‘macaBRo’ revisita o terror nacional

‘macaBRo’ revisita o terror nacional

Rodrigo Fonseca

02 de novembro de 2020 | 10h40

“O Animal Cordial” será exibido nesta quarta

Rodrigo Fonseca
Neste feriado de Finados, o Dia dos Mortos, em que a TV Globo marca um golaço em prol do extra-ordinário e da luta contra o crime do racismo ao exibir “Corra!” (“Get Out!”, 2017), em sua “Tela Quente”, às 23h, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) mobiliza olhares, via web, com a retrospectiva “macaBRo – Horror Brasileiro Contemporâneo”, em cartaz até o dia 23 de novembro. Organizada a partir de uma curadoria pensada por um dos mais gabaritados pesquisadores do gênero, o crítico Carlos Primati, e pelo prolífico produtor Breno Lira Gomes, a mostra é uma homenagem a filmes brasileiros no filão do assombro. É um evento online, gratuito, a ser realizado na plataforma digital DarkFlix, com debates, cursos, lives, com mais de 40 filmes, entre longas e curtas-metragens, assumindo José Mojica Marins (1936-2020), o eterno Zé do Caixão, como um deus. Nesta segunda, a pedida é “Sem Seu Sangue”, de Alice Furtado, que levou o Brasil à Quinzena dos Realizadores de Cannes, em 2019 – sessão às 18h, seguida de papo com Primati. Na quarta, às 20h, rola uma obra-prima: “O Animal Cordial”, de Gabriela Amaral Almeida, com antológica atuação de Murilo Benício, coroada com o troféu Redentor do Festival do Rio 2017.

Qual é hoje a principal característica de brasilidade de nosso cinema pop e no cinema cult na seara do horror?
Carlos Primati:
Eu defendo que o cinema de horror brasileiro é essencialmente autoral, pois ele reflete de maneira bastante fiel a visão de mundo, os valores pessoais, sociais e políticos, os temores e anseios de seus realizadores, que muitas vezes são tanto diretores quanto roteiristas de seus filmes e, não raramente, também produtores. A brasilidade, portanto, acaba aparecendo ao refletir, nas narrativas, o cenário no qual estão inseridos seus realizadores, as forças criativas por trás de cada obra. Vivemos uma era de intensa interconectividade, de excesso de impulsos, estímulos, informações e acesso a todo tipo de material. O ideal antropofágico já nem é mais um movimento de reafirmação de identidade cultural; é um caminho inevitável e uma representação quase automática do gênero cinematográfico transformado numa visão abrasileirada. O horror pop brasileiro pode ser exemplificado pela obra do capixaba Rodrigo Aragão, com seus zumbis da lama, criaturas das matas ou vampiros jesuítas. Em todas as obras, ele consegue combinar um conceito universal, da ameaça imediata que esses monstros representam, com um cenário que é muito familiar à ele, que nasceu e cresceu à beira do mangue e em aldeias de pescadores. Naquilo que podemos considerar cult, ou com uma proposta mais existencialista, contemplativa ou simplesmente arredia a regras convencionais do horror, temos filmes como “Mate-me por favor”, da Anita Rocha da Silveira; “As boas maneiras”, de Juliana Rojas e Marco Dutra; ou “A noite amarela”, do Ramon Porto Mota, nos quais os cenários, sotaques, musicalidade ou cultura local contam histórias regionais que acabam tendo apelo universal pela presença do elemento fantástico (principalmente o medo da morte, do desconhecido e do inexplicável), que dispensa tradução.
Qual é o lugar do terror na indústria das mostras de cinema? Existem tabus na seleção dos filmes para um festival? Quais?
Breno Lira Gomes:
O interesse em projetos de retrospectivas de cinema com a temática do terror tem se tornado uma constante. Nos últimos anos, eu mesmo produzi e assinei a curadoria de três projetos desse tipo: “Monstros no Cinema em 2018”; “Stephen King – O medo é seu melhor companheiro”, em 2019; e no momento a “macaBRo – Horror Brasileiro Contemporâneo”. Juntas, as duas primeiras que aconteceram de forma presencial no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, levaram mais de 23 mil pessoas às unidades do Centro Cultural Banco do Brasil, que realizou as retrospectivas. Acho que isso comprova o interesse por parte do público. Ainda há uma parcela do público e até mesmo da imprensa/crítica, que torce o nariz para esse tipo de projeto. Isso é uma pena, pois acabam perdendo a oportunidade de assistir pérolas da sétima arte e de comprovar que muitos desses filmes não são mero entretenimento. Eles têm muito a dizer sobre a sociedade tanto quanto qualquer produção “cabeça” do chamado circuito de filmes de arte. Quanto a tabus na seleção dos títulos, eu acredito que o curador quando começa a organizar os filmes de uma mostra desse tipo precisa pensar primeiro em que público ele quer chegar. O fã de terror já é certo de ter. É preciso conquistar justamente aquele que a princípio torce o nariz. Para isso, a seleção precisa ser bem criteriosa, reunindo filmes que de alguma forma irão complementar um ao outro. E é preciso ter menos pudor no critério de escolha dos títulos, até mesmo os filmes que tratam de temas espinhosos precisam ser programados, justamente para gerar o debate, a discussão saudável sobre o tema apresentado, a linha narrativa e a estética adotada pelo realizador. Óbvio que muito do gosto pessoal do curador, principalmente numa mostra temática que é mais aberta do que a retrospectiva de um cineasta, por exemplo, está presente na programação. E até mesmo títulos que ele possa considerar menos interessantes são necessários estarem presentes na programação pois podem ser justamente o complemento de uma outra obra que é mais impactante imageticamente.

O quanto o legado de José Mojica Marins ainda nos serve de farol?
Carlos Primati:
O legado de José Mojica Marins é incalculável, e teve início logo que Zé do Caixão surgiu nas telas, ainda no final dos anos 1960, com os cineastas udigrúdi e com o cinema marginal, seguindo pela trajetória da Boca do Lixo e tocando em praticamente todas as vertentes do horror nacional. Mojica serviu de inspiração, talismã e bússola; mesmo quem não cresceu assistindo aos seus filmes sabe reconhecer sua importância, no mínimo, por apontar que é possível fazer cinema de gênero no Brasil e, mesmo diante de todas as dificuldades, romper as barreiras, conquistar o mundo e tornar-se imortal.
O que o macaBRo aponta acerca da diversidade do horror no país?
Breno Lira Gomes:
O cinema de horror brasileiro está muito bem representado na mostra macaBRo. Praticamente todas as regiões do país estão representadas na retrospectiva. Só não temos filmes da região Norte. Mas há uma produção de curtas-metragens cinema fantástico acontecendo no Pará que precisa ser conhecida e apreciada, pois os realizadores estão fazendo filmes justamente na linha do que o José Mojica Marins sempre defendeu: contando histórias apavorantes de lendas e mitos da região amazônica. Tive contato com essas produções em 2018, quando fui júri no Festival Maranhão na Tela, e fiquei encantado. Eu e o Carlos Primati, que divide a curadoria da macaBRo comigo, estamos atentos a essa produção. E, quem sabe, numa próxima edição da mostra, a gente consiga trazer esses filmes. Levantamos a curadoria e produção da macaBRo em menos de um mês, e, infelizmente, nós tivemos que deixar alguns filmes de fora. Hoje você tem uma grande diversidade de produções, uma riqueza de histórias e estilos, que é uma grande característica do nosso cinema em geral. Você tem Rodrigo Aragão, no Espírito Santo, que faz um cinema que posso chamar de guerrilha do terror, com muita trucagem, maquete, maquiagem e com histórias locais. O cinema dele impacta qualquer um que assistir. Aí, da Paraíba, vem a produtora Vermelho Profundo, que é um grupo formado por jovens fãs de horror, que resolveram fazer filmes nessa linha explorando uma outra forma de contar histórias apavorantes, que incomodam o espectador no bom sentido, usando uma mise en scène diferente da adotada por Aragão, por exemplo.

Qual seria o marco zero do horror no Brasil e que caminhos para o futuro o nosso terror aponta?
Carlos Primati:
Em termos de historiografia, costumamos apontar a comédia “O jovem tataravô” (1936), de Luiz de Barros, como o mais antigo filme brasileiro de longa-metragem a trazer elementos sobrenaturais, ainda que no registro da comédia: é sobre um fantasma inconveniente, ressuscitado por meio de um encantamento egípcio, e, depois, despachado de volta para o além num ritual de candomblé). Outros filmes se seguiram nos anos 1950, com melodramas góticos com assombração (“Presença de Anita”, “Meu destino é pecar” etc.), mas é inegável que o horror no cinema brasileiro só é impulsionado como um gênero identificado com a nossa cultura a partir de “À meia-noite levarei sua alma” (1964), de José Mojica Marins, o exemplar inaugural da saga de Zé do Caixão. O horror brasileiro aponta para uma multiplicidade de visões para o futuro imediato, que vai desde o terror escapista e de entretenimento (filmes de matança, de monstros clássicos ou de assombração), até os mais existencialistas, nos quais a falta de perspectiva de um futuro promissor, com uma sociedade doente e intolerante, serve de alerta para os horrores da vida real. A representatividade LGBT, por meio de histórias de horror queer, que reimaginam fórmulas clássicas de monstros como vampiros e lobisomens, também aponta para um futuro imediato no qual as ditas minorias passam cada vez mais a ser retratadas de maneira natural e digna. Porém, com o atual retrocesso nas políticas de audiovisual, o futuro é cada vez mais incerto e assustador.
Que estéticas se firmam hoje no horror no Brasil?
Breno Lira Gomes:
A macaBRo reflete a pluralidade do horror brasileiro, passeando desde filmes mais gore, de temática sobrenatural, de monstros ou monstruosidades, indo até aqueles que alguns críticos gostam de encaixar como “pós-terror”, expressão que acho de um preconceito tremendo com o gênero. Você tem a Gabriela Amaral Almeida que fez dois longas que considero incríveis (‘O animal cordial’ e ‘A sombra do pai’), onde os elementos clássicos dos slashers ou filmes de assombração estão presentes de uma forma muito particular. Não é mera cópia do que a Gabriela assistiu. Na maioria das vezes, as produções brasileiras recentes usam o elemento do terror, do fantástico, para falar dessa sociedade que está aí. O terror sempre fez isso, e acho que atualmente estamos discutindo mais essa questão, as mostras estão aí para cumprir essa função também. A forte presença de diretoras na realização desses filmes também contribui bastante para essa outra forma de contar histórias de terror. Claro que o fã de terror quer ver perseguição, sangue, ouvir gritos, pular de susto da cadeira. Mas não é só isso, e o cinema brasileiro de horror é a prova disso. Filmes que são impactantes tanto pela sua narrativa quanto pela sua estética. Produções que causam um certo desconforto ao final da exibição e que te fazem refletir, conversar sobre o que acabamos de assistir. Arrisco dizer que o nosso cinema de terror atual poderia ser chamado de “terror tropicalista”, pois o que vemos na tela é antropofagia pura. E da melhor qualidade.

p.s.: Saudades de Marilyn Monroe (1926-1962) com o Grupo Estação. Os críticos da Associação de Críticos do Rio de Janeiro (ACCRJ) irão esmiuçar a vida pessoal e profissional da atriz por trás do mito no Estação NET Botafogo 3. Foram escolhidas 19 produções que visam ilustrar cada passo da carreira de Marilyn: das pequenas participações aos projetos que a tornaram a maior estrela da constelação de Hollywood. Ao todo, serão 19 encontros que irão analisar os filmes, apresentar os fatos por trás das lendas, curiosidades, o papel da mulher na sociedade daquela época e também os desafios atuais. Será oferecido um pacote com desconto para participar dos 19 encontros, como também a possibilidade de assistir de maneira avulsa. Junto com o curso “Marilyn Monroe – A Maior Estrela de Hollywood”, será lançado um livro com textos sobre a vida e os filmes escrito pelos críticos da ACCRJ e profissionais da área de cinema.

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