‘Loucas Pra Casar’ em noite de gala na Globo

‘Loucas Pra Casar’ em noite de gala na Globo

Rodrigo Fonseca

04 Julho 2018 | 16h30

Rodrigo Fonseca
Duas das maiores bilheterias do ano do Brasil foram garantidas por Ingrid Guimarães de um lado (com “Fala sério, mãe!”) e Roberto Santucci do outro (com “Os Farofeiros”). Eles viveram o ápice da sua parceria em Loucas Pra Casar, uma lufada de criatividade no cinema varejão, que vai ser exibido nesta quarta-feira, na TV Globo, às 23h10, na sessão Cine Globo Play. Frente ao esgotamento vivido pela neochanchadas, o filão cômico brasileiro de comédias verbais, nas quais a palavra é o centro e a imagem é a periferia, este é um filme de exceção,  que cavou sua vaga ao circuitão das pipocas em janeiro de 2015, vendendo cerca de 3,7 milhões de ingressos em quase três meses em cartaz.
Estamos diante de uma produção com estranhezas narrativas (talvez a palavra certa seja “ousadias”) incomuns à linhagem contemporânea de filmes para riso descartável. A diversão está lá, bonitinha em seu lugar, bem representada pelos improvisos de Ingrid e pela habilidade de a atriz escavar porosidades em superfícies narrativas sem tridimensionalidade. A sensualidade comum ao filão – que herdou o interesse pelo erotismo das comédias picantes pós-69 (o ano, não a posição de rala & rola), ou apenas pornochanchadas – também se faz presente neste décimo longa-metragem da grife Santucci, representada pelas coxas grossas e decotes bem-aventurados de Suzana Pires e por uns assanhamentos da mocinha papo-Bíblia encarnada por Tatá WerneckMas algo tira o projeto da Glaz Entretenimento da comodidade regular da nova comédia brasileira com ambições de blockbuster.

Há em “Loucas pra casar” um desalinhamento (proposital) em seu roteiro, no esforço em embaralhar a história de três mulheres apaixonadas pelo mesmo sujeito (Márcio Garcia, em bom momento cênico). Esse desalinhamento evoca, ora de leve, ora no tranco (sem vaselina) a dramaturgia kitsch do Almodóvar dos tempos do saudoso “De salto alto” (1991) e de “Kika” (1993).

É um filme sem medo de desvarios, sem temor da incorreção política, debochado com rótulos das identidades sexuais (jamais perder o respeito por elas) e implacável com os moralismos clássicos da cultura brasileira. E, mais que isso, é daqueles roteiros em que, lá pelo fim do segundo do terço, você olha para a esquerda, olha para a direita, e diz: “como é que o cineasta vai resolver isso?”, numa sensação de impasse aparente que só as boas comédias de costumes almodovarianas e as iguarias italianas à la “Pato com laranja” (1975), de Luciano Salce, provocavam. Essa sensação de dúvida, de irresolução aparente, de um inegável desconforto frente à integridade afetiva das personagens rendem um frescor de que, há tempos, os filmes cômicos made in Brazil não desfrutavam. É talvez uma metaneochanchada, que ri de si mesmo e nos faz rir dos vícios de linguagem que o cinema brasileiro insiste em regar com água fresca semestre a semestre.

Suzana Pires, Ingrid Guimarães e Tatá Werneck são três noivas irresistíveis em “Loucas Pra Casar”

Numa situação atípica perto da pudica heroína da franquia “De perna pro ar”, Ingrid Guimarães chega a “Loucas pra casar” mais abusada, com menos traços de Julia Roberts e mais jeitão de Victoria Abril, a musa de tacones lejanos de Almodóvar. Sua nova personagem, Maria “Malu” Lúcia, é uma funcionária exemplar na construtora/ imobiliária gerida por seu namorado Samuel (Márcio Garcia). Os dois vivem de fantasias sexuais diversas até o dia em que ela descobre o envolvimento entre ele e uma stripper, Lúcia (interpretada pelo açaí Suzana Pires), e uma carola de Magé, Maria (Tatá Werneck, numa interpretação sem tiques de stand-up, mais parecida com a Felícia dos “Looney Tunes” em seu olhar azulado de amante possessiva). Aos poucos, Malu tenta tirar satisfação com cada uma das sobremesas de seu amado, considerando-se o prato principal dos banquetes carnais dele. Numa atuação madura, Márcio patina do anti-heroísmo romântico ao arquétipo do “príncipe encantado” no papel de Samuel, que parece equilibrar suas três amadas sem desarmonia e sem necessidade de criar disfarces. Sua postura gera no espectador uma certa desconfiança – ampliada pelos momentos de suspense que a montagem precisa de Marcelo Moraes distende ao máximo para embatucar a plateia, sem tirar desta o direito à diversão.

O que vinha se formando como um filme sobre o livre arbítrio do coração, ao construir personagens com a necessidade de escolher que caminho tomar, vai, aos poucos, dando lugar a uma reflexão sobre a histeria amorosa da pertença, da necessidade de um compromisso, da imposição do casamento como um caminho único para a felicidade. Num script engenhoso, que engana o olhar e dribla deduções óbvias, sem jamais perder piadas, o roteirista Marcelo Saback (com uma contribuição luxuosa da dramaturga Julia Spadaccini) propõe uma bem-vinda gincana pelos valores do romantismo nacional, indo à instância do descontrole para criar um “Mulheres à beira de um ataque de nervos” tipicamente carioca, no qual Ingrid evolui algumas casas no tabuleiro do amadurecimento como atriz.

Malu é uma neoheroína dos anos 2010, que oscila entre o o medo do risco e a comodidade da vida sem erupções, incapaz de enxergar o reflexo de sua própria grandeza. É uma comédia com desejo de sai do pântano da gag pronta ou do happy end careta. Para isso, fala de pessoas que tentam, tentam, tentam e tentam em prol desse pássaro azul chamado alegria. Visualmente, a direção de Santucci deixa pontas soltas aqui e acolá, com cenários falsos (com pinta de chroma key) desnecessários, mas não deixa desestruturar (nunca) a viga central da narrativa, cujo foco é o esforço que uma apaixonada patológica precisa para olhar a si mesmo. Mas mesmo este “patológico” precisa ser bem frisado, pois a patologia de Malu nunca resvala no limite do caricato. É, antes de tudo, uma love story para se ver de mão dada com quem se ama e uma comédia para se rir a dois, a três, a mil, na suruba coletiva que esse motel platônico chamado cinema oferece.

De brinde, Santucci mantém seu traço padrão de valorizar personagens periféricos com a ajuda de coadjuvantes de peso, como Camila Amado, na pele da mãe de Malu, Fabiana Karla como a amiga lésbica da “quase-mocinha” e, sobretudo, Edmilson Filho, num show particular como o coreógrafo gay Rubi. Talvez “Loucas pra casar” não seja “a” comédia de que a Comédia Brasileira tanto carece. Mas é um banho de descarrego e tanto frente às estagnações em que o gênero vez por outra esbarra.