Lira do Real: Recine em ação

Lira do Real: Recine em ação

Rodrigo Fonseca

25 de agosto de 2020 | 13h52

Susanna Lira é homenageada pelo Festival Internacional de Cinema de Arquivo

Tem mais dois dias de Recine – Festival Internacional de Cinema de Arquivo pela frente, com espaço nobre para a mais prolífica documentarista carioca da atualidade: Susanna Lira. Nesta terça, às 16h, rola “Damas do Samba” (2013), e, na quarta, às 16h, vem “Câmera Close” (2005), ambos dirigidos por ela. Debruçada sobre o roteiro de um longa de ficção sobre a ex-primeira-dama Maria Thereza Goulart, Susanna é, hoje, uma usina viva de produção no Brasil, sobretudo na seara documental. Laureada com o troféu Redentor de Melhor Direção do Festival do Rio 2018 por “Torre das Donzelas”, uma obra-prima do memorialismo, Susanna virou um sinônimo raro de “quantidade = qualidade” nas telas do Brasil. A prolífica produção de longas e séries da diretora de “Mussum: Um Filme do Cacildis” (2018) trilha uma progressão crescente e surpreendente de excelência. Nesta entrevista, ela fala de sua estética. “Cada vez mais, o documentário se torna essencial para que a gente possa mergulhar e tentar traduzir o que a realidade nos traz, para deixar isso para a posterioridade”, diz a diretora, que conversa com o P de Pop sobre seus dispositivos.

Que descobertas o “Torre das Donzelas”, seu longa mais festejado, trouxe pra você acerca da condição feminina na política brasileira?
Susanna Lira:
Fazer esse filme foi muito importante no sentido de que eu acompanhei uma transição. Eu estava no meio de uma volta a um esquema conservador, que era relatado no filme como um terror. Elas relatavam o passado de uma forma que você achava que nunca mais iria voltar. O meu grande aprendizado nesse filme foi saber que a liberdade e a democracia são coisas pelas quais a gente vai lutar por toda a nossa existência. Acho que todas as gerações vão ser desafiadas a lutar por sua própria liberdade. Existe sempre um sistema que controla o mundo e vai querer tirar isso da gente. O meu grande aprendizado é que vou continuar lutando. Nós mulheres, cada vez mais. Quando se pergunta da condição feminina, a gente gravou o filme em pleno pré-impeachment da Dilma. Mostrava todos os horrores que ela viveu, para além das questões políticas, das questões relacionadas a ela ser uma mulher. Isso na nossa política é cada vez mais acentuado. Hoje, a gente encontra um discurso naturalizado dessa misoginia. A gente precisa ocupar lugares, mas do modo feminino e me incomoda muito quando as mulheres querem ocupar esses espaços de poder e elas reproduzem os modelos masculinos. No meu trabalho como diretora, tento não reproduzir um lugar de poder em relação ao outro.

Cenas de “Torre das Donzelas”

Como é o seu procedimento padrão de abordagem de um entrevistado no cinema?
Susanna Lira:
Isso varia. A maneira como abordo a família do Mussum ou o viúvo da Clara Nunes é diferente de como abordo o Casagrande, que é um personagem vivo e é um dos meus projetos futuros. Sempre tenho um interesse muito genuíno nessas pessoas. Quando eu passo nessa abordagem o quanto sou interessada na história, acredito que isso ajuda muito a seguir podendo construir aquele projeto com a família, aquele entrevistado ou aquela pessoa, como foi no caso do “Torre das Donzelas”. Foram três anos de relacionamento até chegarmos naquele nível de confiança que aquelas mulheres me deram ali.

Como funciona a arte de fazer falar nos seus filmes?
Susanna Lira:
Acho que depende muito do tema e do que vai ser desse filme. É sempre uma abordagem sincera de verdade. Não faço nenhum filme de pessoas pelas quais não me interesso de fato, que admiro ou que eu queria ser amigo e conversar, saber mais. Todos os meus filmes, desde o primeiro, sobre o Zé Bonitinho, eu tinha muito interesse naquela figura que se achava bonito e seduzia as mulheres mesmo assim. Esse tipo me interessa muito, essas pessoas meio fora da curva. Do ponto de vista biográfico, só documento quem admiro muito. É muito difícil me confrontar dentro do próprio filme, porque seria impossível fazer um documentário sobre alguém que não acredito. São muitos anos de relacionamento e depois muito tempo em ilha de edição, então quero poder desfrutar disso. A abordagem depende muito, mas é sempre honesta. Eu preciso estar sinceramente interessada naquela pessoa e naquela história.

Quais são seus atuais projetos a caminho das telas?
Susanna Lira:
Nessa quarentena, eu tenho trabalhado bastante. Tive que parar um filme no meio, o “Mãe de Todas as Lutas”, um filme sobre lutas de terras. Estou retomando agora. Consegui finalizar um documentário chamado “Prazer em Conhecer”, sobre sexualidade LGBTQ+ e sobre os tratamentos de prevenção ao HIV e a Aids. É um revisitar um pouco a história de um filme anterior meu, o “Positivas”, mas dessa vez com homens gays. Será lançado no segundo semestre. Estou trabalhando na pré e uma pesquisa do filme sobre a Fernanda Young. Para mim, é super importante poder estar trabalhando nisso. Estou trabalhando no roteiro do argumento do filme “Vestido de Silêncio”, uma ficção que também vou dirigir e é sobre a Maria Thereza Goulart. É uma história sobre o exílio deles, do Jango e da Maria Thereza. Acho que as pessoas vão se surpreender muito. A Maria Thereza Goulart é considerada uma das primeiras-damas mais bonitas do mundo. Vão ver no filme algo que estamos trazendo para um momento agora, de rever o papel da mulher nesses bastidores políticos. Tendo trabalhando das 7 da manhã às 10 da noite. Mas feliz da vida porque, apesar de tudo, estamos falando sobre assuntos que queremos falar. Quero continuar inspirando as pessoas a ter um mundo um pouco mais interessante.

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