Lino Meireles desponta no cangaço de Cannes

Lino Meireles desponta no cangaço de Cannes

Rodrigo Fonseca

18 de maio de 2022 | 22h01

Lino Meireles com Paloma Rocha em Cannes, na sessão de “Deus e o Diabo Na Terra do Sol”

Rodrigo Fonseca
Lotada de curadores de diferentes países, de críticos, de estudantes e de futuros realizadores, a sessão da cópia restaurada em 4K de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) no 75º Festival de Cannes, na quarta-feira, fortaleceu, aos olhos do planisfério cinéfilo, a luta brasileira contra o gradual desmanche de nossos aparelhos culturais. Vitaminou também a peleja de dois artesões da memória. De um lado está Paloma Rocha. Produtora e diretora, ela é filha de Glauber Rocha (1939-1981), cineasta por trás desse nordersten que representou nosso país na Croisette, em 2022. Graças a ela, o trabalho de Glauber e o legado memorialista de sua avó, Dona Lúcia Rocha (morta em 2014, aos 94 anos), permanecem resguardados. Do outro lado, está o parceiro dela nesse restauro, o diretor e produtor Lino Meireles. Antes da sessão na Croisette, o Estadão ouviu Paloma: “Eu acho que o meu trabalho é sempre manter a atualidade que a própria obra do Glauber tem”. É hora de o P de Pop dar voz a Lino. Em 2020, ele despontou com o delicado documentário “Candango: Memórias do Festival” e segue na inquietude criativa, surpreendendo o cinema com sua vontade de potência e seu apuro técnico.

Responsável pela produção do restauro do nordestern de Glauber, o diretor fez um .doc aclamado sobre o Festival de Brasília

Foi arrebatadora a projeção de “Deus e o Diabo…” em Cannes. De que maneira o processo de restauro foi idealizado e estruturado? Como foi a troca com Paloma Rocha no processo?
Lino Meireles:
Conheci a Paloma enquanto fazia meu filme sobre o Festival de Brasília. Por sorte, ela também mora na cidade. Quando eu quis trabalhar com restauração, meu primeiro pensamento foi no cinema de Glauber, o cineasta mais importante do Brasil. Só que em seus filmes jamais lançados em DVD, como “Claro”, “Câncer” ou “Cabeças Cortadas”. Em nossa primeira reunião, ela já falou que queria restaurar “Deus e o Diabo na Terra do Sol” em 4K. Eu não tinha imaginado que teria essa oportunidade pois o filme havia sido lançado e comercializado. Falei que ela estava brincando com meu coração. Fechamos a parceria, com ela na direção, escolhendo e organizando a equipe. Afinal, ela trabalha com restauração há mais de 20 anos. Eu fiquei com a produção.
Você mencionou, no palco do Palais des Festivals, ter visto Deus e o Diabo há 20 anos, numa exibição que mudou sua percepção. O que a estética glauberiana trouxe e te traz de farol pra sua geração?
Lino Meireles:
O filme mudou meu pensamento. Mas eu não tinha muita ideia das propostas do Cinema Novo, então, não foi a estética do filme que me marcou. Foi sua temática… foram seus personagens, o roteiro, o desfecho… Muito se escreveu, há longo dos anos, sobre a estética do filme, mas pouco sobre sua temática. Espero publicar um artigo sobre isso. É um filme contra a devoção completa a figuras políticas e lideranças. Manuel se joga aos pés de um beato e de um cangaceiro. E se arrebenta por causa disso. Termina o filme correndo sozinho. A entrega ao messianismo é um desastre. Devemos trabalhar a confiança em nós mesmos.

“Mais fortes são os poderes do povo” é uma das falas icônicas do longa de 1964

Depois de seu filme sobre Brasília, o que você espera investigar em sua estrada como realizador?
Lino Meireles:
Termino este ano uma série de trabalhos hagiográficos. Produzi, escrevi e dirigi um documentário sobre o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro; restauramos essa obra de Glauber Rocha; coproduzi, com a diretora Ana Maria Magalhães o único documentário existente sobre Leila Diniz, “Já Que Ninguém me Tira pra Dançar”; e fiz a digitalização de “Fuga Sem Destino”, último filme realizado por um mito do cinema brasiliense, Afonso Brazza, nosso bombeiro-cineasta. Agora vou direcionar meus esforços a roteiros de ficção.

p.s.: Na noite em que cindiu sua plateia, em sua competição oficial pela Palma de Ouro, com a jornada metafísica ítalo-belga “Le Otto Montagne”, de Charlotte Vandermeersch e Felix van Groeningen, Cannes viu um filme português rachar sensos, na latitude da Semana da Crítica: “Alma Viva”, de Cristèle Alves Meira. É uma espécie de filme de fantasma, num flerte com o sobrenatural (ou com a corrente chamada Extraordinário) na qual uma menina vira uma antena para sintonizar fenômenos do Além… ou do vazio.

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