Locarno coroa Pedro Costa e ‘A febre’

Locarno coroa Pedro Costa e ‘A febre’

Rodrigo Fonseca

17 de agosto de 2019 | 13h59

Cena de “Vitalina Varela”, longa português laureado com o Leopardo de Locarno

Rodrigo Fonseca
Popstar da autoralidade na Europa, endeusado (com todo o mérito do mundo) por seu radicalismo estético na abordagem do abandono dos imigrantes africanos no Velho Mundo, o português Pedro Costa, de 60 anos, conquistou neste sábado, na Suíça, um dos troféus mais disputados pela classe cinematográfica em todo o mundo: é dele o Leopardo de Ouro de Locarno. Sua vitória na 72ª edição do festival – que, em 2014, deu a ele o prêmio de direção por “Cavalo dinheiro” – é atribuída a seu novo projeto: “Vitalina Varela”. Coube ao longa-metragem ainda o prêmio de melhor atriz, dado à sua protagonista, a dona Vitalina do título. Cabo-verdiana expatriada por razões de subsistência financeira, ela, aos 55 anos, dias depois de enviuvar, parte para Lisboa, a fim de refazer sua vida, após 25 anos à espera de uma nova chance, longe de seu país.  

“Não recrio o real, eu olho para ele e presto atenção. Cinema são imagens projetadas numa tela a partir daquilo que chamados de realidade, algo que não é uma invenção, e sim aquilo que eu vejo da minha janela em Lisboa”, disse o diretor ao P de Pop quando o projeto começou a ser feito, consagrando Portugal com o prêmio maior de Locarno pela segunda vez em sete décadas de festival.

O estreante Regis Myrupu em Locarno. Abaixo, o cartaz de “A febre”

Antes, em 1987, “O bobo”, de José Álvaro Morais, também ouviu o Leopardo rugir, o que abriu um histórico de apreço entre o cinema português e as direções artísticas da mostra competitiva suíça, agora chefiada pela parisiense Lili Hinstin. Ela abriu uma vitrine para o Brasil na competição oficial, escalando “A febre”, de Maya Da-Rin, como um dos 17 de concorrentes. Neste sábado, na premiação, o longa ambientado em Manaus – centrado no périplo existencial de um vigia indígena, Justino, às voltas com um estado febril inexplicável – rendeu a seu protagonista, o estreante Regis Myrupu, o troféu de melhor ator. “Nós, povos indígenas, estamos vivendo um momento muito difícil. Não só nós, mas também a nossa casa, a floresta, está sendo destruída. Então, um indígena recebendo um prêmio como esse, mostra a nossa força e capacidade de atuarmos na sociedade não indígena, seja participando de um filme, seja como médicos ou advogados, sem que isso signifique a perda das nossas origens ou o esquecimento da nossa cultura”, disse Myrupu, em comunicado circulado pela assessoria do filme, a Primeiro Plano, comemorando seu sucesso internacional na pele de Justino. Em Locarno, a diretora do longa conversou por e-mail com o Estadão:

Acho que todos os indígenas são heróis. Depois de terem vivido o fim do seu mundo há mais de quinhentos e resistido ao maior massacre da história, àqueles que sobreviveram e seguem lutando para sobreviver são os maiores heróis que a humanidade já conheceu. Então, com certeza ele é um herói. Mas Justino também é um personagem com o qual eu poderia cruzar no meu cotidiano. E isso foi o que mais me interessou enquanto eu escrevia o argumento. Queria fazer um filme sobre os seus dilemas existenciais. Sabemos da propensão do cinema em ‘exotizar’ as culturas indígenas e da tendência em enxerga-las por um prisma romântico e positivista, como remanescentes daquilo que as culturas ocidentais foram no passado e não como as sociedades complexas e atuais que são“, disse Maya.

Ganhadora da Palma de Ouro de 2019 com “Parasita”, que foi exibido em Locarno e vai ter uma exibição de gala em San Sebastián, na Espanha, a Coreia do Sul saiu do festival dos suíços com o Prêmio Especial do Júri, confiado a “Pa-go” (“Height of the Wave”), de Park Jung-bum. Na trama, uma jovem com medo do mar é abusada pelo povo do vilarejo onde vive.

Egresso da dança, reconhecido no cinema por filmes que dividiram opiniões da crítica como “Le Parc” (2016), o francês de 38 anos Damien Manivel saiu de Locarno com o troféu de melhor direção por “Les enfants d’Isadora”. A trama aborda o périplo criativo de quatro bailarinas que recriam uma coreografia de luto de Isadora Duncan. Teve ainda menções honrosas especiais para os longas “The Science of Fictions”, da Indonésia, e para “Maternal”, de Maura Delpero, uma coprodução Itália e Argentina. O primeiro fala de um sujeito que passa a andar com a velocidade de um astronauta na superfície lunar ao ser punido por um suposto delito envolvendo uma expedição ao espaço. O segundo segue a rotina de uma freira italiana que cuida de mães solteiras pobres num abrigo da Igreja na América do Sul.

Terminado Locarno, começa a contagem regressiva para Veneza, que abre suas portas no dia 28 de agosto, com “The truth”, do japonês Hirokazu Koreeda, abrindo a disputa pelo Leão de Ouro de 2019.

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: