Locarno mata suas saudades de Paulo Rocha

Locarno mata suas saudades de Paulo Rocha

Rodrigo Fonseca

09 de agosto de 2021 | 22h59

O diretor Samuel Barbosa mexeu com os afetos do 74º Festival de Locarno com “A Távola de Rocha”

Rodrigo Fonseca
Tratado em Locarno como se estivesse em casa, com pão e vinho sobre a mesa, num cheirinho de alecrim no ar, o cinema português volta ao festival suíço neste ano em que o novo curador, Giona A. Nazzaro, dá ao evento uma cara mais pop e mais diversa, com muitas iguarias, seja o curta “Hotel Royal”, de Salomé Lamas, seja um mastodôntico (mas tocante) projeto de 641 minutos dirigido por Nuno Leonel e Joaquim Pinto, chamado “Pathos Ethos Logos”. Mas há um longa-metragem de 94 minutos que toca fundo na alma de quem reconhece naquela indústria uma usina de iguarias autorais: a aula de memorialismo batizada de “A Távola de Rocha”. Sua montagem elegante e sua delicada composição de cores atestam o apetite do cineasta Samuel Barbosa pelas manhas da forma, num estudo sobre as brechas do Tempo rotuladas por nós de “filmes”. Os filmes em questão são do realizador Paulo Rocha (1935-2012), lembrado entre nós por “Verdes Anos”, que deixou Locarno, em 1964, com o prêmio de melhor longa de estreia. Dono de uma obra enquadrada na linhagem moderna da arte lusitana, capaz de olhar mundos próximos ou distantes (como o Japão) com uma mirada poética, capaz de liricizar o que tinha tudo para ser cientificamente etnográfico, Rocha dirigiu histórias aclamadas mundialmente, como “A Ilha dos Amores”, indicado à Palma de Ouro de Cannes em 1982. Barbosa enquadrou sua carta de afeto a Paulo no CEP da seção Histoire(s) de Cinéma de Locarno, em forma de um documentário. Mas sua forma de trançar os códigos da não ficção parece poema, tendo um diretor de timbre d’autor, Rodrigo Areias, como seu produtor.

De que maneira o cinema do Paulo Rocha serve como bússola para o seu olhar estético?
Samuel Barbosa:
Tínhamos, em nossos encontros, conversas sobre a vida. Mas se há alguma coisa disso que chamas de bússola na relação que travamos, isso talvez esteja na maneira que ele tentava encontrar o lado misterioso das imagens, mesmo quando esse lado estava nas sombras. Ele era um realizador que se perguntava, atento, onde estavam os processos mais mecânicos e como esses vão continuar a progredir. São coisas difíceis de planificar e, por isso, podem nos levar para o abismo. O desafio da montagem do meu .doc fica em ouvir o próprio universo do Paulo e dele extrair sua singularidade.
Parte da obra de Paulo Rocha é marcada por uma relação belíssima com o Japão que nos revela uma mirada lúdica da Ásia, como se vê em “Portugaru San – O Sr. Portugal em Tokushima”, de 1993. Como você avalia o olhar dele para o mundo?
Samuel Barbosa:
Não é um olhar de mera curiosidade. O cinema dele me mostrou uma disponibilidade para querer conhecer o outro, de maneira legítima.
Existe o cinema poderoso do Paulo e existe o seu cinema, que se impõe pela delicadeza com que você usa a paleta de cores. Qual e como é esse teu colorido?
Samuel Barbosa:
Resgates acontecem quando encontros são autênticos e, por isso mesmo, replicáveis. Tive um encontro de anos com ele, que começa quando tinha 23 anos. A cor, nesse processo, vem de uma referência da pintura, que se prolonga nas telas, por vezes contrastante a reforçar oposições.

O diretor Paulo Rocha

Ainda de Locarno…
Fala-se por todo o canto da imprensa europeia especializada em cinema da boa reverberação de “After Blue (Paradis Sale)”, de Bertrand Mandico, em Locarno. Cineasta não binário, o (ou a ou e, pra ele, vale tudo) queridinho da “Cahiers du Cinéma” (revista que serve de bíblia à cinefilia desde os anos 1950) trouxe à Suíça uma fantasia sobre um mundo onde apenas há mulheres. Lá, uma jovem vai caçar uma djin, criatura capaz de realizar desejos, qual o Gênio da Lâmpada, chamada Kate Bush. Sua direção de arte é de um requinte singular. Mas cresce a cada minuto a torcida em prol de um longa da Indonésia: “Seperti Dendam, Ridu Harus Dibayar Tuntas” (“Vengeance Is Mine, All Others Pay Cash”), de um diretor chamado só de Edwin. Nele vemos uma ode ao cinema B de artes marciais de Hong Kong a partir da saga de um lutador e matador de aluguel que toma uma coça de uma jovem, também assassina, e se apaixona por ela, comprando brigas com criminosos e ex-afetos da moça.
Nesta terça, a Piazza Grande de Locarno confere um dos blockbusters mais esperados (e mais ousados) do ano: “Free Guy: Assumindo o Controle”, do canadense Shawn Levy, com Ryan Reynolds a se libertar da persona de Deadpool e viver um NPC (personagem não controlável) de um mundo de videogames, tendo o diretor Taika Waititi (de “JoJo Rabbit”) como vilão. É um delicioso ataque da Fox, hoje ligada à Disney, à cultura algorítmica no mercado audiovisual.

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