‘Luz nos Trópicos’ e na rocha que voa

‘Luz nos Trópicos’ e na rocha que voa

Rodrigo Fonseca

24 de fevereiro de 2020 | 23h21

Filho de Paula Gaitán, Eryk Rocha produz ‘Luz nos trópicos’ para a diretora, que promete devassar o Fórum alemão

Rodrigo Fonseca
Terça é, enfim, o dia de “Luz nos trópicos”, com seus 255 minutos de Paula Gaitán na veia, passar pela Berlinale.. Mas, fiel à perspectiva filosófica (de Merleau-Ponty) de que “as obras de arte levam um tempo infinito para serem degustadas na inteireza, sem um compromisso com o relógio”, a diretora não se rendeu a amarras mercadológicas ao preparar uma jornada cosmológica pela floresta, tendo seu filho, o premiado diretor Eryk Rocha, como produtor.A dupla já está na capital alemã com o longa-metragem. Falado em português, francês, kuikuro e outros idiomas, seu longa-metragem dá conta de uma travessia ligada à cosmogonia indígena, com histórias que correm em paralelo, separadas por 150 anos no Tempo, em um espaço fluvial. São metafísicas que se cruzam pelos rios das Américas. De um lado um jovem índio numa jornada pelas matas brasileiras. Do outro, vemos um grupo de europeus também em curso rio acima, só que mediados por uma interlocução com o cinema. É um experimento que foi convidado para a seção Fórum do Festival de Berlim, de onde já se garimpou uma joia espanhola: “Lúa Vermelha”, de Lois Patiño, sobre a inércia em uma vila na Galícia. Ganhador do troféu L’Oeil d’Or por “Cinema Novo”, em Cannes, em 2016, Eryk explicou ao P de Pop um pouco dessa aventura por diferentes franjas da experimentação estética.
Diz o realizador de “Rocha que voa” (2002) e “Intervalo Clandestino” (2005):
– Produzir um filme da Paula Gaitán é um grande presente para a vida! Produzir uma autora com uma linguagem tão potente e particular. É uma alegria muito grande produzir esse filme. Eu o produzi com o Vitor Gracie que fez um trabalho excelente: ele é o mesmo produtor de “Arábia” e trabalha com Rodrigo Oliveira. Produzi-lo é ajudar a viabilizar um filme tão peculiar e raro, com uma autora que nos proporciona um diálogo muito fértil no filme. Com um processo muito raro atualmente que é fazer um filme de quase quatro horas e meia. Um filme único, de um cinema de imersão que chega a ser difícil de definir. É um cinema que mistura muitos outros dentro de si, enquanto possuí um processo artesanal. A Paula, além de diretora, é coprodutora, montadora e roteirista do filme. Poder viabilizar um filme tão grandioso, potente e único, na sua própria linguagem, é realmente fenomenal. A Paula é uma artista muito potente e singular justamente por ser uma poeta, uma artista plástica… Ela é uma inventora, uma instigadora de mundos. “Luz nos Trópicos” é um filme que inventa um mundo e um gênero. Ela é uma artista que trabalha essa potência da imagem e do som, conseguindo criar um mundo muito próprio a partir disso. Berlim, historicamente, tem aberto espaços para essa diversidade de propostas e para olhar o cinema de uma forma muito ampla. Não apenas o cinema… A seção Fórum Expandido abre para outras linguagens. Isso é muito singular de Berlim. É uma seção que está aberta para os riscos, para novas propostas de linguagem, é um espaço muito fértil que está dialogando com o que existe de mais interessante na arte contemporânea. É o espaço mais apropriado para estarmos lançando esse filme para o mundo. Esse espaço está dialogando com o risco e a aventura da criação, estão isso me deixa muito feliz. A nossa produtora se chama Aruac Filmes. Estamos com vários projetos novos, incluindo uma série que a própria Paula está dirigindo, chamada “Os Resistentes”, e está na sua segunda temporada. A primeira foi com o Canal Brasil, a segunda com o Cine Brasil TV. Ela dirige; eu e o Vitor produzimos. Essa série deve ir ao ar no segundo semestre. Estou terminando a montagem de um novo filme, chamado “Edna”, meu novo longa que vai estar pronto em breve. Tem um filme da Elza Soares que já está filmado. Além disso, estamos preparando para o segundo semestre a filmagem de “A Queda do Céu”, inspirado no livro do Davi Kopenawa e do Bruce Albert. Vou dirigir com a Gabriela Carneiro da Cunha. Esses são os projetos mais avançados, além do “Breve Miragem de Sol”, meu mais recente longa, que está viajando por vários festivais do mundo.

Clara Choveaux e Arrigo Barnabé em “Luz nos Trópicos”

No terreno da brasilidade em Berlim, como esperado, “Nardjes A.”, de Karim Aïnouz, é um vulcão. Ao cruzar seu olhar com uma jovem ativista inflamada, em meio à Revolução dos Sorrisos, na Argélia, em 2019, o diretor de “A Vida Invisível” aplica um de seus filtros autorais: a atenção ao transbordamento de quem é visto como desviante. Nardjes é uma ferida aberta na moral de uma nação inquieta. Uma ferida de onde brotam as flores de uma juventude que não se deixa calar. Capricho de ourives na fotografia de Juan Sarmiento G.

Ainda da Berlinale… da seção Generation 14Plus veio uma pedra preciosa: “Kokon”, de Leonie Krippendorff. Apoiada em uma câmera epilética, a jovem diretora berlinense desnuda a região de Kreuzberg ao acompanhar o desabrochar dos desejos de uma adolescente cercada de amigos com os hormônios à flor da pele. Maya Postepski assina a trilha sonora, que traduz os sufocos da primavera da vida.

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