‘Listen’ as bossas do cinema português

‘Listen’ as bossas do cinema português

Rodrigo Fonseca

11 de junho de 2022 | 15h17

Rodrigo Fonseca
Em meio a sucessos internos (como os dramas biográficos ligados à música pop “Variações” e “Bem Bom”) e a troféus em festivais de prestígio (como o Leopardo de Ouro dado a “Vitalina Varela” em Locarno, em 2019), o cinema português vem oxigenando seu diálogo com plateias internas e externas por meio de narrativas que repensam suas feridas sociais, entre elas o êxodo em busca de novas perspectivas econômicas em instâncias de trabalho. Esse é tema do tocante “Listen”, longa-metragem que rendeu à diretora lisboeta Ana Rocha de Sousa 22 láureas internacionais desde sua passagem pelo Festival de Veneza de 2020, quando ganhou o Prêmio do Júri da seção Orizzonti e o troféu Luigi De Laurentiis (de melhor filme de estreia). É um dos títulos mais aclamados de Portugal no planisfério cinéfilo desde a última década. Sua imersão no universo de imigrantes lusitanos que tentam a sorte no Reino Unido – onde a cineasta de 43 anos fez parte de seus estudos de pós-graduação – rendeu analogias com a estética marxista de Ken Loach, o diretor de “Eu, Daniel Blake” (Palma de Ouro de 2016), considerado um dos pilares do audiovisual autoral britânico. Neste fim de semana, depois de cerca de um ano de meio depois de sua consagração na terra dos gôndolas, o longa estreia, enfim, no circuito exibidor da Inglaterra. “Eu levo essa comparação como um elogio, pelo enorme respeito que tenho por Loach. Mas penso que ele não iria se reconhecer no que eu faço, não apenas por não seguirmos os mesmos métodos, mas por haver, da minha parte, uma certa poesia visual na construção dos planos, distinta da dele, que pode ser atacada por buscar elaboração formal no retrato de pessoas que lutam para se defender das adversidades sociais”, disse Ana Rocha ao Estadão, via Zoom. “Eu tenho direito de contar aquilo que move, com uma estética que seja a mais genuína para mim. No caso, quero entender a situação de uma família de imigrantes em meio a um sistema que nem sempre é justo”.

Bela (vivida pela Anna Magnani lusa Lúcia Moniz) busca preservar a guarda de suas crianças em “Listen”, de Ana Rocha

Na trama de “Listen”, um casal português, Bela (Lúcia Moniz, de “Fátima”) e Jota (Ruben Garcia), tenta pagar as contas (altas) de uma vida em Londres, para onde foram atrás de mais e melhores oportunidades de emprego. Mas tudo dá errado para eles e seus três filhos, ameaçando uma intervenção judicial que os separe de seus rebentos amados. Brian Bovell brilha em cena como o assistente social que tenta tirar o trio de crianças de Bela e Jota, incomodado com a miséria que os cerca e com manchas rochas que surgem na pele de Lu (Maise Sly), a filha do meio, de 7 anos, que sofre com um problema auditivo e mais um probleminha físico a ser revelado adiante, como sendo uma surpresa que muda os rumos da trama. Na montagem de Tomás Baltazar, a diretora investiga o desespero de Bela diante da dissolução de seu núcleo familiar, retratado por uma sequíssima fotografia assinada por Hatti Beanland, de “Rush: No Limite da Emoção” (2013).
“Há vários casos, entre nós, de famílias com essa constituição: três filhos, pai e mãe. Mas eu quis que fosse uma família o mais neutro possível, afetada por questões financeiras, para poder discutir a questão da desintegração. Eu tento enxergar o equilíbrio em meio àquilo que perdemos”, disse Ana Rocha, que atuou na teledramaturgia lusa e em filmes como “Até Onde?” (2011), em paralelo à sua carreira como realizadora, iniciada em 2009 com o curta “Jantamos Cedo”.
Entre seus produtores está o cineasta Rodrigo Areias, de “Hálito Azul”, lançado em 2020 no Brasil. Um dos mais prolíficos diretores da Península Ibérica, com 150 filmes produzidos em cerca de 20 anos de carreira, Areias aposta em novas vozes autorais, como a de Ana Rocha, a partir dos instrumentos de fomento do cinema português. “Eu produzo pessoas, não filmes, numa lógica de amizade e parceria”, diz Areias.

p.s.: Tá rolando Tribeca e uma das principais apostas do festival nova-iorquino “Karaoke”, de Moshe Rosenthal. Uma comédia israelense sobre um casal de classe média suburbano sexagenário que reinventa sua vida ao se aproximarem de um vizinho que tem um karaokê e recebe amigos para cantar – e lavar roupa suja. Na seara documental do evento, um dos longas mais esperados é “Katrina Babies”, de Edward Buckles Jr. É um documentário sobre o impacto da tragédia natural que o Katrina deixou na vida de populações negras pobres dos EUA, na década passada, abordando sequelas sociais e econômicas agravadas no governo Trump.

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