Livro revê a potência do cinema da URSS

Livro revê a potência do cinema da URSS

Rodrigo Fonseca

30 de outubro de 2019 | 19h06

“A ascensão”, de Larisa Shepitko, uma das diretoras que renovaram a linhagem cinematográfica soviética

RODRIGO FONSECA
Carta de amor do diretor moscovita Andrey A. Tarkovsky a seu pai, o realizador de “Solaris” (1972) e “Stalker” (1979), o documentário “Uma oração de cinema” será um dos derradeiros filmes a serem exibidos no encerramento da 43ª Mostra de São Paulo, nesta quarta, às 21h40, no Espaço Itaú da Frei Caneca, abordando a rotina criativa de um artesão de uma linhagem narrativa historicamente associada à retórica da Revolução de 1917. Retórica essa que mudou com o tempo, na engrenagens dialéticas do marxismo, leninismo, stalinismo e da Glasnot, em um torvelinho de lutas (a de classes, inclusive) cuja dimensão estética é o foco de investigação do livro “Cinema para russos, cinema para soviéticos”, a ser lançado nesta quinta-feira, dia 31, às 19h, na Blook do Estação Net Rio. Andrei Tarkóvski (1932-1986) é um dos diretores que o professor João Lanari Bo analisa ao longo de quatro capítulos resultantes de uma pesquisa de cinco anos – materializada em papel pela editora Bazar do Tempo. A partir de uma revisão de uma centena de filmes (150, para ser exato), Lanari propõe um panorama da invejável cinematografia feita na Rússia, da era pré-revolucionária à invasão de Praga, em 1968. Já no primeiro capítulo, “Da era tsarista à virada socialista”, ele aborda os ecos revolucionários do Outubro de 1917 e a década de 1920. Ele dá destaque para filmes de Kulechov, Eisenstein, Pudovkin, e também de Kozintsev, Perestiani e Protazanov. Ao longo do século XX, a produção da União das Repúblicas Socialistas revelou diretoras de prestígio, como Larisa Shepitko (1938–1979), do memorável “A Ascensão” (1977).

Na entrevista a seguir, Lanari – hoje ocupado com o lançamento do longa “Os príncipes”, um dos trabalhos finais do mestre Luiz Rosemberg Filho (1943-2019) – faz um recorte de seu trabalho investigativo em “Cinema para russos, cinema para soviéticos”, cuja leitura se candidata à obrigatoriedade.
De que maneira o seu livro desenha a história do cinema da URSS e seu legado para as atuais gerações de diretores russos, ucranianos e afins?
João Lanari Bo:
Durante a vigência da URSS, o cinema foi concebido, com maior ou menor intensidade, como um veículo de promoção do “novo homem soviético”, tornando-se uma espécie de vitrine desse projeto social e político. Naturalmente, o substrato russo que, de alguma forma, mantinha-se presente nas narrativas e personagens – e também nas demais nacionalidades, ucraniano e georgiano por exemplo – funcionava como retorno do real, como contraponto ao projeto. Examinar essa singular trajetória, cinema para russos e para soviéticos, foi o objetivo do livro.
De que maneira o legado da montagem virou um patrimônio e, ao mesmo tempo, um fardo para os soviéticos, dada a reflexão acerca do uso retórico da edição como construção de discurso?
João Lanari Bo:
Esse é um dos aspectos mais relevantes dessa dualidade, russos e soviéticos. Manipular o tempo e o espaço cinematográfico dialeticamente, como faziam os diretores canônicos do cinema soviético, era um corolário do projeto comunista de emancipação do proletariado. A deterioração e o desgaste desse estilo de montagem, em paralelo às crises políticas na URSS, que alternavam enrijecimento do sistema e relativa flexibilização, levou à mudança de paradigmas. Um caso ilustrativo dessa transição é Tarkovsky e suas críticas a Eisenstein.
Que diretores russos do presente mais e melhor preservaram as lições da tradição soviética?
João Lanari Bo:
O cinema russo contemporâneo é amplo e diversificado. A tradição é transmitida em situações particulares e específicas. Por exemplo, Dovjenko exerceu influência sobre Larisa Sheptiko; Romm sobre Konchalovsky, Tarkovsky e Panfilov; Marlen Khutsiev formou-se com Igor Savchenko; Kira Muratova refere-se a Guerassimov como seu mestre. Alexei Balabanov e Nikita Mikhalkov também estudaram no VGIK. Desnecessário ressaltar, o VGIK, a escola de cinema mais antiga do mundo, desempenha papel importantíssimo na formação dos diretores russos e é um rico depositário do melhor da tradição naquele país.
Em paralelo ao lançamento do livro, você colaborou com o lançamento de “Os Príncipes”, de Luiz Rosemberg Filho. Como está a distribuição do longa-metragem fora do Rio? O que esse filme representa dentro da obra de Rosemberg, um de nossos mais corajosos cineastas?
João Lanari Bo:
Acho que “Os Príncipes” é o trabalho mais contundente do Rosemberg, mais comunicativo, como ele dizia – e também carregado de uma atualidade devastadora. Tudo nesse filme é de alta voltagem – interpretações, som, montagem – ao mesmo tempo que as condições de produção foram extremamente limitadas. Na obra dele, representa um salto violento, um novo estilo de direção em que ele valeu-se das experiências anteriores e arriscou novas possibilidades. Vamos ficar pelo menos duas semanas no Rio e depois partir para São Paulo, em data ainda a ser definida, e talvez Brasília.

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