‘Logan’ no Oscar e nos melhores da ACCRJ

‘Logan’ no Oscar e nos melhores da ACCRJ

Rodrigo Fonseca

23 Janeiro 2018 | 20h03

Hugh Jackman encarna um Wolverine de cabelos grisalhos e cheio de amargura em “Logan”, indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado

Rodrigo Fonseca
Ver Guillermo Del Toro papar 13 indicações ao Oscar para seu ultrarromântico A Forma da Água dá alegria a qualquer coração pop, assim como aquece o peito ver Dunkirk concorrer a oito estatuetas, saber que Paul Thomas Anderson está no páreo pelo prêmio de Melhor Diretor com Trama Fantasma e ler o nome de Agnès Varda entre as candidatas ao prêmio dos documentários com o lúdico Visages, Villages. Mas nada dá mais alegria do que encontrar Logan, de James Mangold, um filme de super-herói, entre os concorrentes à láurea dourada da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ele disputa na categoria Melhor Roteiro Adaptado, tendo como maior rival Me Chame Pelo Seu Nome, que tem o dínamo brasileiro Rodrigo Teixeira entre seus produtores. Neste momento em que a Marvel “paga as contas” de Hollywood, em tempos onde os olhares audiovisuais estão enterrados na Netflix, essa nomeação é mais do que justa. E merecida. Mas o reconhecimento não para por aí. Num gesto de coragem, ousadia e de afinação com os formatos narrativos do mundo contemporâneo, a Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ), em sua votação anual dos melhores filmes lançados de janeiro a dezembro, abriu pela primeira vez as portas para as narrativas de super-herói, ao incluir a pérola de Mangold, na enquete dos destaques de 2017.

No dia 9 de fevereiro, às 19h, a ACCRJ debaterá o que existe de mais potente, em termos de dramaturgia, nesta produção de US$ 97 milhões, numa mostra no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) carioca, que começa nesta quarta. Quem ainda não viu, poderá se deleitar com o filme na TV, no próximo dia 1º, às 22h, no Telecine Premium. Tem repeteco no dia 15/2, às 23h50, no Telecine Pipoca, com direito à versão dublada pelo genial Isaac Bardavid. A bilheteria global do longa-metragem beirou US$ 616 milhões, o que só reitera o potencial comercial de seu protagonista, o australiano Hugh Jackman.

Mas o que existe de tão bom em Logan? Bem…

Ilíada de um tempo em crise com o conceito clássico de heroísmo, a franquia X-Men e seus derivados – Wolverine é o mais famoso deles, estrelado por um Ulisses trágico – são rebentos do que se poderia entender como o legado nº 1 da cultura digital para a dramaturgia audiovisual: o conceito de meta-cinema.  Filhos do Átomo, os discípulos de Charles Xavier, criados nas HQs por Stan Lee em 1963, tornaram-se cinema como Filhos da Geração DVD. A partir do final dos anos 1990, quando a tecnologia informática permitiu o advento das bolachinhas chamadas de Digital Versatile Disc, toda a memória fílmica produzida no mundo, até aquele momento, encontrou um escoamento (e um veio de preservação) biblioteconômico, que nos permitiu não apenas acesso a cópias, por exemplo, de uma comédia de Harold Lloyd (1893-1971) feita em 1919, mas também a toda uma fortuna crítica (mais contemporânea) sobre ela: os chamado extras. Diferentes do que se viveu na era VHS, todo DVD era um casamento de entretenimento com aula de História, o que alfabetizou uma nova linhagem de cinéfilos e reeducou o olhar dos mais velhos, criando, em ambos, uma percepção de que a realidade – do Presente e do Passado, sobretudo – é mediatizada, ou seja, existe o passado real, concreto, e existe o passado que o cinema nos ensinou. Nossa ideia da Chicago dos gângsters não é a Chicago dos documentos, calcada em fatos: nossa Chicago é a de Brian De Palma em Os Intocáveis. Ou seja… verdade dá lugar a simulacros. E simulacros produzem simulações da vida, ou seja, uma meta-vida, onde imagem não é só um corredor que nos leva a experiências sensíveis: imagem é a experiência em si. E o novo X-Men é uma delas. Das melhores.

O que a práxis do simulacro produziu foi um meta-cinema. Veja, por exemplo, o caso de alguns de seus maiores artesões. Pedro Almodóvar (Fale com Ela) e Wong Kar-Wai (Amor à Flor da Pele) criaram com base em seu mergulho em mestres do cinema e do folhetim (Vincente Minelli e Douglas Sirk sobretudo) uma ideia de meta-melodrama, ou seja, uma reflexão sobre os sofrimentos do querer calcados não em registros do Real, mas em noções de amar, sofrer, perder e reconquistar que o Cinema ensinou a eles. Já Quentin Jerome Tarantino (Bastardos Inglórios) passou os últimos quatro anos dedicado à lapidação do que podemos chamar de meta-melodrama: os geniais Django Livre (2012) e Os Oito Odiados (2015) não são apreensões reais de questões do Oeste “de verdade”, mas sim do Oeste de papelão que Hollywood e os spaghetti italianos nos legaram. São “mentirinhas” erguidas sobre “mentirinhas”, ficção da ficção.

Isaac Bardavid dubla o carcaju

Embora não tenha – ainda – o peso destes cineastas, mas já tenha um lastro autoral com base na contínua discussão da farsa como prática de sobrevivência, o diretor James Mangold fez da franquia baseada nas aventuras do mutante de guerras metálicas – Wolverine – Imortal (2013) e, agora, o brilhante Logan a instância do meta: não o meta-quadrinho, mas o meta-filme. Por um bom tempo das quase 2h20 minutos de Logan, esquecemos estar diante de um filão consagrado: o “filme de super-herói”. Estamos, sim, num thriller sobre formação familiar, bem parecido com os que Sam Peckinpah fazia entre os anos 1960 e 70, sobretudo Os Implacáveis (1972). A secura narrativa é a mesma, uma vez que mantém os pés fincados no realismo, com um ritmo de ação febril, sem jamais abrir mão de sua amargura estrutural.

Tem um tempero de Stranger Things na fuga de Logan para proteger a menina Laura Kinney (Dafne Keen) da tropa dos Carniceiros chefiados por Donald Pierce (Boyd Holbrook, de Narcos). Neste filmaço sem cena pós créditos, reina a metalinguagem, usada por Mangold ao mostrar gibis na tela várias vezes, como um registro mítico de um herói que se esforçou para não deixar laços atrás de si. Mas estes laços, na trama, foram criados à força de seus feitos. E, na vida real, a mitologia é sequela da evolução (espantosa) de Jackman na pele deste semideus caído.

 

Pra quem estiver interessado nos demais títulos da mostra Melhores da ACCRJ, vai aqui a programação:

Programação – Melhores 2017

24/1 (quarta)
16h Blade Runner 2049 (164 min) 14 anos
19h Dunkirk (106 min) 14 anos

25/1 (quinta)
16h Despertar dos Mortos (127 min) 14 anos
18h30 Comeback (89 min) 16 anos

26/1 (sexta)
16h Terra Selvagem (107 min) 16 anos
18h30 A Qualquer Custo (102 min) 14 anos

27/1 (sábado)
14h30 Já visto Jamais visto (54 min) Livre
16h Logan (137 min) 16 anos
19h Como Nossos Pais (82 min) 14 anos

28/12 (domingo)
16h Corra! (104 min) 14 anos
18h30 Moonlight – Sob a Luz do Luar (111 min) 16 anos

29/1 (segunda)
15h30 Dunkirk (106 min) 14 anos
18h Blade Runner 2049 (164 min) 14 anos

31/1 (quarta)
16h Comeback (89 min) 16 anos
18h30 Despertar dos Mortos (127 min) 14 anos

1/2 (quinta)
15h30 A qualquer custo (102 min) 14 anos
17h30 Terra selvagem (107 min) 16 anos
19h30 Debate com os integrantes da ACCRJ Carlos Brito e Gilberto Silva Jr.

2/2 (sexta)
16h30 Eu não sou o seu negro (93 min) 12 anos
18h30 No intenso agora (127 min) 12 anos

3/2 (sábado)
16h Como Nossos Pais (82 min) 14 anos
18h Logan (137 min) 16 anos

4/2 (domingo)
16h Terra Selvagem (107 min) 16 anos
18h30 A Qualquer Custo (102 min) 14 anos

5/2 (segunda)
15h30 Corra! (104 min) 14 anos
17h30 Moonlight – Sob a Luz do Luar (111 min) 16 anos
19h30 Debate com os integrantes da ACCRJ Luiz Fernando Gallego e Marcelo Janot

7/2 (quarta)
16h30 Já visto Jamais visto (54 min) Livre
18h Comeback (89 min) 16 anos
19h30 Debate com os integrantes da ACCRJ Ana Rodrigues e Leonardo Luiz Ferreira

8/2 (quinta)
15h30 No intenso agora (127 min) 12 anos
18h Eu não sou o seu negro (93 min) 12 anos
19h30 Debate com os integrantes da ACCRJ Daniel Schenker e Nelson Hoineff

9/2 (sexta)
15h30 Logan (137 min) 16 anos
18h Como Nossos Pais (82 min) 14 anos
19h30 Debate com os integrantes da ACCRJ Filippo Pitanga e Rodrigo Fonseca

10/2 (sábado)
14h30 Blade Runner 2049 (164 min) 14 anos
17h30 Dunkirk (106 min) 14 anos
19h20 Debate com os integrantes da ACCRJ Francisco Russo e Mario Abbade

11/2 (domingo)
14h Despertar dos Mortos (127 min) 14 anos
16h30 Eu não sou o seu negro (93 min) 12 anos
18h30 No intenso agora (127 min) 12 anos