Macunaíma visita ‘Sertânia’

Macunaíma visita ‘Sertânia’

Rodrigo Fonseca

02 de março de 2021 | 08h32

Rodrigo Fonseca
Eleito o melhor longa-metragem de 2020 pela Associação Paulista dos Críticos de Arte, a APCA, num empate com “M8 – Quando a Morte Socorre a Vida”, o faroeste metafísico “Sertânia”, de Geraldo Sarno, vai ser debatido esta terça à noite no respeitado Cineclube Macunaíma, da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Sob a coordenação de Zezé Sack e Vera Perfeito, mediado por Ricardo Cota, o papo reúne Sarno, o ator Júlio Adrião e o fotógrafo Miguel Vassy. Juntam-se a eles os diretores Eryk Rocha e Silvio Tendler. A projeção será às 18h e a conversa entre os convidados, 19h40.

Apinhado de simbolismos sociológicos e cinéfilos, “Sertânia” foi lançado em circuito no fim do anos passado. No brado “O povo não tem culpa de passar fome”, o novo longa-metragem do baiano Geraldo Sarno rearranja as peças do tabuleiro do “nordestern”, criando um faroeste alegórico que dialoga frontalmente com a herança do Cinema Novo. O diálogo começa pela obra de seu próprio realizador – ao evocar seu seminal “Viramundo”, de 1965 – e resvala em “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” (1969). De certa maneira, na dinâmica de desterrar o Real, indo para o onírico e para um extracampo de crítica genética (termo ligado à representação do próprio processo de filmagem na cena), lembra-se de “Os Inconfidentes” (1972), de Joaquim Pedro de Andrade, no empenho de se espatifar mitologias que os livros transformaram em folclore ou em verbetes. É o que se processa aqui na releitura do ethos do cangaço, distendendo sua gramática para além dos códigos do banditismo social. Em uma narrativa de avassaladora fotografia (assinada por Miguel Vassy, de “Breve Miragem de Sol”), menos preocupada com um enquadramento apolínio dos rostos e mais preocupada em captar rasgos da fantasmagoria de um passado que se desmancha, Sarno nos leva a um mundo pré Lampião, no qual os cangaceiros são jagunços que frequentam a casa dos coronéis. Quebra-se aí um paradigma de exposição deste universo (transformado em gênero no Brasil, vide joias como “Bacurau”), o que leva Vassy a “deixar” estourar luz nas panorâmicas, distorcendo certezas, objetividades, sensos absolutos. Da mesma maneira como em “Os Inconfidentes”, o Tiradentes de José Wilker tinha seu devir heroico em sua incongruência de poeta angry man com os demais conspiradores, sem perceber um traço de corrupção a sua volta, o “herói” do mundo seco de Geraldo é um mosquiteiro que custa a dimensionar a microfísica do Poder à sua volta. Numa linha de roteiro similar à de “Sunset Boulevard” (“Crepúsculo dos Deuses”), temos, cá, um narrador em agonia: baleado, o tal mosquiteiro, no caso, o quase-cangaceiro Gavião, antes batizado de Jararaca e, em sua gênese, de Antão (Vertin Moura), relembra sua história de cactos e de saúvas ao lado de um senhor da guerra. Tal senhor é Jesuíno, o Encourado, papel no qual Julio Adrião dá banhos de descarrego na plateia, num trabalho de composição capaz de tangenciar várias feridas sociológicas das Américas. Ele é ao mesmo tempo ave de rapina e cordeiro: “Só chego quando não estão me esperando”, diz, ameaçador. Jesuíno é o espelho do pai que Antão perdeu em Canudos, de onde só trouxe uma pedra. Cresceu em São Paulo, virou soldado e, adulto, amalgama-se no cangaço em busca de um chão tão esturricado quanto sua alma. Jesuíno é a única bênção. Ou quase. A dado momento, como num spaghetti western à la “O Dia da Ira” (1967), Antão vira Giuliano Gemma e Jesuíno, Lee Van Cleef, num choque trágico. A evocação ao faroeste dos italianos, como Tonino Valerii (artesão pouco celebrado), vem não apenas pela dimensão trágica a eles inerente, mas pela caracterização formal dos tiroteiros, estilizados, porém regados a uma adrenalina que o cinema sociológico brasileiro costuma refutar, numa ação antibrechtiana, de violência à vera. Mas “Sertânia” é um filme do avesso, rebelde e vivo, da mesma forma como Sarno foi em seu grandioso “Coronel Delmiro Gouveia” (Grande Prêmio Coral no Festival de Havana, em 1979). Não é o Cangaço com “C”, do anti-heroísmo político, mas, sim, o cangaço dos pactos, das negociações, no qual um projeto quase inconsciente de reforma, como o de Antão, é traído para a manutenção da força. A montagem de Renato Vallone (parceiro habitual de Eryk Rocha) e Geraldo consegue deslindar toda a ilusão que os relatos orais, e mesmo cinematográficos, concretizaram por sobre os estratagemas dicotômicos de força nesse sertão. As alucinações de Antão ferido gravitam entre memórias, delírios febris e distanciamentos reflexivos, sendo que, nestes últimos, o diretor se engata para expor o próprio processo, a própria câmera, libertando o espectador do pacto da crença, de modo a negar a teatralidade da encenação, que transborda sobretudo em Adrião e nas participações do sempre potente Lourinelson Vladimir em papéis distintos e em caracterizações distintas. Não por acaso, um recurso técnico de “pintura viva” é usado numa recriação da Santa Ceia com “motivos” cangaceiros – ponto máximo do longa. Vemos ainda retratos posados de pessoas que olham para a câmera perplexas, não apenas em uma legitimidade da busca de um povo por interlocução, mas na reiteração da centelha autoral de Sarno de evocar um senso de espanto, mesclado ao desterro, nos olhos de personagens. Havia a mesma sanha em seu “Tudo Isto Me Parece Um Sonho”, pelo qual ele ganhou o Candango de melhor direção em Brasília, em 2008. Sarno incorpora em seus filmes algo do “Angelus Novus”, quadro de 1920 de Paul Klee (1897-1940), descrito como o anjo da História, que olha para as incongruências dos homens de modo atônito, numa ascese assombra. Isto é “Sertânia”, um exercício magistral de um cineasta que cartografa os espantos do Brasil.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.