Máfia de Sergio Leone no Belas Artes

Máfia de Sergio Leone no Belas Artes

Rodrigo Fonseca

26 de maio de 2021 | 12h28

Rodrigo Fonseca
Fonte de boas novas pro cinema, Paula Ferraz, um dos pilares da assessoria de imprensa na seara da cultura no país, dá sempre uma injeção de ânimo na crítica quando envia emails com a programação do Belas Artes À La Carte, um empório online de expressões autorais, que acaba de se abrir para a excelência de um dos realizadores de maior influência estética sobre o audiovisual contemporâneo: o romano Sergio Leone (1929-1989). A entrada nele no cardápio da URL https://www.belasartesalacarte.com.br/ se dá por meio de “Era Uma Vez Na América” (“Once Upon a Time In América”). Objeto de culto, essa produção de US$ 30 milhões, lançada no Festival de Cannes de 1984, é encarada como sendo a obra-prima do cineasta italiano, mais famoso por sua incursão no Velho Oeste, nos anos 1960 e 70. Na Croisette, sua projeção foi encerrada com uma ovação de 20 minutos de aplausos.
Ambientado em três épocas distintas – 1918, 1930 e 1968 – de Nova York, o longa-metragem, baseado no romance “The Hoods”, de Harry Grey, chega ao streaming em sua metragem original, de 229 minutos, preservando digitalmente a beleza da trilha sonora de Ennio Morricone (1928-2020), indicada ao Globo de Ouro, em 1985. Suas composições ainda renderam ao longa o Bafta, o Oscar inglês, ajudando-o a ganhar status de obra-prima, fazendo de Leone uma escola, reconhecida como bússola de invenção por áses da linguagem cinematográfica do presente, como Quentin Tarantino.

Filmado entre o Brooklyn, a Flórida e os estúdios da Cinecittà, em Roma, com algumas cenas rodadas em Montreal, “Era Uma Vez Na América” começou a ser idealizado por Leone após o sucesso mundial de “Era Uma Vez No Oeste” (1968), com Claudia Cardinale, Henry Fonda e Charles Bronson. Chegou aos cinemas num momento de apogeu de seu protagonista, Robert De Niro, que havia conquistado o Oscar em 1981, por “Touro Indomável”. De Niro está em cartaz em nossas salas como o fofíssimo “Em Guerra Com o Vovô” e anda produzindo o Festival de Tribeca, lá fora. Apesar de todo o carisma dele, a duração GG do filme, pouco usual na década de 1980, assustou as plateias, limitando sua bilheteria a cerca de US$ 5 milhões. Mesmo assim, o prestígio do longa, já à época, era alta, maior do que qualquer outro trabalho de Leone, que era esnobado pelos críticos por sua aposta em faroestes comerciais.
Na releitura de Leone e sua horda de roteiristas (Leonardo Benvenuti, Piero De Bernardi, Enrico Medioli, Franco Arcalli, Franco Ferrini, Stuart Kaminsky e Ernesto Gastaldi) para a prosa de Harry Grey, a vida de judeus dos EUA nos anos 1910, 20, 30 e 60 é cartografada a partir das sequelas de exclusão que os cercam. Em 1968, David “Noodles” Aaronson (De Niro) retorna à Nova York, onde teve uma carreira como gângster, 30 anos atrás. A maioria dos seus amigos já morreu, mas ele sente que seu passado não se resolveu. A partir de uma série de flashbacks, a narrativa acompanha Noodles desde sua infância, como um garoto pobre de Nova York, até sua ascensão como contrabandista, chegando, depois, a virar chefe da Máfia, sempre tendo como principal parceiro – e futuro rival – Max, papel dado a James Woods.

Leone dirige De Niro nas filmagens de “Era Uma Vez Na América”

Embora tenha dirigido muito pouco em seus 60 anos de vida, Leone havia desempenhado múltiplas funções na área cinematográfica antes de pilotar um set com sua autoridade de realizador autoral, tendo sido assistente de direção, roteirista, produtor… Marcou época com seu estilo proustiano, de buscar passados perdidos, esbanjando adrenalina nas cenas de ação. Rola ver o longa também na MUBI.
De passagem pelo Belas Artes, dá uma olhada no que tem de Michael Cimino e nas pérolas italianas por lá.

p.s.: Os atores Fábio Ventura e Rogério Garcia, que dividem a cenana comédia dramática “Angustia-me!”, estarão juntos, neste sábado, no RePensaFestival, como apresentadores da mesa de debates Políticas Raciais (das 18h àmeia-noite). Na ocasião, performers e pensadores negros vão refletir sobre aluta contra o racismo estrutural do país. O evento, dedicado à diversidade e inclusão,estreia sua primeira edição on-line, com retirada de ingressos gratuitos peloSympla (https://www.sympla.com.br/repensa-festival-a-sexualidade-de-hoje__1225806).Desde o mês passado, a dupla também está no elenco da comédiadramática “Angustia-me”, com texto de JuliaSpadaccini e Marcia Brasil e direção de Alexandre Mello. Na trama, eles interpretam doisatores que se conhecem em um set de pornô gay. O mais experiente, vivido por Rogério Garcia, dá conselhos para o colega (Fábio Ventura), que está iniciandona profissão. A peça-filme está em temporada virtual no Youtube até 30/06, comretirada de ingressos gratuitos pelo Sympla (https://www.sympla.com.br/angustia-me).

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