‘Macabro’, um gol do cinema de gênero

‘Macabro’, um gol do cinema de gênero

Rodrigo Fonseca

12 de dezembro de 2019 | 12h17

Rodrigo Fonseca
No hiato (criativo) de 15 anos que separa “Estamira” (2004) de “Macabro”, mais recente filme de Marcos Prado, este cineasta carioca ganhou mundo e amealhou prestígio como produtor, na dianteira do sucesso da franquia “Tropa de Elite”, e ainda arrecadou elogios e prêmios por seus longas como diretor. Arriscou uma ficção com “Paraísos artificiais” (2012) e meteu um golaço em prol do real com o .doc “Curumim” (2016). Pilotou ainda episódios do seriado “O Mecanismo”. Mas seu mais recente trabalho periga ser o exercício mais valioso de sua estrada pelas narrativas audiovisual desde sua investigação sobre a psiquê nietzschiana de Dona Estamira. Seu thriller de suspense indicado ao troféu Redentor do Festival do Rio (com sessão nesta quinta, às 21h30, no São Luiz) é óvni em relação a tudo o que se ensaia de cinema de gênero no país. Não é uma narrativa que peça filiação às fileira do dito Novo Terror, tampouco é um policial sociológico, como se viu historicamente em “A próxima vítima” (1983), de João Batista de Andade, ou no recente (e poderoso) “No coração do mundo”, de Maurílio e Gabriel Martins. É algo nas franjas de “Se7en” (1995), não no naipe da tessitura plástica, mas em seu olhar sobre assombros mediados por imposição de poder, na institucionalização da exclusão. É menos sociologia e mais fabulação, com um anti-herói bem definido em sua aretê de guardião, o policial Teo, (bem) vivido por Renato Góes. Mas não faltam denúncias, sociais e morais, com destaque para um (necessário) ataque ao racismo.
Estamos nos anos 1990 e o foco é o caso (real) dos Irmãos Necrófilos da Serra dos Órgãos em Nova Friburgo. São dois irmãos – negros, paupérrimos e analfabetos – aos quais é imputada uma série de assassinatos brutais. Um jovem (o ótimo Daniel Chagas) é assassinado a golpes logo nas primeiras cenas, na qual é informada a predileção dos criminosos por matar mulheres. Aquele tal rapaz assassinado estava numa relação sexual com uma moça quando foi abatido. Dali pra frente, o roteiro de Rita Glória Curvo e Lucas Paraizo exuma não apenas os cadáveres, mas também (e principalmente) o universo que produziu tamanha brutalidade. É um estudo de Física, mais do que um ensaio moral: a questão é entender os vetores que geraram aquelas mortes. Para essa análise vetorial – carregada de cenas de ação e pontuado por uma briga bem coreografada -, a presença de um protagonista fraturado como Teo soa essencial. Ele caiu em desgraça por um erro de seu trabalho no Bope, que não passa por corrupção, mas por erro de processo. Descobrir quem está matando naquela idílica região serrana é uma forma de expiar seus pecados. Mas essa expiação vai esbarrar na vontade política de uma polícia a serviço de um ethos excludente. Assim, Prado nos dá um “No Calor na Noite” sobre os mecanismos da exclusão racial. É contra ele que Teo precisa se impor. É ali, na segregação, que reside o que realmente existe de… macabro… no Brasil. Um Brasil que Azul Serra fotografa sem lugares comuns de cartão postal. No elenco, Paulo Reis se impõe com uma imponente atuação como um aspirante a latifundiário que deseja controlar a realidade à sua volta. Isso até que a roda gira, macabramente.

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