Madrugada de ‘Tungstênio’ na TV

Madrugada de ‘Tungstênio’ na TV

Rodrigo Fonseca

02 de maio de 2021 | 13h33

Fabrício Boliveira patrulha a Bahia em “Tungstênio”

Rodrigo Fonseca
Se estiver sem sono nesta madrugada, liga na Globo, às 3h, que o plimplim vai te dar um presentão pra tornar a insônia um ócio produtivo: “Tungstênio” (2018). A direção é do pernambucano radicado em SP Heitor Dhalia, cuja excelência autoral nunca foi reconhecida em toda a sua potência narrativa, apesar do culto em volta de seu “O cheiro do ralo” (2006), hoje menos lembrado do que merecia. Sucesso no streaming, com “Arcanjo Renegado”, do Globoplay, ele tem dois filmes inéditos para o circuito: o brilhante “Anna”, exibido e premiado no Festival do Rio de 2019, e um longa zero KM que o IMDB chama de “Ballad of a Hustler”, feito nos EUA. Os filmes de Dhalia carregam uma inquietação afetiva – sobretudo na questão da lealdade – que poucos diretores brasileiros revelados na Retomada (1995-2010) apresentam, sobretudo com tamanha maestria. Por isso, os afetos fervem em azeite de dendê no thriller policial que a TV aberta vai projetar em seu bom e velho “Corujão”. Cravejado de toques de expressionismo alemão na fotografia de Adolpho Veloso, arredia ao contingente neorrealista ao seu redor, essa possante trama policialesca é uma crônica poliédrica: são quatro núcleos de personagem, vistos numa perspectiva cubista, toda bem fragmentada. Trata-se de uma crônica sobre aquilo que se espera da lealdade. Com base na HQ homônima de Marcello Quintanilha, premiada mundialmente, o roteiro de Marçal Aquino e Fernando Bonassi se apega ao cotidiano e aos solavancos da banalidade baiana. A partir da adaptação deles, Dhalia cria uma Bahia bem parecida com a de “Barravento” (1961), de Glauber Rocha. Nela, um sargento aposentado (vivido pelo exu José Dumont, devastador em cena), leal a um ideal de Moral e Cívica superado, deflagra uma confusão em prol de um ideal de ordem às margens de um forte. Leal a um conceito de justiça torto, uma espécie de Dirty Harry à baiana, o policial Richard (vivido por um luminoso Fabrício Boliveira, com ecos de Milton Gonçalves), embrenha-se nesse cumburucu que Dhalia narra em um diálogo primoroso com a linhagem dos thrillers hollywoodianos dos anos 1950 e 60 (em especial “A Morte Num Beijo”). Um diálogo moral, tenso e vívido. A poética narração de Milhem Cortaz (alter ego de Quintanilha) aproxima o longa-metragem da linguagem dos gibis. Como contador de histórias violentas, Dhalia imprime inquietude nas telas, desde sua estreia em longas, em 2004, com “Nina”.

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