‘London River’: choque de cultura no streaming

‘London River’: choque de cultura no streaming

Rodrigo Fonseca

08 de julho de 2020 | 09h37

Rodrigo Fonseca
Cronista de relações pautadas pela lealdade, em contextos de intolerância, o diretor argelino, nascido em Paris, Rachid Bouchareb, consagrado por filmes como “Dias de glória” (2006), fez um memorável ensaio sobre choque de culturas em “London River – Destinos Cruzados” (2009), joia da produção cinematográfica da década passada, resgatada agora pelo Globoplay. O filme saiu do Festival de Berlim com o Prêmio do Júri Ecumênico e o Urso de Prata de melhor ator, dado ao maliano Sotigui Kouyaté, que morreu meses após sua vitória. A genial atriz inglesa Brenda Blethyn divide a cena com ele, em uma de suas mais inspiradas atuações. No foco da narrativa está o atentado terrorista em Londres, em 2005. A única filha da fazendeira Elisabeth (Brenda) desaparece após a explosão, que deixa feridos e mortos. A jovem é dada como vítima, assim como seu melhor amigo (ou algo mais): o filho do guarda florestal Ousmane (Kouyaté). Os dois viajam para a capital da Inglaterra para descobrir o paradeiro de sua prole. E, na investigação, unem forças, apesar de suas diferenças e da intolerância indisfarçável de Elisabeth.
“Ela põe seus deveres como mãe acima de tudo. Ele age parecido, em sua postura paternal. Aquele homem idoso, bem simples em seus modos, assumindo seus deveres de pai, é um herói. O heroísmo no meu cinema é o espelho das causas sociais”, disse Bouchareb ao P de Pop, em 2019, uma década após o lançamento de “London River”, num papo durante o fórum Rendez-vous Avec Le Cinéma Français, em Paris.

Lealdade costuma ser a questão central da obra do cineasta, cujo último longa, “Le Flic de Belleville” (2018), segue inédito aqui. “Retratar personagens leais é uma forma de desafiar a polarização que vivemos hoje, onde todos ou são pró ou são contra um assunto qualquer. Não há mais moderação lá fora. Mas, no meu cinema, há. Meu assunto é o encontro, a coalisão de olhares e culturas. Não é só Trump que constrói muros para separar as pessoas. Há muitas fronteiras, mas há, também, muita gente para transpor limites”, disse Bouchareb. “Temos uma França lotada de africanos que lutam para sobreviver. Da mesma maneira, há muitos franceses vivendo em solo africano, buscando outras formas de viver. A questão é a dificuldade de sobrevivência com o que se ganha aqui, para um imigrante, assim como as dificuldades sociais na África. Só a tolerância e o equilíbrio podem fazer alguma diferença diante de um quadro desses”.

p.s.: A atriz e autora Suzana Pires, que aguarda o término da pandemia para lançar no cinema o longa-metragem “De Perto Ela Não é Normal”, comanda a partir de hoje (dia 08 de julho), às 20h, lives sobre arte, teatro e vida no no perfil do instagram do Teatro PetroRio das Artes. A idealização e realização é da produtora Constelar, com patrocínio da PetroRio. O primeiro convidado será o ator Paulo Betti. As lives comandadas no perfil do teatro no Instagram têm como norte o bom humor, sempre sob o comando de craques carismáticos.

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