‘Luz nos Trópicos’, o épico da cosmogonia

‘Luz nos Trópicos’, o épico da cosmogonia

Rodrigo Fonseca

22 de fevereiro de 2020 | 05h56

Clara Choveaux e Arrigo Barnabé em “Luz nos Trópicos”, de Paula Gaitán: aposta do Fórum berlinense

Rodrigo Fonseca
Mesma assustada diante dos 200 minutos de debate sobre a falência da aristocracia de “Malmkrog”, a Berlinale respirou fundo, encarou o delicado novo trabalho do romeno Cristi Puiu e saiu dele expasperada, na seção recém-fundada Encounters – agora a expectativa por transbordamento é a mesma para uma produção brasileira igualmente cumprida, em duração: “Luz nos trópicos”, com 255 minutos. Mas, fiel à perspectiva filosófica (de Merleau-Ponty) de que “as obras de arte levam um tempo infinito para serem degustadas na inteireza, sem um compromisso com o relógio”, Paula Gaitán não se rendeu a amarras mercadológicas ao preparar uma jornada cosmológica pela floresta. Falado em português, francês, kuikuro e outros idiomas, seu longa-metragem dá conta de uma travessia ligada à cosmogonia indígena, com histórias que correm em paralelo, separadas por 150 anos no Tempo, em um espaço fluvial. São metafísicas que se cruzam pelos rios das Américas. De um lado um jovem índio numa jornada pelas matas brasileiras. Do outro, vemos um grupo de europeus também em curso rio acima, só que mediados por uma interlocução com o cinema. É um experimento que foi convidado para a seção Fórum do Festival de Berlim, de onde já se garimpou uma joia espanhola: “Lúa Vermelha”, de Lois Patiño, sobre a inércia em uma vila na Galícia.
“A questão ameríndia atravessa todo o filme, pois ele evoca esse lugar de memória. Nos vestígios, no silêncio, o filme vai tecendo relações entre o passado e o presente, a partir de uma memória que foi apagada da História das Américas, silenciada. Porém, a força dos povos indígenas, com sua memória imaterial, com seus mitos, tem um poder gigantesco, que nos permite observar, neste momento de caos, uma luz no fim do túnel”, explica Paula ao P de Pop, já em trânsito para a Alemanha, trazendo consigo um dos títulos mais esperados de todo o festival neste ano em que outros 18 filmes e duas séries formam o bonde do Brasil no evento, incluindo um título em concurso pelo Urso de Ouro: “Todos os Mortos”.

Pela descrição no site oficial da Berlinale: “’Luz nos trópicos’ (‘Light in the Tropics’), de Paula Gaitán, com suas mais de quatro horas de duração, galopa entre diferentes épocas como um cavalo selvagem, culminando numa brilhante homenagem às florestas e rios da América do Norte e do Sul e aos povos indígenas que ali vivem”. Parceira habitual de Paula, a atriz Clara Choveaux integra o elenco, ao lado de Carloto Cotta, que empresta seu carisma ao longa, produzida pelo filho de Paula, o aclamado cineasta Eryk Rocha (ganhador do troféu L’Oeil d’Or de Cannes por “Cinema Novo”, em 2016). Ao pensar no que encontrou de mais transformador na paisagem florestal, em relação à sua estética, Paula filosofa:
“Talvez a questão seja mergulhar nessa noite interior de nós mesmos, e não só penetrar na floresta, e sim no nosso fluxo de consciência, povoado de constelações que se conectam, seguindo esse percurso intuitivo e o desejo de uma sociedade mais justa e equilibrada”, diz a diretora do premiado “Exilados do Vulcão” (2013). “Eu acho que a gente tem que habitar essa floresta interior. E, falando sobre nosso trabalho imagético em cinema, é preciso deixar que os tempos da criação sejam povoados por força e radicalidade, mas também por leveza, Em tudo, tem que haver um pensamento dialético E também abrir esse espaço de criação para o espectador participar, estar junto, navegar junto…”.
Ainda no Fórum, destaca-se um dos longas mais esperados desta Berlinale: “Traverser” (“After the Crossing”, em inglês), de Joël Richmond Mathieu Akafou, cineasta estreante da Costa do Marfim. Ele traz à capital alemã um potente relato sobre a resiliência dos refugiados, a partir das andanças do jovem Inza pela Europa.

Cena de “Luz nos Trópicos”

Na competição pelo Urso de Ouro, até o momento, tudo seguia morno até o trator “Le Sel des Larmes” passar pela cidade, com Philippe Garrel no volante e o alumbramento da fotografia de Renato Berta no carona. É uma subversão absoluto das expectativas na representação do bem querer e do desejo em uma crônica sobre acasos a partir da educação sentimental de um carpinteiro aprendiz, Luc (vivido por Logann Antuofermo). O veterano cineasta francês passa por aqui mais tarde. Nas mostras paralelas, “Cidade Pássaro”, de Matias Mariani, colou no gosto da Berlinale, sendo elogiado em muitas línguas, sobretudo pela retidão em sua construção de quadros ao contar o périplo de um músico nigeriano para encontrar seu irmão em São Paulo. A montagem de Isabelle Dedieu e Luisa Marques é um dos focos dos elogios ao longa. O 70º Festival de Berlim segue até 1º de março; dia 29, o júri presidido pelo ator Jeremy Irons anuncia os vencedores.

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