Lúcia Murat e as memórias dos Anos de Chumbo

Lúcia Murat e as memórias dos Anos de Chumbo

Rodrigo Fonseca

10 de novembro de 2020 | 17h14

A diretora Lúcia Murat fala de seu cinema no simpósio Na Real_Virtual

Rodrigo Fonseca
Depois de tomar a Mostra de São Paulo de assalto com um dos filmes mais inquietos de sua obra confessional (“Ana. Sem Título”), Lúcia Murat promete torcer as certezas da gente em relação aos registros da ditadura militar em seu colóquio, ao lado do realizador Silvio Da-Rin, no seminário online Na Real_Virtual, às 19h, desta quarta-feira. Sua obra será revisitada. Basta acessar o link https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2 para acompanhar o papeo entre ela e Da-Rin, mediado por perguntas dos curadores desta festa documental, o cineasta Bebeto Abrantes e o crítico Carlos Alberto Mattos. O tema desse encontro: Memórias de Chumbo, revisitado a partir das recordações e reinvenções de ambos sobre o governo de farda de 1964 a 1985. Da obra de Lúcia foi selecionado “Uma Longa Viagem” (Kikito de melhor filme em Gramado, em 2011) e, do cinema de Silvio, escolheu-se o feérico “Missão 115”, destaque do É Tudo Verdade em 2018.

“Uma Longa Viagem”: Kikito de melhor filme em Gramado, em 2011

Há três anos, Lúcia deixou o Festival do Rio com o prêmio de melhor direção pelo drama “Praça Paris”, que escala como protagonista uma das maiores revelações do teatro nacional no momento, Grace Passô. Ela ganhou o Troféu Redentor na Première Brasil de 2017 por seu desempenho. Ao lado dela, aprece um outro achado: Digão Ribeiro, que ocupa (e ilumina) a telona não por seu corpanzil, mas por seu carisma e por sua inteligência cênica. Não há fresta que Grace e Digão não iluminem nas vielas do Rio de Janeiro esquadrinhadas por Murat. O filme da realizadora de “Que Bom Te Ver Viva” (troféu Candango de melhor filme em Brasília, em 1989) se faz necessário por múltiplas razões, sobretudo por seu carinho com o lugar político da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, a UERJ, e pela reflexão sobre a cena carcerária carioca. Neste ponto, a cineasta mostra a maestria (de mundo e de meios) com a qual já havia produzido o perturbador “Quase Dois Irmãos”, de 2004 – sua obra-prima. Uma maestria bem-vinda. E há um tom de thriller psicológico, que redesenha e redefine o filme lá pelo fim e que se alimenta, bastante, do talento dramatúrgico (como roteirista) de um dos mais provocativos escritores do Brasil hoje: Raphael Montes (de “Dias Perfeitos”). Ele escreve o filme a quatro mãos com Lucia, oxigenando de ideias.

“Praça Paris”: melhor direção no Festival do Rio 2017

Grace, aclamada nos palcos na peça “Vaga Carne”, desenha uma nova instância de representação de mulher da periferia no papel de Glória, uma ascensorista cujo irmão é um chefe do tráfico e cumpre pena sob o olhar atento da Polícia. Ela extravasa os nós do peito falando prum pastor (Babu Santana, sempre no ponto) e para uma jovem psicanalista que faz seus estudos de pós na UERJ, a jovem portuguesa Camila (Joana de Verona). Digão entra em cena como Samuel, o motoboy que mexe com a libido de Glória. Espera-se uma relação especular entre ela e Camila, mas o filme não estabelece essa parelha. Temos duas mulheres que se confrontam no olhar. Mas, apesar do talento inequívoco de Joana, é Grace quem vai desenhar as curvas de ação, deitando e rolando nos hiatos morais de Glória, fazendo dela uma personagem única.

No frigir das inquietações documentais do país, Abrantes e Mattos têm agendadas conversas com Adirley Queirós, Claudia Priscilla, Eryk Rocha, Evaldo Mocarzel, Joel Zito Araújo, Kiko Goifman, Roberto Berliner, Sandra Werneck, Susanna Lira e Walter Salles. Esses papos rolam sempre às 19h, às segundas, quartas e sextas. Valem a atenção. E o aplauso. É “O” evento do ano, tendo Márcio Blanco e sua Imaginário Digital como produtores.

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