São Paulo – nos surpreende pela habilidade de fundir crônica de costumes, fábulação e reflexão social sem embolar os vértices deste triângulo cômico sobre aposentadoria e acomodação.

Ver Magal como um Grilo Falante que ensina um aposentado viciado em loteria a não desistir do amor, do prazer e de suas próprias virtudes é algo tão inusitado que enche o filme de estranheza. Mas uma estranheza convidativa, engraçada, carismática e até sensual como é o perfil do intérprete de O Meu Sangue Ferve Por Você. Mas o acerto maior do filme é a escalação de Norival Rizzo, um mito do teatro paulistano, como protagonista. Com um ferramental interpretativo dos mais fartos, ele dá um ar de James Stewart à figura fustigada de João, um ex-músico, hoje aposentado, que gasta suas tardes numa fabriqueta de fundo de quintal, sem dar bola pra mulher. Canções de Magal despertam sua fúria, por recalquer, até que o latin lover se materializa diante dele, como uma entidade, disposto a fazer com que ele espane a preguiça e o marasmo de seu cotidiano.

Elementos místicos não diluem a agudez sociológica do filme em sua investigação sobre a vida suburbana de São Paulo e sobre o desemprego. E nesse quesito de crônica social que o elemento Capra fala mais forte, com algo do Ettore Scola de Feios, Sujos e Malvados (1976). Tem muita reflexão ali, mas bem dosada com o humor e a fantasia. Não é um “filme-bula-de-remédio”, e sim um exercício de despretensão, que se liga a uma linhagem popular brasileira que passa por Tangarela, a Tanga de Cristal (1976), com Jô Soares, e Por Incrível Que Pareça (1986), com Tim Rescala. Em ambos víamos uma certa classe média baixa (ou pobre) às voltas com feitos fora do normal, que arrancavam nossas gargalhadas mas ampliavam nossa percepção das mazelas financeiras do dia a dia. É essa a operação que Cannito realiza, com delicadeza, mas de maneira a alertar e alarmar.