‘Madre’ ilumina os ‘Orizzonti’ do Lido

‘Madre’ ilumina os ‘Orizzonti’ do Lido

Rodrigo Fonseca

31 de agosto de 2019 | 12h48

Rodrigo Fonseca
Terra de Pedro Almodóvar, ganhador do Leão de Ouro Honorário de 2019, a Espanha ficou a bandeira da excelência nos Orizzonti do 76º Festival de Veneza: ventos ibéricos trazem o melhor filme da seção que, anos atrás, revelou o brasileiríssimo “Boi Neon” à Europa.  Vivendo uma fase de apogeu no streaming e na TV, o atual agito audiovisual dos espanhóis brilhou no Lido com o folhetim “Madre”, de Rodrigo Sorogoyen. É Douglas Sirk em versão “La casa de papel” com uma fotografia exemplar. Um estudo sobre fraturas afetivas rege a narrativa do realizador de “Que Diós nos perdone” (2016). Em seu novo filme, que tem repeteco neste sábado em Veneza, Elena (a arrebatadora Marta Nieto) passa dez anos atrás do filho desaparecido (o guri some numa praia) e monta um restaurante no local onde seu moleque foi visto pela última vez. Lá, trava amizade com um adolescente pimpão muito parecido com seu rebento. Mas esse convívio com o jovem vai entorpecer sua lucidez.

Sorogoyen é a nova potência das telas em seu país. Em 2018, ele mobilizou o BFI London Film Festival com “El reino”, longa centrado numa assombração que insiste em puxar o pé dos brasileiros (e dos europeus): a corrupção. “Diante de vários contratempos em nossa realidade e todo o histórico que temos com o cinema autoral, a Espanha está reagindo, nas telas, às questões mais conflituosas do dia a dia, gerando uma nova filmografia que dialoga com a melhor cartilha dos filmes de gênero”, disse Sorogoyen ao P de Pop. “Gosto de traduzir a tensão em movimentos de câmera”.

Cresce, dia após dia em Veneza, o cacife estético de um dos concorrentes ao Leão de Ouro: “The perfect candidate”, da diretora Haifaa Al-Mansour (Arábia Saudita). Crítica ao machismo institucionalizado, o longa de Haifaa narra o périplo de uma jovem médica para ser eleita a um cargo administrativo público em seu país, pautado pela intolerância. Seu roteiro é um ímã de elogios. “Quando um cineasta homem faz um sucesso de público ou de crítica, seu filme seguinte já tem produção garantida ou, no mínimo, uma conversa garantida com fontes de financiamento. O mesmo já não posso dizer sobre a sorte das mulheres diretoras, em uma indústria de disparidades”, diz Haifaa, forte candidata ao prêmio de melhor roteiro.

Veneza segue até o dia 7.

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