‘M8’: Jeferson De e Mariana Nunes de bisturis afiados

‘M8’: Jeferson De e Mariana Nunes de bisturis afiados

Rodrigo Fonseca

15 de dezembro de 2019 | 11h50

A enfermeira Cida (Mariana Nunes) e o estudante de Medicina Maurício (Juan Paiva) lutam pela dignidade no universo de exclusões raciais de “M8 – Quando a Morte Socorre a Vida”, de Jeferson De (@fotos de Vantoen Pereira Jr.)

RODRIGO FONSECA
Parece que o Festival do Rio 2019 encontrou, na última sexta-feira, com repeteco pro público no sábado, “O” filme de sua Première Brasil. “M8 – Quando a morte socorre a vida”, de Jeferson De, merece essa adjetivação apaixonada não apenas em termos simbólicos, diante da luta atual contra o medievalismo, mas em termos estéticos, pelo amadurecimento (técnico, autoral e ético) de um realizador. E há nele uma atuação que se candidata a marcar época: em um elenco em estado de graça, vemos o dínamo Mariana Nunes em alto relevo. Não é um longa-metragem de digestão fácil – assim como nosso país -, o que faz dele uma experiência de ruminação… algo a ser absorvido aos poucos. É algo pra doer, em sua percepção das microfísicas do racismo numa terra onde um estudante de Medicina negro é sempre discriminado. Num domínio pleno da direção, Jeferson transborda sua autoralidade, que vem lá de “Bróder” (2010), não só pela menção a grandes ícones das lutas raciais (a doce menção à escritora Conceição Evaristo é um dos sinais), como por sua habilidade de esculpir camadas (várias… muitas) de radiografia do Real. Ele dirige indo e voltando às mesmas situações, de modo a expor podridões institucionalizadas.

Baseada em romance de Salomão Polakiewicz, a trama parecia ser algo próximo de “Morto não fala” (2018), ou seja, um rapaz que transita entre cadáveres consegue se comunicar com um deles. Mas não… Isso é uma redutora associação com o filme de Dennison Ramalho. O caminho de Jeferson é outro, bem distante da trilha das narrativas de gênero. É um drama de exumação de feridas sociológicas. Seu protagonista aqui é o estudante Maurício (Juan Paiva, de uma retidão invejável, retidão de samurai), que cursa a UFRJ com sonhos de se tornar um médico. Em meio à dissecação de um corpo, para estudar Anatomia, ele, ligado a religiões de matriz africanas (as mesmas que são acossadas hoje, pelos terraplanismos afins), sente que a alma do tal corpo está por ali. Essa é a sensação inicial. E, de fato, há algo de errado com essa alma, associada a um corpo (negro) batizado de M8 (o ótimo Raphael Logam, de “Impuros”, é o ator, numa interpretação de olhares). Mas a inquietação de Maurício não é com encostos e sim com a injustiça social. A justiça que reduziu aquela pessoa a uma sigla, sem um enterro, sem mãe para reclamar sua pertença. Mais do que isso, incomoda o fato de todos os corpos para estudo serem corpos negros, enquanto ele é o único afrodescendente de sua classe… quiçá de toda a escola. Segue-se aí uma jornada de múltiplas vias.

De um lado, Maurício quer saber que corpo é M8. Depois, cruza com um grupo de mães… negras… cujos filhos sumiram, e assume, para si, a tarefa de ajuda-las. E, há, ainda, a cruzada de maturação de afetos daquele rapaz que amadurece a golpes de martelo e abusos da PM, avessa ao fato de um jovem de sua cor frequentar a Zona Sul Maravilha do RJ. Essa andança pelas classes altas vem mediada por um amor, nos beijos de Suzana, papel dado a Giulia Gayoso, a revelação mais radiante desta Première, num gestual contido, numa postura sempre reflexiva. Cada passo da caminhada de Maurício, na construção de seu bushidô de ronin, tem como testemunha uma loba… uma loba rainha… Cida, enfermeira que dá a Mariana Nunes a deixa para botar o cinema brasileiro no bolso. E ainda tem cena dela com uma lenda, Pietro Mário, o Capitão Furacão, o dublador de Tony Soprano, no papel do médico rico que é patrão de Cida e tutor-padrinho de Maurício.

De tempos, grandes mulheres assaltam o olhar de nossa produção audiovisual com atuações de imolação, de doação, de epifania. O Festival do Rio testemunhou muitas, como Carla Ribas em “Casa de Alice” (2007); Karine Teles em “Riscado” (2010); Camilla Pitanga em “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”; Bianca Joy Porte em “Prometo um dia deixar essa cidade” (2014). Ontem, durante uma ovacionada projeção, Mariana foi às alturas, não apenas por uma coração de sua militância em prol da voz das mulheres negras, mas pelo desfile de um ferramental de instrumentos de precisão para a atuação. Ela ganhou a gente não pelo que pode (e deve) representar em nome da inclusão. Mariana ganhou a gente pela maneira brilhante como representa, como atriz, como grande atriz… como alguém que reflete sobre cada gesto das figuras às quais dá vida. Foi mais do que catarse vê-la em cena. Foi um ato de fé na vocação revolucionária do cinema.

A turma de “M8”: M8 – Fábio Beltrão, Bruno Peixoto, Giulia Gayoso, Juan Paiva

Ganhe ou não, voe ou não pelo mundo, “M8 – Quando a morte socorre a vida” já é História. Já é um dos maiores filmes do Brasil nesta década… por simbolismos éticos sim… mas, sobretudo, por méritos artísticos de realização, pontuado pela fotografia sem saturações de Cristiano Conceição, que usa cromatismos quentes e ocres nas horas precisas, respeitando o intimismo de uma saga de implosões internas. Implosões que a montagem de Moema Pombo e Quito Ribeiro respeitam, numa edição que acelera e desacelera de acordo com o resfolego das pulsações de Maurício. É tom parecido com uma obra-prima pouco citada de Scorsese: “Vivendo no limite” (“Bringing out the dead”, 1999), com Nicolas Cage. Não é só questão de evocação, é questão de parentela: são filmes que se irmanam, da mesma maneira como se irmana com “The last black man in San Francisco”, de Joe Talbot, exibido este ano em Sundance e em Locarno. São histórias sobre metafísicas, sobre manifestações do extraordinário em meio às incongruências da exclusão, assunto que Jeferson consegue atacar com inteligência, apoiado no roteiro escrito pelo diretor com Felipe Sholl, rompendo a 4ª parede em pontos de mobilização, de distanciamento. É um filme que contamina, sem prescrição de analgésicos.

p.s.: A melhor pedida gringa no Festival do Rio, neste domingo é o longa alemão “System crasher”, de Nora Fingscheidt. Editado com vários recursos de videocliope, ele narra o empenho de uma garotinha para atazanar a vida das pessoas que tentam adotá-la. A produção saiu da Berlinale com o Troféu Alfred Bauer (dado a produções que abram novas perspectivas de linguagem). Sua projeção vai ser às 21h30, no Estação Net Rio.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: