‘Má Educação’: Nota 0 em Ética; 8,5 em Direção

‘Má Educação’: Nota 0 em Ética; 8,5 em Direção

Rodrigo Fonseca

24 de maio de 2020 | 12h38

Rodrigo Fonseca
Três momentos emblematizaram o australiano Hugh Michael Jackman, hoje cinquentão, na memória da cultura pop dos anos 2000: a) a luta de Wolverine, numa jaula de vale tudo, em “X-Men” (2000); b) a sequência em que cantava “The Lives of Me”, no papel do compositor Peter Allen (1944-1992), no espetáculo “The Boy From Oz”, encenado na Broadway em 2003; c) seus números musicais na festa do Oscar de 2019. Nesta década houve “Logan”, que fechou o Festival de Berlim de 2017 e conquistou uma indicação ao Oscar por seu finíssimo roteiro. Teve ainda “Os Miseráveis” (2012), pelo qual recebeu um Globo de Ouro, e “O Rei do Show” (2017). E, nesta pandemia, ele tem usado o canal Gotcha4Life para promover atos de caridade e palestra motivacionais de acolhimento, para diluir os fantasmas da 40ena. É um trabalho bonito, que coincide com a presença dele na telinha, na HBO, no que periga ser seu melhor desempenho como ator, longe do arquétipo do carcaju da Marvel Comics: “Má Educação” (“Bad Education”). A querida Home Box-Office television disponibilizou o longa em seu streaming, o HBOGo, e exibe ele esta noite, às 22h, com repeteco na segunda, às 20h10. O jogo de cores, na direção de arte de Meredith Lippincott e Tommy Love é estonteante, assim como a fotografia de Lyle Vincent, sobretudo após seus sonolentos 25 minutos iniciais. Mas, passado esse ato inicial, vem uma lambida de provocação estética no desejo do espectador, sob a direção de Cory Finley. Este só havia feito um filme, “Puro-Sangue”, de 2017. Mas cumpre bem a responsabilidade de levar um fato real gravíssimo (uma fraude no sistema educacional dos EUA) a partir de uma narrativa que evoca a estética do cinema americano engajado dos anos 1970. Finley demora a quase meia hora para encontrar seu tom. Mas ao tangenciar um caminho de transcendência, segue morro acima. Mike Makowsky assina o roteiro com base em um artigo de Robert Kolker na “New York Magazine”, chamado “The Bad Superintenent”. Nele, fomos apresentados ao ex-professor (hoje superintendente de um condado em Nova York) Frank Tassone. Jackman dá vida a esse educador que, por uma cupidez e uma vaidade indisfarçáveis, fraudou as contas do orçamento público nova-iorquino, desviando uma fortuna, gasta em passagens, operações plásticas e cosméticos. Sua cupincha nos golpes é administradora Pam Gluckin, vivida pela brilhante Allison Janney, que infernizou Margot Robbie em “Eu, Tonya” (2017), ganhando um Oscar por isso. Os dois coiotes afiam as presas numa sequência bem-humorada, às voltas com um sanduíche. Mas, aos poucos, quando Pam tem os seus trambiques flagrados, por descuido, o sorriso de amizade dá lugar à perda de lealdade e à canibalização. O foco do trabalho de Finley, ao reviver esse caso, do início dos anos 2000, é mostrar o quanto a prepotência é um ascensor para o cadafalso.

Em “Bad Education”, uma estudante, Rachel (Geraldine Viswanathan, num triste show de caras e bocas), com sanha de repórter, flagra os desvios de $ e publica a história no jornal colegial local. É o início da derrocada de Pam e Tassone, que se mantém firme à ideia de que sua condição de professor dá a ele o direito à autocomiseração. O desenrolar de sua derrocada rende um telefilme vigoroso, que foi festejado em sua passagem pelo Festival de Toronto, o TIFF. Olho atento em Annaleigh Ashford, que vive a nora de Allison no longa. De um charme singular em sua forma de conjugar os verbos ao atraiçoamento, ela é uma surpresa do elenco, desfilando inteligência mesmo em curta aparição.
“Má Educação” terá mais uma exibição na HBO no sábado, às 12h50.

p.s.: Batizado de “Neighboring Sounds” nos EUA e de “Les Bruits de Recife” na França, “O Som ao Redor” será a atração do Telecine Cult desta madrugada, à 0h, estendendo tapete vermelho ao thriller de observação social (sobretudo da classe média) que transformou o pernambucano Kleber Mendonça Filho no mais festejado realizador brasileiro da atualidade. Ganhador de 38 láureas internacionais, incluindo o Troféu Redentor de Melhor Filme do Festival do Rio 2012, o longa-metragem começou sua carreira em Roterdã, de onde saiu com o Prêmio da Crítica, que é dado pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci). Na trama, os moradores de um condomínio de prédios, de uma área abastada da geografia recifense, tem sua rotina desestruturada pela chegada de uma milícia de seguranças. Irandhir Santos lidera o grupo de vigias.

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