‘Má Sorte no Sexo’, mas boa estadia em Cannes

‘Má Sorte no Sexo’, mas boa estadia em Cannes

Rodrigo Fonseca

19 de maio de 2022 | 09h57

Ganhador do Urso de Ouro de 2021, “Bad Luck Banging or Loony Porn” tem estreia prevista para junho, via Imovision, já agendada na Ingresso.Com

Rodrigo Fonseca
Seis anos depois de ter conquistado o Prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes com “Bacharelado”, o romeno Cristian Mungiu volta ao evento neste fim de semana, para brigar por uma segunda Palma de Ouro com “R. M. N.”, a saga de um imigrante da Transilvânia, que volta ao lar para refazer seus laços afetivos. A primeira ele conquistou com “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, há 15 anos, impressionando um júri presidido pelo inglês Stephen Frears. O sucesso daquele drama sobre um aborto clandestino permitiu que seu país, a Romênia, tivesse uma deixa para deslanchar nas telas. É de lá que vem “Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental”, o ganhador do Urso de Ouro na Berlinale de 2021. Seu trailer acaba de ser disponibilizado na web pela Imovision. Sua estreia aqui vai ser no dia 2 de junho.

Traduzido internacionalmente como “Bad Luck Banging or Loony Porn”, “Babardeala cu bucluc sau porno balamuc” vem da Romênia, sob a direção de Radu Jude. É de lá que tem brotado a mais sólida expressão de narrativas ficcionais realistas deste século, chamada de Primavera Romena e inaugurada há 17 anos, quando “A Morte do Senhor Lazarescu” (2005), de Cristi Puiu, lançou uma nova modalidade de realismo social, na qual investigações quase sempre debochadas (muitas delas de ritmo tenso) mostram as falências institucionais.
Falando de cultura do cancelamento numa combinação de expressões visuais (vinheta, esquete, clipe, documentário) no longa que ganhou o troféu mais cobiçado de Belim, Jude filma fiel ao procedimento básico da Primavera. Este supõe usar uma estética desdramatizada (poucas ações), em locações reais, filmadas com um olhar próximo do documentário, onde as tramas são sempre mote para que se aborde a decadência política (e moral) daquela nação a partir dos escombros sociais deixados como herança pelo Comunismo. E isso sempre é arejado por um humor dos mais ácidos. Desse projeto estético nasceram filmes de culto como “Além das Montanhas”, vencedor do Prêmio de Melhor Roteiro em Cannes, em 2012; “California Dreamin’”, de Cristian Nemescu; “O Tesouro” (2015), de Corneliu Porumboiu; “Instinto Materno” (Urso de Ouro de 2013) e “Ana, Mon Amou” (2017), de Cãlin Peter Netzer; e “Sieranevada”, do já citado Puiu. O filme de Jude é mais um (grande) exemplar desse cinema que exuma as cicatrizes nacionais para ficar para a posteridade no planisfério da imagem.

Longa de Jude é parte da Primavera Romena, que volta ao Festival de Cannes com “R.M.N.”

Há muitas sutilezas na fotografia de Marius Panduru, que, em certos momentos estilizados de mise-en-scène teatral ou operística, lembre as pérolas do sueco Roy Andersson (como “Da Eternidade”). Caberá a eles também a tarefa de detectar o parentesco que Jude estabelece com as prosopopeias animadas da Warner Bros., tipo “Looney Tunes” ou “Animaniacs”. Há momentos em que só falta o Patolino aparecer, com uma bigorna Acme na cabeça, no meio de uma Romênia que é devassada, de alto a baixo, em sua hipocrisia. Num meio termo entre uma coletânea de sketches e um espetáculo de comédia stand-up, o longa é dividido em três atos e uma sucessão de epílogos, sempre conectado com a percepção de que o Estado corrompido daquele país é um manancial de absurdos. E rimos de nervoso com a semelhança entre a corrupção deles e a nossa.
Gargalha-se de nervoso mesmo quando a câmara está apenas a observar o vaivém das ruas, seguindo a sua protagonista, a professora Emi (Katia Pascariu). Ao segui-la, o realizador de “Aferim!” (2015) já incorpora as máscaras de proteção ao coronavírus entre as suas personagens, datando propositadamente a sua narrativa ao surto pandémico do presente. A partir da histeria que se vive hoje, entre confinamentos, a comédia de Jude acompanha, em três segmentos formalmente diferentes entre si, a história do ataque a Emi depois que uma gravação dela (transando com o marido) é espalhada pela internet. Essa perseguição revela que há algo de medieval em todos os lados que apostam na bipolarização de ideias.

p.s.: Neste fim de semana, o Festival de Cannes vai receber o octogenário documentarista chileno Patricio Guzmán, que tem uma estreia na cidade nesta sexta-feira. Passeatas realizadas no Chile em 2019, em prol da democracia, foram transformadas por Guzmán no filme “Mi Pais Imaginário”. É um dos candidatos ao troféu L’Oeil d’Or, a Palma dos documentários, de 2022.

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