‘Madalena’ pulsa no coração da Mostra de SP

‘Madalena’ pulsa no coração da Mostra de SP

Rodrigo Fonseca

30 de outubro de 2021 | 10h14

Rodrigo Fonseca
Exibido em alguns dos mais prestigiados festivais do planeta, começando por Roterdã, em janeiro, com parada (aclamada) em San Sebastián, em setembro, “Madalena”, filme vindo da região Centro-Oeste do Brasil, estreia neste fim de semana na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Tem sessão dele neste sábado, às 21h20, no Cine Marquise, com repeteco neste domingo, às 16h15, no Espaço Itaú da Frei Caneca. No dia 2 de novembro, às 16h10, rola sua última sessão no evento, no Reserva Cultural. E ainda tem projeção do longa-metragem de Madiano Marcheti na plataforma Mostra Play (www.mostra.org).
Radiografia da brutalidade transfóbica de um Brasil (cada vez mais) intolerante, “Madalena” é um dos filmes brasileiros de maior visibilidade no mundo neste momento. Ganhou prêmios na Turquia e no Peru. Explodiu nas telas de Biarritz. Onde ele passa, faz sucesso. Marcheti, seu diretor, é um estreante em longas, com curtas refinados no currículo (como “Vácuo” e “Essa barra que é gostar de você”). Egresso do Mato Grosso e formado pela PUC-RJ, o diretor nasceu em Porto dos Gaúchos e foi criado em Sinop. Atualmente, está radicado em Maputo, Moçambique.

Orçado em R$ 1,9 milhão, com investimento único do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e apoio local do Governo do Mato Grosso do Sul, “Madalena” foi rodado em Dourados e Bonito, em novembro e dezembro de 2018. Sua trama incorpora o esplendor natural de sua “arena” dramatúrgica desde a primeira sequência, onde a beleza contrasta com a violência: o corpo de uma mulher trans foi encontrado em campos de soja. Mais adiante, o espírito dela parece flanar por aquela geografia verde, numa representação metafísica do horror diante da transfobia. Embalada por uma onipresente sensação de tensão, nunca taquicárdica, mas viva, a narrativa se constrói a partir de uma figura ausente: é a descoberta do cadáver de Madalena que detona a inquietação dos três protagonistas, Luziane (Natália Mazarim), Bianca (Pamella Yule) e Cristiano (Rafael de Bona), que não têm conexões entre si, egressos de realidades socioculturais diferentes.
“A representação que historicamente tem sido reservada a personagens trans no cinema e, principalmente, na televisão é extremamente problemática, sendo um claro reflexo de um mundo construído a partir de uma lógica cisgênera e heteronormativa, que enxerga corpos trans como desviantes”, disse Macheti ao P de Pop em San Sebastián. “Vejo dois caminhos muito claros de como pessoas trans têm sido representadas, de maneira problemática e deturpada, na cultura popular: através do prisma da criminalidade/marginalização ou através da ridicularização, de um pretenso humor jocoso e ofensivo. Crescemos vendo personagens ou pessoas trans na TV, mas elas só apareciam nos noticiários policiais sensacionalistas, seja como vítimas de violência ou homicídio ou como as autoras de crimes. E, frequentemente, são crimes pequenos, e nesses casos com as travestis ou pessoas trans sendo retratadas com um “humor” de muito mau gosto, jocoso. Por outro lado, também crescemos vendo personagens trans em programas onde elas eram quase sempre retratadas como objeto de piada e do ridículo – quase sempre interpretadas por atores cisgêneros e homens heterossexuais. No cinema não foi tão diferente. Personagens trans eram geralmente associadas ao universo noturno ou marginal. Mas, nos últimos anos, as coisas mudaram”.
Segundo Marcheti, muitos filmes brasileiros hoje abordam o tema da transexualidade de outra forma, buscando outros caminhos de representação que fogem desses estereótipos tão negativos. Na televisão também. “Fico muito feliz em ver que agora há espaço para que uma personagem trans (interpretado por um homem trans) possa, por exemplo, dar um beijo em uma telenovela. É um super avanço. Mas as imagens das pessoas trans que parte da minha geração e das passadas estavam acostumados a ver, permanecem com força no imaginário popular. Afinal, são décadas dessa construção”, diz o cineasta. “O ‘Madalena’, assim como diversos outros filmes brasileiros, inserem-se numa onda que ajuda a romper essa forma de representação viciada em relação às pessoas trans. E isso é preciso. Pois este tipo de representação ajuda a perpetuar a estrutura social e institucional de exclusão que força pessoas trans para às margens da sociedade e servem como base para a propagação de várias formas de violência, não somente em termos de violência física, mas também outras formas como violência verbal, psicológica, barreiras legais, obstáculos de acesso à educação, saúde e mercado de trabalho, etc”.

Há outros dois títulos obrigatórios na Mostra Play 2021, online até quarta:
LUA AZUL (“Crai Nou”), de Alina Grigore (Romênia): Prêmio máximo de San Sebastián, um dos sete festivais mais prestigiados do mundo, a Concha de Ouro coroou o germinar de mais uma lavoura estética da Primavera Romena, movimento audiovisual mais sólido deste século, até agora, centrado no levante de Bucareste e seus arredores, a partir de filmes que discutem a corrupção estatal e abusos morais. Em doída atuação, Ioana Chitu interpreta Irina, estudante que luta para conseguir chegar ao ensino superior e, assim, escapar da violência de sua família problemática. Uma experiência sexual ambígua com um artista estimulará a intenção da garota de combater essa violência familiar.
LISTEN, de Ana Rocha de Sousa (Portugal – Reino Unido): Laureado com 22 láureas desde o Festival de Veneza de 2020, quando ganhou o Prêmio do Júri da seção Orizzonti e o troféu Luigi De Laurentiis (de melhor filme de estreia), esse drama social celebra a maternidade. Na trama, um casal luso, Bela (Lúcia Moniz) e Jota (Ruben Garcia), tenta pagar as contas de uma vida em Londres, para onde foram atrás de mais e melhores oportunidades de emprego. Mas tudo dá errado para eles e seus três filhos, ameaçando uma intervenção judicial que os separe.

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