Madrugada com Travis Bickle na TV aberta

Madrugada com Travis Bickle na TV aberta

Rodrigo Fonseca

05 de maio de 2020 | 12h12

Rodrigo Fonseca – #FiqueEmCasa
Envolvido num projeto com Morgan Freeman e Tommy Lee Jones, chamado “The Comeback Trail”, Robert De Niro está celebrando 55 anos de carreira em 2020. É sempre necessário rever a icônica sequência do “Are you talkin’ to me” dito por ele em “Taxi Driver” (1976), sobretudo nestes tempos de individualidade e neurose: há uma chance boa pra isso nesta madrugada à 1h50 na TV Globo. Dublado por Reginaldo Primo, o De Niro que será visto esta noite na emissora carioca, após o “Jornal da Globo” e da série “Quântico”, carrega uma centelha de rebeldia e de juventude singular. A imagem adoecida dele como um chofer de praça que se imola como Cordeiro de Deus para “limpar” as ruas de Nova York ganhou as telas do mundo, pela primeira vez, em uma projeção no Festival de Cannes, de onde saiu com a Palma de Ouro. O culto em torno do longa garantiu um prestígio que Scorsese soube renovar ao longo das quatro décadas seguintes, vide a boa repercussão de seu thriller de máfia “The Irishman” (aqui é “O Irlandês”), exibido no Festival de NY e no BFI London Film Festival, na Inglaterra. Festivais gozam do afeto de Scorsese porque foi na Croisette, em 1974, em que ele, então um iniciante, exibiu o longa-metragem que bancou seu passe para o estrelato: “Caminhos perigosos” (“Mean streets).
“Quando eu trouxe esse filme pra Cannes, nos anos 1970, eu desfrutava de um anonimato que me permita ir de restaurante em restaurante, espiar o Wim Wenders e o Werner Herzog, que estavam começando também, e falar horas e horas sobre filmes. Era uma época em que a gente sabia onde estava cada objeto de uma cena filmada por diretores como Raoul Walsh, a quem eu idolatrava e ainda idolatro, como quem sabe a geografia de um espaço. Era geografia de set”, contou o diretor em Cannes, em 2018, com a incontinência verbal (tensa e tímida) que lhe é peculiar.

Há uma estrofe musical de Kris Kristofferson que é falada – e não cantada – no início de “Taxi Driver”, decalcada da canção “The Pilgrim, Chapter 33”, que diz: “He’s a prophet, he’s a pusher/ He’s a pilgrim and a preacher, and a problem when he’s stoned/ He’s a walkin’ contradiction, partly truth and partly fiction”. Eis a estética scorsesiana.

Na ocasião, ele ganhou o troféu honorário Carroça de Ouro e falou muito sobre a importância de “Taxi Driver” para o futuro que viria a construir. “Era um tempo de risco”, disse o diretor, que participa como ator do longa, a ser exibido pela Globo em versão brasileira, com Reginaldo Primo dublando De Niro. Hércules Franco dubla Scorsese, que entrou na filmagem substituindo um mestre. O projeto de “Taxi Driver” veio do casal de produtores es Julia e Michael Phillips, cuja ideia inicial era confiar a direção a Robert Mulligan (1925-2008). Realizador do sucesso “O sol é para todos” (1962), Mulligan foi a primeira opção para narrar as neuroses do taxista Travis Bickle, que volta do Vietnã e inicia um conflito contra os marginais de Nova York. Mas, nas primeiras reuniões de produção, os Phillips perceberam a necessidade de um cineasta mais jovem, antenado às inquietações da geração que começava a revolucionar o cinema nos EUA. Mulligan parecia desconectado com o calvário sociológico que Julia e Micael buscavam levar às telas. Cogitou-se então Brian De Palma, para a direção, e Jeff Bridges para assumir o papel de Bickle. Mas o êxito da dupla Scorsese e Robert De Niro na radiografia urbana chamada “Caminhos perigosos”, lançada em 1973, mudou os rumos do filme. Em uma entrevista publicada no jornal O Globo em 2011, o roteirista do longa, Paul Schrader, fez um melancólico balanço daquele momento da História, na indústria audiovisual.

“Quando eu entrei para o mundo do cinema, no fim dos anos 1960, o mercado cinematográfico também enfrentava uma crise. Mas era uma crise de conteúdo. Os filmes careciam de novos temas, novos heróis, novas atitudes. Mas, ao fim daquela crise, no início dos anos 1970, embarcamos num período de cerca de 15 anos de produções que traziam uma centelha de reinvenção, que desafiava a moral da tradição”, conta Schrader, que acabou trabalhando em dobradinha com Scorsese, adaptando os diálogos para o falar coloquial de De Niro.
Juntos, ele, o ator e Scorsese fizeram de “Taxi driver” um marco da chamada Nova Hollywood, projetando ainda os jovens Harvey Keitel e Cybill Shepherd, além de uma Jodie Foster cheirando a leite, com 13 anos. Orçado em US$ 1,3 milhão, o filme foi laureado com a Palma Dourada de Cannes, sendo indicado a quatro Oscars (sem ganhar nenhum) e coroado com uma bilheteria de US$ 28 milhões.

p.s.: No dia 19 de junho, a Amazon Prime exibe o thriller “7500”, um dos destaques de Locarno em 2019, tendo Gordon-Levitt à frente do elenco. Seu diretor, Patrick Vollrath, esbanja eficácia na construção do suspense. A trama se desenrola ao longo de 92 minutos dentro de uma cabine de um avião. A aeronave foi sequestrada por terroristas, nos céus da Alemanha, e cabe ao piloto vivido por Gordon-Levitt tentar conter os criminosos.

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