‘Luzifer’, uma promessa de prêmios em Locarno

‘Luzifer’, uma promessa de prêmios em Locarno

Rodrigo Fonseca

12 de agosto de 2021 | 12h48

Johannes (Franz Rogowski) leva a mãe, Maria (Susanne Jensen), nos ombros em “Luzifer”

RODRIGO FONSECA
Estudo sobre a (oni)presença do Mal, em sua concepção metafísica mais diabólica, “Luzifer”, produção austríaca do diretor Peter Brunner, deu ao 74º Festival de Locarno, agora em reta final, uma de suas mais esplendorosas atuações, construídas por Franz Rogowski. Aos 35 anos, o ator alemão dispara como favorito ao Leopardo de melhor interpretação masculina no papel de Johannes, um pequeno fazendeiro de interior que sofre com problemas mentais e… aparentemente… quizilas espirituais. Sua mãe, Maria, papel dado à inspirada Susanne Jensen, é uma alcoólatra em fase de sobriedade, que acredita viver à sombra do demônio. Só a subserviência dela e do filho à Natureza, em sua dimensão mais selvagem, podem salva-los das tentações, expressas na forma de drones que voam pelo rancho onde vivem e de turistas.
“Demônio, na cultura do ódio do presente, é quem a gente escolhe odiar”, disse Rogowski ao P de Pop, cercado de elogios por sua interpretação. “Todas as vezes que crio um personagem, eu trago minhas vivências para ele. E, neste caso, um diretor como Peter me protege, nessa busca por uma voz particular”.
Produzido pelo polêmico cineasta Ulrich Seidl (de “Safári”), um dos mais famosos realizadores da Áustria, “Luzifer” gerou comparações com filmes de Andrei Tarkovsky (sobretudo “Stalker”) e Terrence Malick (“Amor Pleno”) pelo requinte de seus planos e pela abordagem do que há de místico num ambiente florestal. “É importante entender o que uma paisagem nos diz sobre os personagens que nela vivem. Nesta nossa paisagem eu enxergo o Mal na forma como a mãe tenta alienar o Johannes da realidade, sob uma desculpa religiosa, que encobre seu lado possessivo, disfarçado de proteção”, diz Brunner ao Estadão, explicando que seu filme buscou um caminho do meio entre o silêncio quase monástico e bifes de diálogos temperados de existencialismo. “Há diretores como Aaron Sorkin, que usam muito diálogo, mas dão a eles um ritmo singular, uma musicalidade. E há diretores que optam por deixar as imagens falarem por si, sem palavras. No nosso filme há um mix disso. Não preciso de extremos. Todo dogma, na arte, quando seguido de maneira inercial, é ruim”.

Em seus derradeiros momentos, o 74º Festival de Locarno segue em delírio, desde terça-feira, com um dos blockbusters mais esperados (e mais ousados) do ano: “Free Guy: Assumindo o Controle”, do canadense Shawn Levy, com Ryan Reynolds a se libertar da persona de Deadpool e viver um NPC (personagem não controlável) de um mundo de videogames, tendo o diretor Taika Waititi (de “JoJo Rabbit”) como vilão. É um delicioso ataque da Fox, hoje ligada à Disney, à cultura algorítmica no mercado audiovisual. Nele, a feérica montagem de Dean Zimmerman eletriza a saga de um ser virtual que ser gente. A trama tem a marca autoralíssima do roteirista Zak Penn (de “O Último Grande Herói”) na redação das cenas.
Locarno termina neste sábado, com a entrega de prêmios e a projeção de “Respect”, a biopic da cantora Aretha Franklin (1942-2018), com direção de Liesl Tommy.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.