Lu e Vitor Cafaggi reforçam seus laços com a Turma da Mônica

Lu e Vitor Cafaggi reforçam seus laços com a Turma da Mônica

Rodrigo Fonseca

24 de junho de 2019 | 11h40

Rodrigo Fonseca
Quinta-feira é dia de Turma da Mônica em carne e osso nas telas, com o lançamento do belíssimo “Laços”, de Daniel Rezende, decalcado da graphic novel homônima dos irmãos Lu e Vitor Cafaggi. É o momento Charles Perrault do realizador de “Bingo – O Rei das Manhãs” (2017), estrelado pelo quarteto Giulia Benite (Mônica), Kevin Vechiatto (Cebolinha), Laura Rauseo (Magali) e (o achado) Gabriel Moreira (Cascão). Na tela grande, o que Rezende nos dá é um buddy movie – a quatro pares de pés e um coelho azul – sobre lealdades que se maturam nas andanças da infância. Mônica & cia. saem de casa para caçar o cachorro Floquinho, que foi raptado de sua casinha, no lar da Sra. e do Sr. Cebola (Fafá Rennó e Paulo Vilhena). O caminho é cheio de perigos, de água corrente (para o terror do Cascão) e da sinestesia das matas virgens, todos traduzidos pela fotografia de Azul Serra com cores realistas, sem o peso das tintas das HQs. Há um bom vilão: o Homem do Saco (vivido por Ravel Cabral, com direito a um solo memorável ao som de Fagner). Há um coadjuvante inesquecível: o Louco, que dá a Rodrigo Santoro espaço para libertar toda a sua potência. Há Monica Iozzi numa singela participação também. Há tudo isso e muito mais nesse deslizamento do gibi para o cinema, numa operação que Lu e Vitor dissecam aqui.

Quando começou a relação de leitura de vocês com o universo de Mauricio de Sousa e o que ela representou como descoberta de traço e de storytelling?
Lu Cafaggi: Nós sempre lemos “Turma da Mônica”. O nosso irmão mais velho, o Enzo, aprendeu a ler aos 4 anos de idade e, desde então, começou a colecionar os quadrinhos da Turma. Quando o Vitor era criança, ele lia e colecionava os gibis da Turma e também de outros personagens. Eu nasci dez anos depois dele, então, quando quis aprender a ler, tive a sorte de já encontrar uma gibiteca muito rica em casa. E o Vitor, que já era um adolescente na época em que eu estava sendo alfabetizada e tinha se afastado um pouco das revistas para crianças, revisitou os quadrinhos da Turma pra poder ler comigo. Lembro que dávamos diferentes vozes e sotaques pros personagens, combinávamos juntos um ritmo na leitura que me ajudava também a ler os desenhos com calma. Com tudo isso, os personagens ganharam uma presença muito real na nossa imaginação. O que mais curtíamos fazer era comentar sobre eles e sobre as histórias, percebendo nuances, entendendo traços mais sutis da personalidade de cada um. Quando a gente lê com atenção, a gente sente como que o Cascão não é só um menino que não toma banho, que a Magali não é só uma menina comilona… O mais legal da Turma é essa possibilidade de a gente encontrar, na simplicidade da ficção deles, histórias tão multifacetadas e delicadas como as do nosso dia a dia.
Pessoalmente, ler Turma da Mônica foi o que me abriu pro mundo. Eu era uma criança tímida, não era muito de conversa, me levava muito a sério… Ler os quadrinhos da Turma me mostrou que era muito bonita essa coisa da gente rir da gente mesmo e isso foi fazendo brotar em mim uma vontade de fazer graça, de fazer os outros rirem comigo. Comecei a me abrir mais, a querer me comunicar de forma mais eficiente. E, hoje, entendo que é por meio da linguagem dos quadrinhos que me comunico com mais sinceridade. É muito legal pensar que a Turma da Mônica me trouxe esse conjunto todo, porque além dessa grande descoberta que mencionei, algumas características da narrativa dos quadrinhos do Mauricio e alguma coisa do balanço, das curvas do seu desenho ficaram muito entranhados no meu jeito de fazer quadrinhos e desenhar.

Vitor Cafaggi: Desde até onde consigo me lembrar, a Turma da Mônica sempre esteve presente na minha vida. Minha casa era cheia de revistinhas da Turma. Nossas roupas de cama eram a Turma da Mônica num tema meio carnavalesco, meio Carmen Miranda. Eu tinha um casaco branco do Cebolinha jogando tênis, que usei tanto que ele se desfez. Meu irmão e eu tínhamos dois moletons iguais do Cebolinha andando de skate. Meu irmão era completamente apaixonado por esses personagens. Era nitidamente o quadrinho favorito dele, entre todos que ele colecionava. Meus pais adoravam as histórias também e incentivavam muito isso. Quando eu era criança, Turma da Mônica parecia ser a coisa mais importante da vida de todo mundo ao meu redor. Logo, se tornou uma parte importante na minha vida também.

De que maneira, a delicada homenagem que Daniel Rezende presta a seu universo, na adaptação de “Laços”, traduz em imagens em movimento a sua busca pela fantasia, pela fabulação e pela representação da lealdade infantil?
Lu Cafaggi: A direção do Daniel foi muito respeitosa e cuidadosa com a história que fizemos pro quadrinho e com tudo que diferentes gerações de brasileiros vêm encontrando nos quadrinhos da Turma já há 60 anos. E mesmo o filme sendo uma obra que se apoia em outras obras para se desenvolver, ele traz um frescor, um ineditismo aos personagens e a cada uma das situações clássicas que encontramos em cada gibi da Turma. Ver a Mônica, em carne e osso, girando o Sansão… ver os planos infalíveis do Cebolinha sendo desenhados e executados… tudo isso, ao mesmo tempo que chacoalha a nostalgia da gente, carrega essa surpresa da descoberta. A gente finalmente pode ver a força que existe no que pode ser a reação real de uma menina de 7 anos a um desaforo que a abalou profundamente. Com o filme, com esse novo corpo que a Turma ganhou, esse tipo de situação se desprende um pouco das expectativas que o quadrinho da Turma criou com a repetição desses atos ao longo dos anos. No filme, é quase surpreendente ver a Mônica se enfurecer a ponto de precisar jogar o coelhinho nos meninos (e é, ao mesmo tempo, um conforto pra alma ver que, mesmo nessa nova roupagem, a nossa Mônica ainda é a nossa Mônica e é isso que ela faz).

É muito preciso o equilíbrio entre o peso de realidade que o filme tem e o gosto de fábula que ele nos traz em momentos que se espalham por ele todo. Imagino que tenha sido uma medida super difícil de encontrar. É uma medida muito própria desse filme. É como descrevi para uma amiga: a sensação de ver esse filme é, ao mesmo tempo, a de se reencontrar com algo que é familiar e acolhedor e a de ser surpreendido por algo novo que estava só esperando para ser a sua nova coisa favorita.

Vitor Cafaggi: O Daniel e o roteirista Thiago Dottori foram muito felizes na forma em que eles apresentaram e desenvolveram as relações entre os personagens. Ao fazer a graphic novel, um dos nossos focos iniciais era exatamente mostrar como funcionavam as relações de amizade entre os quatro personagens. A importância que cada um tinha para o outro e para o todo da Turminha. É um tipo de amizade muito puro, típico da infância, que faz com que cada você se sinta bem em ser quem você é, porque você está cercado de pessoas como você. No filme, isso vai um pouco além. Além disso tudo, a gente consegue perceber mudanças e amadurecimentos no meio dessas relações de amizade entre eles. Lu e eu só fomos trabalhar esse desenvolvimento na nossa segunda história, “Lições”.

O Louco apresenta Cebolinha ao léxico da pantomima: Rodrigo Santoro tem uma atuação monumental como o Marcel Marceau de Maurício de Sousa 

O que o filme revelou a vocês de misterioso, maravilhoso, inusitado e novo sobre o próprio “Laços”? O que esse casamento de cinema com o HQs jogou como luz sobre o trabalho prévio de vocês?
Lu Cafaggi: Todo o espírito do quadrinho está no filme, mesmo este trazendo algumas situações, diálogos e escolhas diferentes. Acho que a cena inteiramente inédita do filme, que trouxe maior impacto, foi o encontro entre o Cebolinha e o Louco. Essa cena é inédita em tudo: no quadrinho, o Louco não é mencionado em nenhum momento; não existe um momento em que Cebolinha passeia sozinho pela mata; o diálogo entre os dois personagens é novo em cada palavra. E esse mesmo diálogo entre eles dá a linha para uma das questões centrais da jornada dos meninos no filme e que não é necessariamente a mesma do quadrinho. Acho melhor a gente se poupar aqui de se alongar muito a respeito dela, porque não queremos estragar a surpresa da cena. É uma cena brilhante e ela realmente brilha no filme, porque ela é um momento em que tudo para só pra ela acontecer e contribuir pro roteiro de uma forma totalmente inesperada.

E o filme traz uma energia que é própria dele, que acho que vem de momentos, conversas, piadas, gestos espontâneos que as crianças e a equipe foram naturalmente criando, juntos, um dia depois do outro, durante as gravações e o processo todo. Meu irmão e eu também vivemos isso entre nós dois, durante a feitura do quadrinho. Então, é muito especial pra gente ver isso se desdobrando nas relações que outras pessoas construíram entre elas mesmas a partir dessa história.

Acho também que a presença física dos cenários, daquela natureza majestosa toda que estava ali recebendo o filme, trouxe uma camada de significado extra pra jornada dos quatro meninos. Uma resenha que lemos apontou justamente uma das possibilidades que esse cenário trouxe: a mata como uma metáfora pro processo de crescimento deles. Quer dizer, esse cenário já existia nos quadrinhos, então essa possibilidade talvez já existisse ali. Mas acredito que exista um motivo para que só a presença real dele no filme, talvez combinado a outros elementos, tenha criado essa ponte de sentidos.

Ver os atores encarnando a Turma também é uma coisa que tem uma magia própria, é até difícil explicar. Falar do profissionalismo dos atores (e de toda equipe envolvida em prepará-los), do carisma, da sensibilidade para interpretar, do respeito e da relação bonita que eles têm com os personagens originais do Mauricio… são termos que não dão conta de explicar o que eles fizeram nesse filme.

Outro elemento que o quadrinho não pode trazer, e que é justamente por onde o espírito do filme caminha com mais delicadeza, é a música. O espírito do quadrinho caminha por outros elementos, cada linguagem, cada mídia tem as suas ferramentas. No caso do filme, a trilha sonora orquestrada do Fabio Góes e a canção original do Tiago Iorc e do Duca Leindecker (e uma outra surpresa musical que o filme traz) são elas mesmas uma linguagem própria e têm uma vida própria. Uma vida linda, inteligente, de um coração muito forte. E essas músicas, combinadas às cenas, criam outras emoções, uma sensibilidade que só poderia nascer nessa combinação.


Como vocês avaliam a realidade do mercado de HQs hoje, no Brasil?
Vitor Cafaggi: Os quadrinhos no Brasil tiveram um momento muito interessante nos anos 1980 e 1990, com muitos quadrinhos sendo criados e vendidos aqui. A maioria desses quadrinhos eram adaptações de grandes marcas da televisão, como Xuxa, Trapalhões, TV Colosso, etc. Esses quadrinhos estavam em todas as bancas, junto às publicações da Disney, da DC e da Marvel. Paralelo a isso, quadrinhos independentes e os fanzines começaram a ganhar força nessa época. Esses quadrinhos alcançavam outro público, um público menor, bem menor, mas era um público fiel. Atualmente, à exceção das histórias produzidas pela Mauricio de Sousa Produções, é esse quadrinho independente que movimenta o cenário de quadrinhos no Brasil. Hoje, esse quadrinho independente encontra seu público em eventos no Brasil todo, na internet e em pequenas editoras dispostas a apostar em tiragens menores. O mercado é pequeno. Tem pouca gente lendo quadrinhos no Brasil. Menos ainda lendo quadrinho nacional. Dentro desse pequeno público, os quadrinhos independentes têm tido uma visibilidade interessante dentro do mercado como um todo atualmente. E acredito que nunca tivemos uma diversidade tão grande de quadrinhos independentes no Brasil. Hoje, temos quadrinhos de vários gêneros, formatos, preços… Com essa diversidade, o quadrinho pode começar a se expandir e conquistar novos leitores. Isso pode ser um começo de uma mudança no mercado. Não acredito que o quadrinho independente, por si só, vai mudar alguma coisa. Mas ele pode apresentar as pessoas que vão começar essa mudança.

 

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