Livro da Abraccine atesta vigor documental de Walter Carvalho

Livro da Abraccine atesta vigor documental de Walter Carvalho

Rodrigo Fonseca

02 de novembro de 2017 | 14h08

Rodrigo Fonseca
Tem dois longas-metragens de Walter Carvalho (Raul – O Começo, o Fim e o Meio e Janela da Alma) na enquete do livro Documentário Brasileiro – 100 Filmes Essenciais, recém-chegado às livrarias com a grife da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Mas faltou coisa dele nessa seleção, coletada com capricho pelo mineiro Paulo Henrique Silva, o organizador da publicação, que dedica ainda um espaço à fúria audiovisual do irmão de Walter: o documentarista Vladimir Carvalho, realizador do mítico O País de São Saruê (1971). E o terceiro lugar desse best of ficou com Santiago (2007), de João Moreira Salles, que tem fotografia de Waltinho, cuja cabeça cunhou a minima moralia a seguir:  

“Na distância entre aquilo que se vê e aquilo se deduz reside uma certa poesia que a gente chama de cinema”.

É esse o pensamento que rege um dos trabalhos mais bonitos dele como diretor: Um Filme de Cinema, que foi um dos maiores lançamentos nacionais do ano em circuito.

Béla Tarr em cena de “Um Filme de Cinema”

Com depoimentos de realizadores icônicos por sua transgressão às cartilhas narrativas da indústria do audiovisual, como a argentina Lucrecia Martel, o húngaro Béla Tarr, o americano Gus Van Sant, o mezzo moçambicano mezzo carioca Ruy Guerra e os brasileiros Julio Bressane e Karim Aïnouz, o longa assume como tema o plano: a menor partícula estética de uma obra fílmica. O objetivo do cineasta e fotógrafo paraibano (aliás… o maior diretor de fotografia em atividade no Brasil) é compreender como este elemento essencial à linguagem cinematográfica foi sendo barateado pelo mercado, buscando ouvir cineastas que ainda preservem sua pureza. A gestação deste longa coincidiu com um período intensivo de trabalho em que ele fotografou projetos de Selton Mello (O Filme da Minha Vida), José Luiz Villamarim (Redemoinho) e Murilo Benício (O Beijo no Asfalto) e concluiu as filmagens de Manter a Linha da Cordilheira Sem o Desmaio da Planície, no qual aborda o processo de fazer literário do poeta Armando Freitas Filho.

Existe um dispositivo clássico – a entrevista – no cerne da estrutura de Um Filme de Cinema, afinal, é necessário fazer ouvir reflexões e digressões sobre a ótica, a física da dramaturgia, a cinemática. Nessa escuta, temos pérolas, como a forma de Tarr pensar a posição do ator em um tratado sobre a erosão como O Cavalo de Turim (2012), e temos fofocas, como a piadinha de Lucrecia sobre Jennifer Aniston. Mas existe um ganho no longa que transcende a palavra e que está em uma natureza experimental, Natureza esta que exponencia a busca recente de Carvalho, como realizador, investigando potências craitivas de artistas, sejam eles músicos (Raul – O Começo, O Fim e o Meio), poetas (tipo Manter a Linha), menestréis (Brincante) e atores (caso do recente Iran).

Espécie de aula de cinema sob múltiplas perspectivas de análise da linguagem, Um Filme de Cinema concilia a dimensão investigativa que Walter herdou de Vladimir com a dimensão analítica da experimentação plástica. Uma experimentação que vem de sua porção de artista plástico (fotógrafo), mas que filtra os traços residuais das Belas Artes em língua de cinema.

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