Locarno em marcha… nos céus e em Portugal

Locarno em marcha… nos céus e em Portugal

Rodrigo Fonseca

08 de agosto de 2019 | 22h53

Cena de “Prazer, Camaradas”, um balanço da Revolução dos Cravos visto por quem veio de outras pátria e esbarrou com a moral lusa

Rodrigo Fonseca
Salivando pela projeção de “Era uma vez… em Hollywood”, de Quentin Tarantino, na Piazza Grande, na noite deste sábado, para uma multidão cinéfila, o 72º Festival de Locarno viu sua arrancada, nesta quarta-feira, cercar-se do aroma de renovação, em sua aposta numa pluralidade de mulheres diretoras em diferentes latitudes (a começar do filme de abertura, o aclamadíssimo drama italiano “Magari”, da diretora Ginevra Elkann) e por promessas pop. A maior delas foi exibida para a crítica na quinta, sob doses fartas de tensão: “7500”, thriller germânico com o ator americano Jospeh Gordon-Levitt no ápice de sua maturidade, dez anos depois de seu boom com “(500) dias com ela” (2009). O diretor Patrick Vollrath vem à fofa cidadezinha suíça nesta sexta para falar do clima de tensão que depura ao longo de 92 minutos dentro de uma cabine de um avião sequestrado por terroristas. Todo mundo quer saber o quão reais são os fatos por ele sublimados em ação. Igual é a curiosidade sob o trânsito entre fato e fábula feito pelo luso José Filipe Costa em “Prazer, Camaradas”, a ser exibido aqui no sábado. É um olhar sobre A Revolução dos Cravos a partir dos estrangeiros que se aproximaram de Portugal.

Prazer, Camaradas!” está nas fronteiras entre documentário e ficção, entre passado e presente”, disse o diretor ao P de Pop. “Ao pedir a actores não profissionais nos sessenta e setenta anos para fazerem de conta que eram jovens, descobrimos que o passado não está longe, está no presente e que as nossas ficções sobre o passado são muito actuais, são produtivas e efectivas”.

Concorrem ao Leopardo de Ouro os longas: “A febre”, de Maya Da-Rin (Brasil); os portugueses “Vitalina Varela”, de Pedro Costa; “O fim do mundo”, de Basil da Cunha, e o esperadíssimo “Technoboss”, de João Nicolau; “Bergmál”, de Rúnar Rúnarsson (Islândia); “Cat in the wall”, de Mina Mileva e Vesela Kazakova de Joe Talbot (EUA); “Douze mille”, de Nadège Trebal (França); “A voluntary year”, de Ulrich Köhler e Henner Winckler (Alemanha); “During revolution”, de Maya Khoury (Síria); The science of fictions”, de Yosep Anggi Noen; “Les enfants d’Isadora”, de Damien Manivel (França); “Longa noite”, de Eloy Enciso (Espanha); “Maternal”, de Maura Delpero (Argentina/ Itália); “Height of the weight”, de Park  Jung-bum (Coreia do Sul); e “Terminal Sud”, de Rabah Ameur-Zaïmeche (França).

Para julgar estas produções, Locarno montou um time formado pela cineasta alemã Valeska Grisebach, a produtora holandesa Ilse Hughan, o ator argentino Nahuel Pérez Biscayart, o crítico italiano Emiliano Morreale e a diretora francesa Catherine Breillat (de “Romance”), que preside essa esquadra de artistas. Eles têm uma imersão na realidade indígena brasileira para fazer no longa de Maya Da-Rin. Já se ouvem elogios à sua narrativa por aqui, sobretudo à sua montagem. Já há um boca a boca elogioso pelas ruas desta cantinho do Céu na Suíça. A diretora fez barulho no exterior, em 2010, com “Terras”. Agora, de volta à direção, ela retrata a realidade de Manaus, ao seguir a rotina de Justino, um indígena viúvo de Manaus que ganha a vida como vigia de um porto de cargas. Na trama, Justino entra em um estado febril no momento em que o bairro onde mora é assolado pela presença de um animal selvagem. Geral por aqui se questiona sobre o destino dos povos da floresta no Brasil de Bolsonaro. Tem mais uma projeção dele nesta sexta.

Nesta terça, Locarno presta um tributo ao ator Bruno Ganz (1941-2019), que morreu em fevereiro, com uma sessão especial de “A Eternidade e um dia”, a Palma de Ouro de 1998.

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