Locarno consagra o cinema de Kelly Reichardt

Locarno consagra o cinema de Kelly Reichardt

Rodrigo Fonseca

02 de agosto de 2022 | 05h18

A diretora Kelly Reichardt será homenageada em Locarno pelo conjunto de sua obra

RODRIGO FONSECA
No auge de sua consagração, depois de ter conquistado o troféu honorário Carroça de Ouro, em Cannes, a cineasta americana Kelly Reichardt vai receber homenagens também na Suíça, no Festival de Locarno, que inicia nesta quarta-feira sua 75ª edição. Estrela da cena indie dos Estados Unidos, respeitada por longas-metragens como “Movimentos Noturnos” (produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira, em 2013), Kelly, nascida em Miami, há 58 anos, foi jurada na Croisette, em 2019, e concorreu à Palma de Ouro deste ano com a comédia “Showing Up”, estrelado pela atriz Michelle Williams, com quem a realizadora trabalhou em “Wendy & Lucy” (2008) e “Certas Mulheres” (2016). É uma trama sobre uma escultora à margem de uma crise, às vésperas de inaugurar uma exposição.
“Cresci num ambiente distante da badalação midiática de Los Angeles, na Flórida, e aprendi por lá o pensamento de ser periférica aos discursos oficiais”, disse Kelly ao Estadão, em sua passagem por Cannes, em maio.
Coroada com o Prêmio Tigre, do Festival de Roterdã, em 2006, por “Antiga Alegria” (“Old Joy”), Kelly é respeitada também por seu trabalho como montadora. Foi ela que editou o festejado “First Cow”, lançado aqui via MUBI e considerado por muitos sua obra-prima. Trata-se de um faroeste sem bangue-bangue: o imigrante chinês King-lu (Orion Lee) trava uma relação de trabalho e amizade com o comerciante de peles Cookie (John Magaro). Os dois passam a fazer um exótico bolinho usando o leite roubado da vaca de um inglês rico (Tony Jones). Esse roubo vai colocar a dupla em apuros.
“Sou responsável pela montagem desse western sempre buscando imagens que contemplem a natureza e que demarquem o mundo menos urbanizado onde estamos instaurados. Edito meus longas-metragens sempre atenta à força de imagens que desafiem lugares comuns”, disse a diretora. “Falar em faroeste me faz pensar em Ida Lupino, uma grande diretora”.

“Showing Up” concorreu à Palma de Ouro em Cannes

Um ano depois de conceder o prêmio principal de sua competição de curtas ao musical carioca “Fantasma Neon”, de Leonardo Martinelli, o Festival de Locarno, sob direção artística de Giona A. Nazzaro, inicia seus trabalhos de 2022, neste 3 de agosto, com a projeção de um thriller com Brad Pitt (“Trem-Bala”), trazendo o Brasil novamente em concurso, agora entre os longas-metragens, com “Regra 34”, de Julia Murat. Mas um dos destaques de uma programação que promete polêmica, ao remexer o histórico de guerras da Rússia, com “Fairytale”, de Alexander Sokurov. Por Locarno, serão exibidas ainda promessas de polêmica (“My Neighbor Adolf”, de Leon Prudovsky) e produções com pinta de sucesso popular (“Une Femme de Notre Temps”, de Jean Paul Civeyrac). Flertando com o melodrama, a partir de uma retrospectiva do diretor alemão Douglas Sirk (1897-1987), realizador de “Imitação da Vida” (1959), a programação arquitetada por Giona para Locarno inclui uma série de tributos, além da homenagem a Costa-Gavras. No rol de homenageados estão: o realizador Costa-Gavras, a compositora e artista visual Laurie Anderson, o ator Matt Dillon e o produtor Jason Blum.

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