‘Madres Paralelas’: fraco Almodóvar pandêmico

‘Madres Paralelas’: fraco Almodóvar pandêmico

Rodrigo Fonseca

02 de dezembro de 2021 | 13h52

Ana (Milena Smit), com um bebê no colo, e Janis (Penélope Cruz) conversam sobre maternidade no novo longa-metragem do espanhol Pedro Almodóvar – filme aquém de seu legado

RODRIGO FONSECA
Ao fim da projeção de “Madres Paralelas”, no MK2 Quai de Loire, numa friíssima Paris de 1º de dezembro, a plateia que saia da sessão do mais recente Almodóvar – com uma cara que em nada combina com as reações habituais à obra mastodôntica do cineasta espanhol – engatou um papo sobre o limite entre reiteração, esgotamento e autoindulgência numa linhagem tão autoral quanto a do realizador de “Maus Hábitos” (1983). Como fomos (bem) acostumados por ele a enveredar por narrativas onde uma surpresa nos espera a cada esquina, escapada muitas vezes por uma direção de arte e uma fotografia sofisticadíssimos, a reação ao mais recente “almodrama” (como diz Caetano Veloso, amigo do diretor) é de uma frustração incômoda, de uma decepção frente a uma experiência inegavelmente maculada por limitações de produção inerentes à pandemia da covid-19. É um Almodóvar pandêmico, que tosse autorreferências, mas não transcende, apesar do empenho vigoroso de Penélope Cruz. A conquista da Copa Volpi de melhor interpretação feminina em Veneza, em setembro, foi mais do que merecida, pois ela consegue levar sua personagem, a fotógrafa Janis, a instâncias de onde um roteiro acanhado – amordaçado à uma pequenez indisfarçável – a derruba. Pena. Sobretudo depois de “Dor e Glória” (2019), uma obra-prima, os fãs da estética almodovariana – entre eles o P de Pop – aguardavam uma transgressão à altura do que ele sempre nos deu. Mas esta não veio, ainda que não se possa falar em enfado acerca desse longa, que chega ao Brasil só em 2022, via Netflix.
Ao inaugurar o 78º Festival de Veneza, no dia 1º de setembro, com a saga de Janis, Almodóvar regressou ao pódio que lhe garantiu o passaporte para o estrelato mundial, 33 anos atrás. Foi lá que o espanhol entrou pela primeira, e única vez (até 2021), em disputa pelo Leão de Ouro. Concorreu com “Mulheres À Beira De Um Ataque De Nervos” e saiu da terra das gôndolas, em 1988, com o prêmio de melhor roteiro e a promessa de se tornar o pilar do melodrama nas décadas seguintes. Na ocasião aquela comédia – o oitavo longa-metragem dos 23 que dirigiu de 1978 pra cá – rendeu ao cineasta de 71 anos uma bilheteria estimada em US$ 7 milhões – algo raro, à época, prum filme egresso da Espanha. Onze anos depois, “Tudo Sobre Minha Mãe” daria a ele a consagração autoral definitiva, um Oscar de melhor filme estrangeiro e um faturamento de US$ 67 milhões na venda de ingressos. É o que ainda se espera da nova incursão de Almodóvar ao universo materno. Lançado no dia 8 de outubro em seu país de origem e esperado para o Natal nos EUA, o longa é encarado como um potencial ímã de indicações a estatuetas de Hollywood (mesmo não sendo exuberante), graças ao trabalho de Penélope. Ao lado dela está Milena Smit, em uma atuação sem grandes viços.

Em 2011, quando exibiu “A Pele Que Habito” na briga pela Palma de Ouro, Almodóvar falou de “Madres Paralelas” pela primeira vez, definindo-o como um “Dom Quixote da maternidade”. Na trama, duas mulheres de idades e classes sociais diferentes dão à luz no mesmo dia. Janis (Penélope) está radiante com a chegada de seu bebê. Mas Ana (Milena) não sente a mesma alegria, por ser uma adolescente que engravidou sem estar preparada. Batizada por uma mãe hippie (já finada) em referência à cantora Janis Joplin, a personagem de P. Cruz é empoderada até o fio das madeixas, dedicando-se a um projeto de fotografar resquícios da Guerra Civil espanhola em sua cidadezinha. Ela quer escavar sítios onde há vestígios dos crimes desse conflito. É onde conhece o antropólogo Arturo (Israel Elejalde, numa atuação em ponto morto, quase caricata), um sujeito de um machismo enrustido em modos elegantes. Os dois regam seus papos a vinho e acabam na cama. Janis engravida. Ele, casado, sugere a ela um aborto. Ela rechaça e acaba, numa elipse, aparecendo para nós em uma maternidade, onde vai cruzar com Ana. As duas vão trocar experiências e firmar uma amizade que, anos depois, há de detonar um processo doloroso.
Até esse processo ser detonado, só o que se confere de Ana é que se trata de uma pessoa sem projetos, marcada por uma tragédia: seu bebê morre de “morte súbita”, por questões respiratórias. Sabemos ainda que Ana tem uma mãe complicada, a aspirante a atriz Teresa, papel dado à majestosa ítalo-espanhola Aitana Sánchez-Gijón, parceira de Keanu Reeves em “Caminhando nas Nuvens” (1995) e de Christian Bale em “O Operário” (2004). Teresa vai ter a chance de voltar aos palcos logo após Ana parir. Abraça essa oportunidade sem pestanejar, deixando a filha mais isolada e mais próxima de Janis. A conexão que surge entre elas só não vai ser mais plena por conta uma virada que, em outros tempos, Almodóvar encharcaria de sangue e virulência. Mas o que ele nos entregou parece um arremedo de folhetim de Manoel Carlos. E, para piorar, as tais elipses acima mencionadas são construídas numa montagem de muitos picotes, que parece moer sequências dignas de esgarçamento. Há uma sensação de que essa edição rápida foi uma forma de disfarçar os percalços de realização de um longa rodado em meio ao surto de coronavírus.
Sabe-se que a fogueira Almodóvar já ardeu com mais continuidade n’outros tempos, não só os tempos de sua mocidade, mas tempos de menos caretice no mundo, que, hoje, encontra-se na Idade Média quando se fala em desejo e em corpo. Talvez por isso, seus dois últimos trabalhos, o curta “A Voz Humana” (rodado em inglês, com a atriz Tilda Swinton, e lançado em Veneza, em 2020) e o já citado “Dor e glória” pareçam reações de basta, como uma resposta desesperada às crises morais do presente. Respostas em forma de “esta é minha vida”. Mas, há que se ter cautela nisso, pois Almodóvar afirmou em Cannes, em 2016: “Jamais vou permitir uma biografia minha, pois a história de minha vida está dividida entre cada um dos filmes que filmei”. É uma cautela que se relativiza quando se lembra de Fellini, a dizer: “Assim como toda pérola é a autobiografia da ostra, todo filme é a biografia de seu diretor”. Mas há um passo além na relação especular entre autor e obra aqui. Até roupas de Pedro foram usadas em “Dor e Glória” como modelo do vestuário de Salvador (papel de Antonio Banderas), um cineasta cheio de crises em sua vida amorosa, em sua relação com as drogas e em sua saúde. Ele busca a paz com o astro de seu primeiro filme, que acaba de ser desenterrado para uma exibição em uma cinemateca espanhola.

Para classificar esses trabalhos mais recentes, incluindo “Madres Paralelas”, o “caetaneado” conceito de almodrama é perfeito. A palavra sugere uma releitura folhetinesca dos afetos a partir de parâmetros que não são da realidade e sim do legado histórico do melodrama. Há quem classifique o filão de metamelodrama. Esse rico verbete é parte das pesquisas de dramaturgia feita pelo professor José Carvalho, hoje considerado o mais prestigiado teórico sobre roteiro no Brasil, que leciona como escrever para cinema e TV no Rio e em São Paulo na Oficina Roteiraria. Com base nas reflexões antropológicas do americano David Bordwell e nos ensaios geopolíticos do português João Maria Mendes, Carvalho consolidou essa expressão a partir da ideia de que o realizador de “Áta-me” (1989) cria seu universo com base no tecido visual “vivo” derivado do melodrama clássico e de suas releituras modernas, de Douglas Sirk a Rainer W. Fassbinder. O problema de “Madres Paralelas” é que, em vez de se reportar a Sirk ou Fassbinder, ele parece um requentar de fórmulas do próprio Almodóvar, perdendo-se na premissa política de inquietação com a Guerra Civil da Espanha – enredo que não cola com nada mais em cena. Sobra apenas a força de Penélope e a direção de arte exuberante de Antxón Gómez.

p.s.: Em sua reta final, para terminar no domingo, o 43º Festival do Cairo segue consagrando filmes memoráveis, com destaque para o drama romeno “Imaculada” (“Immaculate”), de Monica Stan e George Chiper-Lillemark, que chegou de Veneza cercado de elogios. Um primor de roteiro assegura chão para essa dupla de cineastas romenos decolar, tendo como combustível uma montagem que valoriza conflitos inerentes à dimensão intimista de sua protagonista, a jovem Daria. Quando o namorado dela, um rapaz viciado, vai parar na prisão, a moça é enviada pelos pais a uma clínica de reabilitação para largar a heroína. Ali, a lealdade incondicional ao namorado a transforma em uma figura extraordinária aos olhos dos homens que também estão internados, o que acaba a protegendo de abusos sexuais. Mas a chegada de um misterioso paciente muda sua rotina.

p.s.2. Bancas de toda Paris estão vendendo uma coleção de encadernados do “Tenente Blueberry”, caubói criado por Jean-Michel Charlier e Jean “Moebius” Giraud em 1963. É a fina flor das HQs de western à francesa.

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