Luca Marinelli com os caninos na jugular da Itália

Luca Marinelli com os caninos na jugular da Itália

Rodrigo Fonseca

10 de março de 2020 | 10h48

RODRIGO FONSECA
Escalado para interpretar o superladrão e assassino Diabolik em uma versão do vilão das HQs para as telas, pilotada por Antonio e Marco Manetti, o romano de 35 anos Luca Marinelli tem arrancado suspiros por onde passo, seja na Berlinale, onde integrou o júri oficial, seja nas telas brasileiras, onde protagoniza um dos melhores filmes hoje em cartaz entre nós: “Martin Eden”. Mais viscontiano dos longas-metragens italianos da última década (pelo menos desde “Vermelho como o Céu”, de 2006), esta leitura de tons sensoriais da prosa de Jack London (1876-1916), sobre um marinheiro às voltas com o sonho de se tornar um escritor, estreou no Brasil em paralelo ao trabalho de Marinelli como jurado em Berlim, onde concedeu o Urso de Ouro ao iraniano “There Is No Evil”. Galã na aparência, vulcão na essência, o ator vinha fazendo uma carreira de prestígio até ganhar a Copa Volpi, no Festival de Veneza, em setembro passado, pelo desempenho no papel de Eden. Pietro Marcello, realizador de “A boca do lobo” (2009), é quem pilota essa viagem pelas entrelinhas geralmente épicas de London, buscando a fragilidade humana… sempre. A essência deste poderíssimo longa, que se deita nu nas águas da cor magenta e da cor marrom (pigmentos da memória esmaecida), carrega uma inquietação sociológica: temos um ensaio sobre pertencimento. Pobre, iletrado e calejado apenas nas marolas do Adriático e do Mediterrâneo, Eden almeja o saber, na forma da Literatura, quando se encanta por uma nobre, Elena (Jessica Cressy). Para ter seu amor, ele acredita que é necessário passar à aristocracia. Seu cunhado violento diz que não é possível; a pobreza essencial de seu berço reforça essa negativa; e a elite, para quem ele não passa de um fetiche suado, vaticina sua exclusão. Mas a fome é grande. E Eden vai devorar cada livro que lhe cair nas mãos, com destaque para os conceitos de sobrevivência dos mais fortes de Herbert Spencer (1820-1903). Nada há de travar um coração faminto. Mas não há fome nem sede que se sustentam quando o foco deixa de ser o alimento e passa a ser a própria ganância. Quando deixa de olhar a Beleza, para concentrar seu olhar sua própria prepotência, Eden tropeça na arrogância e definha em seu egocentrismo. Marinelli somatiza esse tropeço não apenas com sua mirada aguda diante da realidade da riqueza à volta de seu personagem, mas também com gestos de seu corpo e com o amarelar de seus dentes. É uma metamorfose que a câmera epilética dos fotógrafos Alessandro Abate e Francesco Di Giacomo enquadra entre ziguezagues que não cessam, nos espamos de uma subjetividade que se atomiza.

Marinelli está em seu apogeu sob a direção de Pietro Marcello. Mas há um outro filme recente dele, já em circulação pela TV a cabo nacional, que merece uma atenção extra: “Uma Questão Pessoal”, no qual foi dirigido pelos Taviani. É um trabalho monumental dele que passou sem alarde por aqui, há um ano e meio.
Singelo em sua forma de encarar a memória como um depósito de esperanças, “Una questione privata” (título original desta joia do intimismo italiano) carrega, em seu olhar sobre valores morais, as lentes críticas dos irmãos Paolo e Vittorio Taviani, uma grife autoral (de cepa quase nietzschiana) das mais virulentas, responsável por marcos como “A noite de São Lourenço” (1982). Por isso, essa história sobre lealdade parece desterritorializada, em nosso circuito, diante da estética de causa e efeito do cinemão ou da retórica do cinema-piquete dos Espaços e Estações da vida. Construído a partir de um diálogo pouco reverente à literatura de Beppe Fenoglio (1922-1963), autor de “Il partigiano Johnny”, este conto sobre escolhas éticas nos fronts da II Guerra, em Piemonte, 1943, espatifa convenções das love story. Sua dramaturgia aposta em um campo mais filosófico, em que a lucidez tenta fazer a paixão tropeçar, ao narrar as lutas (uma nas trincheiras fascistas, outra, na arena dos afetos) travadas pelo guerrilheiro Milton, jovem membro da Resistência Italiana. Vivido por Luca Marinelli, em finíssima atuação, o herói se divide entre sua missão ideológica e sua dívida com o Querer: encontrar sua amada Fulvia (Valentina Bellè), que também teve um caso com um amigo dele. Não há encanto nem fantasia no lirismo farpado dos Taviani: Paolo tem 88; Vittorio morreu em abril de 2018, aos 88.

Donos de uma Palma de Ouro, conquistada em 1977 pelo monumental “Pai patrão”, a dupla de diretores, egressos da Toscana, começaram a filmar em 1954, lançando o curta “San Miniato, luglio ’44” quando o neorrealismo de Roberto Rossellini e Vittorio De Sica já era respeitado Europa afora, visto como movimento de renovação poética do cinema. Embora fizessem do Real um objeto de decantação moral em seus filmes, eles pegaram uma estrada autônoma, mais áspera e menos romântica que a dos neorrealistas de carteirinha, sem laços conscientes com o tom onírico de Fellini, a incomunicabilidade de Antonioni, a busca pelo Belo feita por Luchino Visconti ou a desmistificação do profano de Pasolini. O cinema deles é sobre raspas e restos, sobre a dignidade que sobra, como se viu em “César deve morrer” (2012) e agora na saga de Milton, esplendidamente fotografada por Simone Zampagni.

Este ano, Marinelli será visto ainda em “The Old Guard”, de Gina Prince-Bythewood, baseado em HQ de Greg Rucka, ao lado de Charlize Theron.

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