Lupin III, o ladrão animado: gol da Sato Co.

Lupin III, o ladrão animado: gol da Sato Co.

Rodrigo Fonseca

03 de junho de 2020 | 11h09

Rodrigo Fonseca – #FiqueEmCasa
Derivado nipônico da literatura policial de Maurice Leblanc (1864-1941), Arsène Lupin III, fino ladrão criado nos quadrinhos mangá, por Kazuhiko Katō, o artista gráfico Monkey Punch (1937-2019), em 10 de agosto de 1967, cansou do formato 2D da japanimation clássica e foi buscar o volume da computação em um longa-metragem regado a adrenalina que aporta nesta quarta no Brasil, via streaming. Rola já ouvir em português o anti-herói – outrora consagrado por “O Castelo de Cagliostro”, lançado em 1979 pelo mestre Hayao Miyazaki – em uma aventura cinematográfica com dublagem chuchu beleza (pilotada por Nelson Machado) nas plataformas Now, Vivo Play, Sky Play e Looke. Batizado “Lupin III: O Primeiro” (“Lupin III: The First”), o filme é dirigido por Takashi Yamazaki (de “Stand By Me Doraemon” e “Balada”), apostando pesado na ação, sem abrir mão do humor característico do anti-herói ladino, dublado aqui por Yuri Chesman. A chegada do longa por aqui consagra a grife da Sato Company, distribuidora na luta desde 1985, que hoje cuida do licenciamento da marca Jaspion, centrada no vigilante espacial onipresente na TV brasileira todos os domingos na Band.
Ao passar para o campo do CGI (Computer-Generated Imagery), o visual multicolorido de Lupin perdeu um pouco de seu brilho, na seara da fotografia. A luz de Yosuke Sakai é, vez ou outra, um tanto bruxuleada, apostando em demasia nas sombras. Mas nada que prejudique o prazer de ver o neto de Arsène Lupin em suas peripécias, usando técnicas de fuga e de disfarce que garantem momentos hilários. Tudo gira em torno da disputa por um diário que pode levar a uma fortuna. Um baluarte do nazismo deseja decifrar os escritos do tal diário a fim de levar a riqueza apontada em suas páginas para um novo Reich. Mas a neta do autor, a jovem Laetitia (Bianca Alencar), vai tentar impedir que malfeitores se apossem dos bens ali indicados, contando com a astúcia de Lupin para ajudá-la. Mas como confiar nele? O inspetor Zenigata (na voz de Luiz Antonio Lobue), personagem impagável, não confia. E vai fazer de tudo para detê-lo, o que rende situações digna de Os Trapalhões.

Escrito por Yamazaki e Takashi Zamazaki, com base nos escritos de Monkey Punch, o roteiro é uma ciranda de viradas bem azeitadas, que exploram o lado mais sensível de Lupin, dado a ele mais tridimensionalidade. Um rasgo de bondade e de nobreza se faz brotar em sua trilha, em especial em sua relação com a ladra Fujiko. Para os fãs de mangás e animês, a iniciativa da Sato de trazê-lo para cá é um presente para estes tempos de 40ena.

p.s.: Estreou esta semana no Globoplay o brilhante “Destino Especial” (“Midnight Special”, 2016), thriller sci-fi indicado ao Urso de Ouro que consolidou a reputação autoral do diretor Jeff Nichols, de “O Abrigo” (2011). O elenco estelar reúne Kirsten Dunst, Adam Driver e Joel Edgerton, tendo um inspirado Michael Shannon no papel central. Na trama, todos eles estão empenhados em salvar a pele do pequeno Alton (Jaeden Martell Lieberher), criança dotada de uma força paranormal cuja origem pode não ser terrena. Pelo menos é isso o que as Forças Armadas dos EUA supõem, colocando uma tropa na cola do garoto. Conhecido entre os brasileiros pelo sucesso “Amor Bandido” (2012), Nichols esbanja precisão na construção de perseguições e tiroteios, sem jamais perder o foco na espinha dorsal afetiva do longa. Gol de placa da Globo no streaming.

p.s.2: Nesta madrugada, às 2h30, a TV Globo acolhe a estética afetiva do diretor inglês Richard Loncraine, realizador do monumental “Ricardo III” com Ian McKellen, em 1995, garimpando o plimplim pra si com “Ruth & Alex”, dramédia romântica de 2014. Escorre mel na relação entre Diane Keaton e Morgan Freeman, um casal apaixonado que arruma um problema quando tem a ideia de se desafazer de seu apartamento e se mudar. Um romance de Jill Ciment é a base da trama, que Loncraine filma com delicadeza, apostando na fotografia de tons esmaecidos do canadense Jonathan Freeman.

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