‘Logan’ revive o clássico ‘Os Brutos Também Amam’

‘Logan’ revive o clássico ‘Os Brutos Também Amam’

Rodrigo Fonseca

04 Março 2017 | 10h37

Alan Ladd é o samurai do Oeste em

Alan Ladd é o samurai do Oeste Shane em “Os Brutos Também Amam”, citado no novo filme do mutante Wolverine

RODRIGO FONSECA
Embora Sam Peckinpah e seu Os Implacáveis (1972) saltem aos olhos quando se avalia a tessitura narrativa do sublime Logan, o diretor da terceira aventura audiovisual solo do Wolverine, o nova-iorquino James Mangold, só assume Os Imperdoáveis (1992), de Clint Eastwood, como referência estética consciente para este derivado dos X-Men, perfumado a faroeste do começo ao fim. Mas, há uma sequência em que o Professor Xavier (Patrick Stewart), o oráculo dos mutantes, em fuga com o protagonista, liga a TV no quarto de um hotel no qual se refugia, e confere a reprise de um western mítico: Shane (1953), aqui chamado de Os Brutos Também Amam. Poderia ser só um adereço de cinefilia, mas não é, vide a recorrência com que o cineasta enquadra a telinha na qual vemos Alan Ladd levando justiça a um rancho acossado por um latifundiário sem ética. Na tal fazenda, há um menino carente de amor, com um pai fraco, que requer uma figura paterna à altura de suas necessidades, mais ou menos como se dá na trama de Mangold, na relação entre o carcaju vivido por Hugh Jackman e a menina Laura (ou X-23), um papel dado à talentosa Dafne Keen. Mais poderoso telepata das HQs Marvel nos gibis e no cinema, Xavier sabe que aquela coincidência midiática pode ter um viés educativo. O realizador do filme também  percebe isso: é uma deixa para reeducar seu público – sobretudo sua ala mais jovem – e mostrar o que foi Shane.

“Logan” revive o cult de George Stevens

Concebido num momento em que o cinema americano vivia sua “pré-modernidade”, no qual o faroeste teve seu fim ético declarado por Matar ou Morrer (1952), Os Brutos Também Amam chegou como uma hemodiálise visual para o filão, com a fotografia paisagística de Loyal Griggs (coroada com um Oscar). Aquela era uma fase do chamado “western psicológico”, linhagem menos preocupada em desbravar fronteiras e mais ocupada em retratar o indivíduo, em suas complexidades psicanalíticas. Era o caso do samurai de chapéu e pistola Shane, vivido (de maneira implosiva por Ladd), que vinha do nada, sem referências, para uma estância assombrada pela cobiça alheia. Lá, ao se afeiçoar pelo guri da casa, Shane desembainha seu colt em prol do Bem. A direção de George Stevens mapeia dois mundos: o externo, da Natureza X Cultura, onde o guri vê os horrores do achaque contra sua família, e o interno, da Cultura x Natureza, no qual Shane abre mão de seu pacto de não agressão e precisa atirar para impor a Justiça. Há uma expectativa por um final feliz de redenção à maneira clássica: mas isso não existe em Stevens. Ele sabe bem a máxima de que “pobre é o povo que precisa de heróis”, o que cria nele um senso de autossacrifício estendido a seus protagonistas. Filmado no Wyoming e na Califórnia, o longa-metragem custou US$ 3,1 milhões, faturou US$ 20 milhões nos EUA e virou lenda.

 

No Brasil, Shane virou folclore por ser o xodó do mais honrado crítico de cinema que nossa imprensa conheceu: Paulo Perdigão (1939-2005), resenhista analítico avesso a impressionismos óbvios que orgulhava-se de ter assistido ao clássico de Stevens 82 vezes. Com base nessa paixão, ele escreveu um livro seminal sobre bangue-bangue: Western clássico  Gênese e Estrutura de Shane, que merecia uma reedição.