‘Longe do Paraíso’: western de um Brasil sem lei

‘Longe do Paraíso’: western de um Brasil sem lei

Rodrigo Fonseca

15 de dezembro de 2020 | 10h26

Rodrigo Fonseca
Espécie de Franco Nero do Nordeste, sempre de roupa preta e trabuco na cintura, estampando a Morte no vítreo dos olhos, Kim já matou demais para quem tem pouco mais de 20 e poucos anos na terra de bravos, sem lei e sem alma, que o diretor Orlando Senna – numa intimidade absoluta com a tradição do faroeste – desbrava pra gente em “LONGE DO PARAÍSO”. É a única ficção entre os seis concorrentes ao Candango de 2020 no febril Festival de Brasília. A lembrança de Nero é forte (e eterna) por seu personagem mais famoso: Django. Como ele, Kim também arrasta um caixão, só que não um de madeira e, sim, um feito da matéria existencial que Sartre chamava de Náusea, com o “N” maiúsculo da negação do sentido de pertença. Lê-se em Sartre que “O ser humano é um existente que nasce sem motivo, dura por fraqueza e morre por acaso”. Kim até estaria assim se não houvesse um vetor que obrigasse o sujeito a encontrar um propósito: matar. Sua contratante, a Madame (papel que Sonia Dias executa esbanjando onipotência, numa atuação viçosa), obriga que este pistoleiro de um Brasil regido a balas nunca se mantenha inerte na tal ciranda nauseante que a falta do sentimento de pertença impôs a ele. Orlando… furioso num regresso há tempos esperado às veredas ficcionais… sugere que matar não é a sina de seu Prometeu (acorrentado a mazelas sociológicas); matar é sua CLT, pois, afinal, estamos numa lutas de classes onde a dialética não é equilibrada e a mais valia faz sangrar.

A evocação de Django – dado o visual do personagem encarnado a vísceras e puro humanismo pelo ator Ícaro Bittencourt, num jorro de potência – pode fazer parecer que estamos numa ambientação spaghetti, qual os de Sergio Corbucci ou de Tonino Valerii. Mas não é com o bangue-bangue à italiana que o diretor de “Imagem da Terra e de Povo” (1969) se irmana neste longa-metragem a ser exibido nesta quarta no festival brasiliense (via Canal Brasil, Canal Brasil Play). O spaghetti tem mais conexão com o nordestern, o faroeste de cangaço, da jagunçagem (vide o genial “Sertânia”, de Geraldo Sarno, hoje em cartaz no RJ, em SP, no Recife e em Natal), do banditismo social. Não é essa a linha da jornada de Kim que, sim, é um bandido (um assassino de aluguel) e, sim, parou nessa trilha por desajustes sociais. Mas ele não é um exemplar da corrente de foras da lei que agiam em dissonância ao coronelismo. A Madame mesmo diz sobre as escolhas dele: “Você já ganhou muito dinheiro”. Kim precisa matar, mas não por imolações ou reações ao Poder: ele atira porque a roda da economia informal do comércio do crime exige, assim como a economia do colarinho branco também precisa de sua empreitada informal. Mas há algo de dor nele, num eco dos encostos em jira zombeteira em seu caixão de remorsos. E, nesse eco, o filmaço de Senna se liga mais ao faroeste psicológico americano do pós-guerra, da lavra de Anthony Mann (1906-1967), sobretudo “O Preço de um Homem” (1953) e “O Tirano da Fronteira” (1955). E, por razões quase óbvias, inerente ao enredo que Orlando persegue, a partir de um roteiro dele mesmo, com sopros bíblicos do “Gênesis”, acerca da mitologia de Caim e Abel, o esquecido “Irmão Contra Irmão” (1958), de Robert Parrish e John Sturges, tem uma parentela essencial com a história que Brasília vai conhecer neste 16/12.

Irmão contra irmã: Bel (Emanuelle Araújo) vê seus laços fraternos com Kim (Ícaro Bittencourt ) esgarçarem

Desses westerns todos, fica não apenas um clima plúmbeo de pesar existencial, mas também fica o rigor no enquadramento. Embalado pelo que periga ser a melhor trilha sonora de David Tygel em muitos anos (e olha que o nível musical desse compositor é dos mais altos), Orlando faz um balé de câmera, de gestos sinuosos. Enquadra de maneira estanque, apoiado por uma fotografia apolínea (assinada por Pedro Semanovisch), sendo quase monolítico em alguns movimentos, como no plano e contraplano em que as entranhas afetivas de seus personagens sãs evisceradas. Na hora dos tiros, tudo é ágil, pois a montagem (impecável) de Luiz Guimarães Castro responde (sem nervosismos, mas bem atenta) às cartilhas do faroeste moderno. É como em Mann. Um bom Mann, tipo “E o Sangue Semeou a Terra” (1952). A diferença é que não existe em Kim a grandeza dos caubóis de James Stewart, muso e braço armado de Mann. Das figuras vividas por Stewart nessa fase de parceria com o grande (e nem sempre lembrado) cineasta, nos anos 1950, Kim só tem a capacidade de se envergar emotivamente diante do peso que carrega nos ombros. Mas esse peso não tem nada de nobreza.

Nos primeiros minutos de “Longe do Paraíso”, na sequência que melhor dialoga com o histórico documental de Orlando (como “Gitirana”, feito com Jorge Bodanzky, ou o pouco lembrado “A Construção da Morte”), Kim mata um homem e seu filho (uma criança) num ataque a um acampamento do MST. Artesão do realismo político e dos códigos documentais de denúncia, o veterano realizador baiano se desgruda de seu protagonista para cartografar a exclusão ao falar do empenho resiliente do Movimento dos Sem Terra. Mas, logo, num fluxo de edição preciso, o cineasta volta a enquadrar o duplo assassínio cometido por Kim a partir dos ditames da trama e revela que o ato foi um erro dele como matador. Morreu quem não deveria: ele matou as pessoas erradas. Para pagar por seu deslize, Kim é escalado para assassinar uma mulher ligada à resistência fundiária no Nordeste. O alvo é Bel, personagem de muitos calos nas mãos e na alma a quem Emanuelle Araújo, em seu mais potente desempenho como atriz, esculpe de um barro similar àquele de onde Anna Mangnani tirava as heroínas do Neorrealismo. É óbvio que tem Rossellini nessa figura dela e em todas as franjas desse diálogo de Orlando com uma matéria muito distinta de qualquer “Cidade Aberta”. Mas o componente que mais pesa no fardo/fado de Kim é o fato de que Dea é sua irmã.
Numa das sequências mais tocantes do cinema brasileiro deste fim de década, Orlando põe os dois numa mesa, a compartilhar uma sopa amarelada e muitas saudades, diluindo o cheiro de pólvora que perfuma todo o filme. Tal sequência é água num cacto espinhoso que traduz uma realidade bruta, onde o dinheiro, mesmo ausente, é a força de aceleração das colisões. Naquele mundinho de dois irmãos numa troca plena, no silêncio que precede o esporro de uma decisão ou de um hara-kari (“Todo filme de caubói é, na essência, um filme de samurai, uma jornada de honra”, como disse o diretor John Sturges, à época de “Sete Homens e um Destino”), Orlando busca uma conexão autoral com sua ficção mais famosa, “Diamante Bruto” (1978). Nela, algo que mais parece uma aldeia é espatifado com o regresso de um filho pródigo (um ator vivido por José Wilker). O que se passa com Kim é o mesmo: ele regressa pra (talvez) espatifar o que deixou para trás. A questão é que o Brasil fez de sua prodigalidade algo selvagem. E é essa selvageria do capitalismo que Orlando tenta estudar, não para entender, mas para repudiar. E esse repúdio se dá por meio de um poema cinematográfico que é uma das surpresas do ano.

p.s.: Tem um belíssimo trabalho documental de Orlando Senna na grade da Amazon Prime: o documentário “Idade da Água” (2018), sobre o desequilíbrio nos recursos hídricos do Brasil.

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