Locarno lança inédito de Kiyoshi Kurosawa

Locarno lança inédito de Kiyoshi Kurosawa

Rodrigo Fonseca

12 de junho de 2019 | 10h14

O cineasta japonês Kiyoshi Kurosawa vai encerrar ao Festival de Locarno (7 a 17 de agosto) na Suíça com filme sobre a jornada de uma apresentadora de TV asiática atrás de um peixe raro

Rodrigo Fonseca
Locarno, sede de um dos mais respeitados festivais de cinema do mundo, assegurou uma estreante, a italiana Ginerva Elkann, para abrir a 72. edição de sua maratona cinematográfica anual, com a projeção do drama “Magari”, porém resolveu apostar na sabedoria de um veterano estudioso das perseveranças do feminino para encerrar a edição de 2019 de seu maior evento audiovisual, agendado de 7 a 17 de agosto: o mestre japonês Kiyoshi Kurosawa. Mais conhecido por suspenses, sci-fis e thrillers de horror, o veterano diretor sempre retratou mulheres fortes, resilientes, em seus longas-metragens. O novo, “Tabi no Owari Sekai no Hajimari“, fará jus a esse seu passado. O título internacional ficou “To the ends of the Earth” e tem a cantora pop Atsuko Maeda como estrela. A sessão em telas suíças vai ser em 7 de agosto, ao fim da cerimônia de premiação.

Desde a década de 1990, Kiyoshi Kurosawa conta com fãs fiéis, que se deslumbram com sua metafísica violenta. O sobrenome pode sugerir alguma ligação com o diretor Akira Kurosawa (1910-1998), mas não há laços de sangue nem semelhanças estéticas entre ele e o realizador de clássicos do naipe de “Os sete samurais” (1954). Dono de uma das mais prolíficas filmografias do Japão na atualidade, reconhecido lá e em toda a Europa como um dos maiores artesãos do medo nas telas, graças aos cults “Creepy” (2016), “Crimes obscuros” (2006) e “Pulse” (2001), Kiyoshi, aos 64 anos, regressa às telas com uma trama que passa longe das veredas do assombro nas quais ele se consagrou. Em “To the ends of the Earth”, que Locarno confere em primeira mão, há um interesse pelas vicissitudes afetivas da vida, sem interesse em assassinos ou seres do espaço. Atsuko Maeda é a protagonista, Yoko, uma estrela de um programa de TV que modifica sua percepção da realidade (e de suas emoções) ao visitar o Uzbequistão para gravar imagens para um especial para a telinha. Ela tem ainda o desejo de capturar imagens de um peixe raríssimo. É algo que o cineasta classifica de  “melodrama metafísico”, parecido com o que fez em “Para o outro lado”, pelo qual foi premiado com uma láurea de melhor direção em Cannes, em 2015.

Cena de “To the ends of the Earth”

Na entrevista a seguir, concedida na Alemanha, Kiyoshi explica ao P de Pop quais são os novos rumos do cinema do Japão.

Ao chegar aos 60 anos, o senhor foi alternando seus filmes fantásticos de terror ou de ficção científica com dramas ligados a jornadas. O que justifica essa mudança e que novos caminhos artísticos esse novo movimento revela?
Kiyoshi Kurosawa:Entender o sentido do verbo “perder” é uma curiosidade que me move, assim como entender que inquietudes eu encontro diante do que existe de mais uniforme e de mais recorrente na sociedade japonesa. O contraste entre as paisagens em um país pequeno como o Japão não são fortes: transformação é uma palavra um tanto rara por aqui. Estou preparando agora um filme que tem, de novo, a questão da andança. Dada a questão da permanência que é tão cara à minha nação, eu preciso ter cautela na hora de retratar a maneira como as pessoas se transformam nos ritos de todo dia ou em situações de surpresa. Trabalhar na cartilha de gênero, com o suspense ou a sci-fi, trouxe pra mim a certeza de que a elegância é o caminho para se desnudar uma alma. Saber ser elegante exige de um artista uma predisposição à mudança. Ainda que o mundo não se altere, em seus valores, em seu balanço, um artista precisa saber mudar para retratar o que existe em sua volta, sobretudo no cinema, que já nasceu mítico. Em suas primeiras horas de vida, os Lumière, que o inventarem, produziram obras-primas. Brincar com um aparelho que fabrica imagens míticas me deu a certeza de que a inspiração para contar histórias é minha própria mudança, meu amadurecer.

Qual é o espaço para a elegância em um filme pautado pela fantasia ou pelo medo?
Kiyoshi Kurosawa: Nós estamos enfrentando momentos de crise no nosso planeta inteiro, a todo momento, que não passam por monstros e sim por dificuldades financeiras. O dinheiro sumiu. A escassez dele hoje está produzindo violência e segregação. Eu uso a fantasia como um catalisador de metáforas sobre a nossa incapacidade de lidar com o desespero que a miséria gera. Ser explícito é imitar a miséria, pois ela é deselegante. Se eu fizer o que ela faz, ou seja, exagerar, explicar demais, eu estarei delimitando o espaço que o espectador precisa para pensar.

O senhor é saudado como mestre por sua artesania, capaz de reproduzir um ataque alienígena com poucos recursos, brincando com a luz. O que o senhor trouxe de mais pessoal, e de original, pro cinema japonês?
Kiyoshi Kurosawa: Nada é mais exuberante do que a normalidade: quanto mais cotidiana for uma trama, mais exotismo ela há de revelar sobre nós. Isso vem de uma escola antiga dos mestres do Japão nas telas. Por isso, o que me pauta é o respeito à tradição. Busco o que de melhor o cinema americano nos deu, em filões como o terror, e misturo com a cartilha humanista que se criou em meu país. Dar atenção ao que existe de íntimo numa relação humana pode revelar monstruosidades, entre elas o fantasma do egoísmo. O silêncio assusta mais do que o estrondo.