Livre e leve, filme de Hsu Chien arrasou em 2021

Livre e leve, filme de Hsu Chien arrasou em 2021

Rodrigo Fonseca

31 de dezembro de 2021 | 11h29

RODRIGO FONSECA
Convidado pela revista portuguesa “Metrópolis” para elencar os 10 Mais do cinema brasileiro em 2021, o P de Pop chegou à lista abaixo, considerando apenas longas-metragens lançados em circuito ou em streamings (ou TVs):
1) “Marighella”, de Wagner Moura
2) “Bob Cuspe – Nós Não Gostamos de Gente”, de César Cabral
3) “7 Prisioneiros”, de Alexandre Moratto
4) “Deserto Particular”, de Aly Muritiba
5) “O Animal Amarelo”, de Felipe Bragança + “VOLUNTÁRIO **1864”, de Sandra Kogut
6) “A Última Floresta”, de Luiz Bolognesi + “Veneza”, de Miguel Falabella
7) “Quem Vai Ficar Com Mário?”, de Hsu Chien
8) “Piedade”, de Claudio Assis
9) “Cabras da Peste”, de Vitor Brandt + “Intervenção”, de Caio Cobra
10) “Pixinguinha, Um Homem Carinhoso”, de Denise Saraceni

Avaliando essa lista, é fato que o título responsável pela maior aceleração no peito cinéfilo do país foi “Marighella”, e com razão. Vendeu 300 mil ingressos, num ano de magérrimas vacas para nossa produção local e ainda brilha em sua carreira no Globoplay. E houve o comovente “Deserto Particular”, que fez uma bonita campanha pelo Oscar. Mas há uma produção, hoje na grade da Amazon Prime, que amoleceu corações embrutecidos pela covid-19 e que merece, no apagar das luzes deste ano, um aplauso especial. Trata-se de “Quem Vai Ficar Com Mário?”, de Hsu Chien, uma produção que dialoga com o legado da comédia chanchadesca desafiando o que ela tem de mais sexista. É um filme popular de reinvenção.

Considerado um dos cinéfilos mais fominhas do Rio de Janeiro, famoso por ver quatro longas-metragens por dia, mesmo quando está ocupado em sets de filmagem, Hsu Chien Hsin, chinês nascido em Taiwan e radicado no Catete, foi assistente de direção de 78 filmes, além de ter trabalhado em séries, minisséries e comerciais. Egresso da UFF, ele estreou no mercado audiovisual no thriller “O Que É Isso, Companheiro?”, indicado ao Oscar em 1998, e não parou mais. Tem ainda uma trajetória como diretor assistente, trabalhando com mais espaço criativo, na luta para aportar seus conhecimentos sobre as engrenagens da dramaturgia ao trabalho de realizadores egressos de outras mídias, como fez com Miguel Falabella já citado (e belíssimo) “Veneza”. Mas desde 2013, quando lançou o curta-metragem “Pietro”, Hsu vem construindo (com sucesso) um trajeto muito particular como cineasta, que alcança agora o aplauso do público com a boa acolhida a “Quem Vai Ficar Com Mário?” na Amazon. É um ímã de risos. E ele ainda dirigiu três outros longas de 2020 para 2021: o esperadíssimo “Me Tira da Mira” (com Cleo, Fiuk e Fábio Jr.), previsto para fevereiro; “Desapega – O Filme”, com Gloria Pires e Maísa, previsto para junho; e “Saralialeia”, com Mônica Carvalho, Danielle Winits e Michele Muniz. É, portanto, um dínamo.
Existem, sim, imperfeições em “Quem Vai Ficar Com Mário?”, começando pela falta de mais acabamento no arranjo visual e na construção do roteiro. Mas há algo de arrebatador em sua estrutura celebrativa – e no domínio pleno de Hsu sobre as cartilhas do humor popularesco – que compensa qualquer fragilidade. E há uma direção de elenco delicada, que garante uma tridimensionalidade às personagens. Sua trama acompanha as confusões emocionais e comportamentais de Mário Brüderlich, dramaturgo e escritor encarnado por Daniel Rocha (o Popó do seriado “Irmãos Freitas”) com uma maturidade surpreendente. Egresso de um clã embebido no chimarrão do sexismo, em um canteiro do Rio Grande do Sul ainda atado a tradições machistas, Mário é homossexual e tem um relacionamento estável (e feliz) com o diretor teatral Fernando (Felipe Abib). Apesar dessa harmonia romântica, ele não é capaz de assumir para a família que é gay. Numa viagem para matar as saudades do berço, ele decide sair do armário. Mas, lá, tropeça num obstáculo que se mostra um quebra-molas em sua estrada de realização afetiva: seu irmão, Vicente (Rômulo Arantes Neto, numa sofisticada interpretação), assume-se antes dele, surpreendendo a todos.
Esse plot pode soar familiar pois já foi contado na dramédia italiana “O Primeiro que Disse” (“Mine vaganti”, 2010), levada pelo cineasta Ferzan Ozpetek à mostra Panorama da Berlinale. Mas uma negociação de direitos deu à produtora Virginia Limberger o direito de transpor essa trama pra cá, com brasilidade aos litros.

Letícia Lima e Daniel Rocha vivem o amor neste remake da dramédia italiana “O Primeiro que Disse” (“Mine vaganti”, 2010), levada pelo cineasta Ferzan Ozpetek à mostra Panorama da Berlinale

Nessa transposição, o diálogo de Hsu com o filme original da Itália produziu um tom singular de chanchada, fazendo da gargalhada uma arma para debelar a homofobia e celebrar formas de amar livres, que se manifestam quando Mário, obrigado a se manter na jaula do silêncio, é atropelado pela figura de Ana, papel dado à mais talentosa atriz de sua geração hoje no cinema: Letícia Lima. É uma das vívidas composições de personagem do nosso cinema nos últimos anos. Signo vivo de empoderamento, Ana dá tônus de combate a uma narrativa sobre escolhas, que se impõe como um espetáculo visual à força do dionisíaco uso de cores da fotógrafa Kika Cunha. O trabalho dela foi uma das surpresas boas deste ano no panteão da fotografia de cinema no país. Kika foge de qualquer convenção e cria uma identidade visual própria. E exuberante.
No roteiro, assinado por Stella Miranda, Luis Salém e Rafael Campos Rocha (sendo que o IMDB inclui Laura Malin), Ana vem oxigenar a cervejaria dos Brüderlich no momento em que Mário se vê forçado a chefiar os negócios de seu pai, papel dado ao ator Zé Victor Castiel, antes que seu cunhado brucutu (Marcos Breda, em hilária participação) assuma o timão dessa navilouca. Ela fala a língua do marketing e conhece na pele o açoite do desrespeito, ao qual reage já em sua cena de apresentação, quando rabisca um cartaz onde se lê “Lugar de mulher é na cozinha”. Seu grafite é “Lugar de mulher é onde ela quiser”. Ali já se percebe sua força e seu ímpeto em tirar o feminino, daquele ambiente, da inércia plena.
Letícia já brilhava no longa anterior de Hsu, “Ninguém Entra, Ninguém Sai” (2017), também sobre uma penca de gente engastalhada num ambiente de repressão. Vale especial destaque em “Quem Vai Ficar Com Mário?” a exuberante figura de Lana, performer trans vivida por Nany People com plumas, paetês, purpurina e dignidade.
Que filme saboroso!

p.s.: Feliz Ano Novo!

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