Lírico e doído, ‘Bob Cuspe’ dá ao Festival de Annecy o melhor do Brasil

Lírico e doído, ‘Bob Cuspe’ dá ao Festival de Annecy o melhor do Brasil

Rodrigo Fonseca

18 de junho de 2021 | 17h48

Punk da periferia, Bob Cuspe é um Mad Max na cabeça de Angeli, nesta produção da Coala Filmes

Rodrigo Fonseca
Poucas vezes, na história recente do cinema brasileiro, considerando-se todas as suas bitolas, gêneros, formatos e campos, apareceu um filme com tanta ousadia dramatúrgica – e com um olhar tão poético para nossas fissuras políticas – quanto “Bob Cuspe – Nós Não Gostamos de Gente”, que hoje representa o Brasil no Festival de Annecy, o mais prestigiado do planeta no terreiro da animação. Realizado há 60 anos na França, o evento deste ano termina no sábado, com o anúncio de seus premiados, e com a percepção de ter visto o melhor do Brasil. Que o longa-metragem de Cesar Cabral é brilhante, não restam dúvidas: tecnicamente, no domínio do stop motion (uma estética na qual objetos são filmados quadro a quadro, dando ideia de movimento), a narrativa é de matar calibrados estúdios europeus, como a Aaardman, de inveja. E o modo como Milhem Cortaz parece rasgar as próprias veias ao dar as falas do punk da periferia, criado por Angeli, faz ferver a essência crítica da nossa carpintaria de roteiro, numa atuação de voz de arrancar lágrimas. Mas o “melhor de nós”, a que o P de POP se refere, no início desta resenha, refere-se a um outro aspecto. Refere-se ao poder autorregenerativo da alma de nosso povo em fazer como diz o samba: “levanta, sacode a poeira e dá volta por cima”. Mesclado documentário e fabulação, com uma faísca de sinestesia antes só testada pelo curta glauberiano “Jorjamado no Cinema” (1977), o primeiro exercício de Cabral (realizador do premiado “Tempestade”) faz, em sua porção menos compromissada com o real, uma mistura de referências pop. Parece um cruzamento de “Mad Max” com “Repo Man” e com “Mais Estranho Que a Ficção”. De um lado, um lado .doc talking head, temos o próprio Angeli, caracterizado em forma de boneco, falando de processos: de criar, de viver, de se reinventar, de usar óculos escuros e de tornar isso tudo uma coisa só. Do outro, num registro de distopia, vemos o que se passa na cabeça dele, quando ele parece querer se livrar de crias do passado, transformando num deserto árido o que era uma São Paulo quadrinizada – e universalíssima. Ao confessar não ter problemas em matar personagens, uns minutos antes de afirmar não ter problema em jogar coisas fora, o artista gráfico por trás de tiras de quadrinhos que amadureceram o humor nas Américas instiga no espectador (indiretamente) a sensação de que o desapego dele pode ser um sintoma do modo como a gente vem lidando com as falências morais de nosso próprio país. Depois de tantas viradas bruscas (e conservadoras) no script de nossa vivência, incluindo aí o trauma de um Impeachment, a gente parece não mais sentir dor quando muita coisa bonita que nos dava alento vai se sucateando. O que era dor deu lugar a uma perplexidade em escala nacional – menos nas milícias. Talvez por isso, a presença de um depoimento da cartunista Laerte, que avalia esse desapegar de Angeli como um sinal de maturidade, complexifique juízos rápidos que um filme tão catártico pode gerar. E isso acontece pelo fato de uma estrutura de narrar tão metalinguística se colocar em dúvida e se problematizar todo o tempo, num gesto corajoso de seu diretor. A dúvida maior se expressa na voz os Irmãos Kowalski (saída do gogó de Paulo Miklos), ao perguntar (o tempo todo) se o tal Bob Cuspe é o escolhido… ou seja, um herói. No enredo, a missão desse Sid Vicous de pele verde é ir atrás de seu criador e tirar a limpo mágoas e dívidas de um passado quadrinístico de sucesso, quando o quadrinista decidiu eliminá-lo. Cuspe, na feroz interpretação de Cortaz, parece um Toshiro Mifune de corte moicano. É um Yojimbo das HQs, perdido em sua solidão, curtindo a fossa de sua privada, sem saliva pra cuspir. Mas quando mutantes em forma de Elton John vão até ele, devorando quem mais esteja no caminho, a espada há muito dormente na bainha sai, sedenta de revanche. Não se trata de irreverência perdida. Não é um filme que pareça querer chorar pitangas pelo fim dos sentimentos que alimentaram o punk rock aqui praticado. Não há melancolia pelo que (se) foi. Há resistência. Há marcha. Há uma espécie de “filme-panelaço”, de uma potência plástica devastadora em sua direção de arte, em sua trilha sonora, nas reflexões de um ás do desenho e no falar tonitruante de Cortaz.

Angeli fala de si na porção documental deste “filme-panelaço” que concorre a prêmios no maior festival de animação do mundo, consagrando o diretor Cesar Cabral

Tem outro belíssimo longa animado nacional na Contrechamp de Annecy: “Meu Tio José”, de Ducca Rios. Wagner Moura, baiano que passou parte dos anos de formação em Rodelas, teve sua voz ecoando pelas telas do Festival de Annecy, ao encarnar o personagem título. O filme foi animado em Salvador a partir da história real (de desfecho trágico) de José Sebastião de Moura, membro do grupo de esquerda “Dissidência da Guanabara” e que participou do sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, em 1969.

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