‘Mãe só há…’ Muylaert, na Netflix

‘Mãe só há…’ Muylaert, na Netflix

Rodrigo Fonseca

06 de outubro de 2019 | 09h42


RODRIGO FONSECA
Depois de três anos sem Anna Muylaert no circuito exibidor, a falta que a gente sente das ideias e das imagens geradas pela cineasta só faz aumentar, ainda que, há poucos dias, a Netflix tenha dado uma força e tanto à nossa admiração pela cineasta: tem “Mãe só há uma” na grade do badalado serviço de streaming. O longa-metragem, lançado mundialmente em 2016, abriu sua trajetória global pelo Festival de Berlim, na mostra Panorama, em 2016. Ali, ganhou aplausos e ampliou o apetite da cinefilia mundial pelo trabalho dela. Come-se muito – e bem – nos filmes de La Muylaert. Guloseimas são ingredientes essenciais à dramaturgia da realizadora. Em seu “Durval Discos” (2002), um comerciante de LPs (Ary França) se empapuça de coxinhas de galinha na hora do almoço. Em “É Proibido Fumar” (2009), Paulo Miklos discutia com Glória Pires sobre a importância de molho para amaciar o filé de salmão. No caso de “Que Horas Ela Volta?” (2015), seu maior sucesso até agora, um pote de sorvete de chocolate com amêndoas é o estopim para uma querela sobre classes sociais, além de se falar muito também de guaraná, suco de lima da persa e geleia.
Apesar dessa comilança toda, não sobraram sequer petiscos para “Mãe Só Há Uma”, seu mais recente (e ferocíssimo) trabalho de direção, com tônus estético suficiente pra ser – mole, mole – considerado o melhor filme dela. Comida tem, em algum lugar das dispensas das duas casas por onde o protagonista, o adolescente Pierre, zanza, frente a uma descoberta trágica sobre sua criação. O que não tem é tempo, pelo menos não para o drama dele. Ali, tudo é urgência… tudo é na pressa… pois estamos diante do processo de reconfiguração de um continente afetivo, de uma subjetividade fraturada por uma revelação digna de folhetim. Aliás, “folhetim” é aqui a palavra-problema, a palavra medular, pois a maior contribuição de “Mãe Só Há Uma” para o storytelling do cinema nacional atual reside em sua habilidade de driblar as convenções do melodrama clássico, sobretudo o que a ficção televisiva brasileira erigiu como um de nossos patrimônios simbólicos mais fortes. O novo filme de Anna Mulaert é aquilo que se chama de metamelodrama. Esse verbete anda virando moda nos estudos acadêmicos sobre dramaturgia, tendo como berço reflexões antropológicas do americano David Bordwell e os ensaios geopolíticos do português João Maria Mendes (no livraço “Culturas Narrativas Dominantes”). No Brasil, seu principal ideólogo é o professor José Carvalho, da PUC e do curso Roteiraria.

Com base nas dissertações desses pesquisadores, entende-se que Anna cria seu universo cinematográfico com base no tecido visual “vivo” criado pelo melodrama clássico e suas releituras modernas, de Douglas Sirk a Rainer Fassbinder, passando por Pedro Almodóvar. Aliás, fareja-se um suor almodovariano latente escorrendo da testa do personagem central, Pierre, conforme a diretora parte dele para fazer um estudo sobre as fronteiras entre identidade e autenticidade com base nas “lições” de arquétipos que o cinema dos passados nos deu, potencializadas aqui por um diálogo com o real.

Com uma comicidade mais abrasiva do que seu habitual, Anna adota como foco de “Mãe Só Há Uma” o processo de autorreivenção do jovem Pierre, papel de Naomi Nero, ator paulistano iniciante, de 18 anos, que é sobrinho do astro Alexandre Nero. Na passagem do longa pela seção Panorama da Berlinale .2016, laureada com um prêmio da imprensa LGBTS, o rapaz foi encarado como “a” revelação do evento, em todas as suas latitudes. Nas raias da androginia, com um visual decorado a unhas pintadas e calcinhas fio dental bem cravadinhas, Pierre tem suas eleitas: mocinhas a quem beija quando quer, numa rotina bem resolvida entre estudar e tocar guitarra numa banda. Curte meninos também, sem neuras ou culpas. Mas, um dia, ele fica sabendo que sua mãe, Aracy (Dani Nefusi), sequestrou-o quando ele ainda era bebê. A notícia é seguida por outro choque: seus pais biológicos, Matheus e Glória (vividos por Matheus Nachtergaele e pela própria Nefusi, num jogo edipiano de espelhamento de papéis), querem levá-lo para casa e dar a ele todo o carinho que ficou engavetado.

Naomi Nero: revelação da Berlinale 2016


De cara, querem chamá-lo do nome com o qual ele seria batizado: Felipe. O nome é mais do que ruído. É crise anunciada. Neste ensaio sobre o que é ser autêntico, Matheus e Glória são apresentados como dois retrógrados, de atitudes sexistas e hábitos no limite da breguice. Mas não são caricaturas – isso jamais! Caricaturas não cabem no “cogito muylaértico”. E mais: o metamelodrama é avesso a elas: nele, caricaturas existem para serem transcendidas, transformando personagens em pessoas de papel – virtuais, mas em 3D emotivo. Eles são gente viva, que erram, que amam, que se descabelam, e operam como artifícios que Anna encontra para dilacerar as hipocrisias nas convenções sociais. O que existe de hipócrita na sociedade brasileira se expressa em cenas centrada nos constrangimentos vividos por Pierre diante de seus novos guardiões familiares. Constrangimentos que, em Berlim, despertaram reações de nervoso na plateia, expressas em gargalhadas e engasgos coletivos.

A trilha sonora é um trunfo a mais para assegurar o quão contemporânea é a narrativa. E nela, Pierre ganha também um irmão mais moço, Joca (o ótimo Daniel Botelho), que terá um papel crucial na adaptação do protagonista à realidade que se desenha para seu tortuoso futuro no jogo do viver. Contrariamente aos enquadramentos discretos e focados de “Que Horas Ela Volta?”, a câmera aqui é quase epiléptica, tremendo-se e remoendo-se a cada instância de desconforto de seu herói transafetivo, transmoral. Bárbara Alvarez fotografou ambos os longas, mas fez questão de distingui-los bem na forma. Um respeita o tempo da acomodação. O outro, o novo filme, corre na toada do colapso. E é impossível sairmos ileso dele, ainda que as feridas que ele nos cause sejam da ordem da poesia.

p.s.: O cinema brasileiro fez a festa neste sábado no Festival de Biarritz, na França, com direito ao prêmio de melhor filme para “A febre”, de Maya Da-Rin, e um prêmio especial do júri para “A vida invisível” (ex-“A vida invisível de Eurídice Gusmão”), de Karim Aïnouz. Deu ainda láurea de melhor curta para “Mistério da carne”, de Rafaela Camelo.

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