‘Língua Brasileira’, o ‘Idade da Terra’ de F. Hirsch

‘Língua Brasileira’, o ‘Idade da Terra’ de F. Hirsch

Rodrigo Fonseca

07 de janeiro de 2022 | 16h02

Trupe dos Ultralíricos numa teia de poemas que investigam a gênese do Brasil

RODRIGO FONSECA
Irrigado por afluentes silábicos de um rio tropicalista chamado Tom Zé, o ritual “Língua Brasileira”, misto de declamação, encarnação, exorcismo e teatro, em cartaz até de 20 fevereiro no Sesc Consolação, dispensa qualquer menção explícita ao realizador de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) para se firmar como uma expressão glauberiana. Talvez a gênese baiana, dada pela conexão com as músicas do Shostakovich de Irará, seja um degrau de conexão a mais. O ponto é: tem tudo de Glauber ali. Tem o entendimento da formação do Brasil como um épico, entre John Ford e Eisenstein. Tem a celebração do multiplicismo simbólico das raças. Tem a centelha do distanciamento brechtiano disfarçado em alegorias contagiantes. Tem o deslocamento de símbolos, como a coroação de Paulo Autran em “Terra em Transe” (1967). Tem a certeza de que Deus perdoa, mas a História, não. Ou seja, todos os elementos do cogito nada cartesiano de Glauber Rocha (1939-1981) estão (oni)presentes no espetáculo mais recente de Carlos Felipe Lopes Werneck Hirsch. Já havia uma marca glauberiana nele em “A Tragédia Latino-Americana” (2016). Para GR, o cineasta que mais alargou as feridas narcísicas de nosso povo, aos olhos do mundo, era necessário pensar este país como parte de um bloco indissociável, uma Pangeia, como nos primórdios da criação, onde os mitos de cada unidade comungavam de um mesmo chão, usando a Amazônia de pulmão. Era o que Hirsch tentou expressar nessa peça anterior, ao cerzir expressões literárias do continente de colonização ibéricas, fossem as de histórico de opressão espanhol, fossem as achatadas pela exploração lusa. Aquele gesto, no que parecia um “Cabeças Cortadas” nos palcos (referência a um dos melhores, porém menos conhecidos Glaubers), foi o vetor de empuxo para o que se vê agora, movido pelo arco voltaico tomzéico. É o Glauber de “A Idade da Terra” (1980), filme em que o realizador baiano fabulou mais, carnavalizou(-se) mais, atomizou mais, fragmentando o entendimento do que seria “a” identidade do país em muitos núcleos, cada um com seu Cristo. Era Antonio Pitanga, era Tarcísio Meira (1935-2021), era Jece Valadão (1930-2006). E, entre eles, era (uma vez…) a História, espalhada como confete, pedacinho colorido de saudade de um Brasil que não cabia mais em si, pelo horror da ditadura e pela imposição colonialista dos EUA. É essa mesma dinâmica de fragmento, de Rocha, que Hirsch tira de Tom Zé.

Hirsch e Tom Zé

Se “Deus e o Diabo…” imortalizou-se em nossas retinas pelo salto do Corisco Othon Bastos, o trabalho de Hirsch com o coletivo Ultralíricos – em seus trechos em tupi, em latim e em funk melody – cristaliza-se em nós também por um (sério) brincar. No caso, é uma brincadeira de soletrar sílabas, num jogral entre Amanda Lyra e um reator nuclear (de atuar bem) chamado Danilo Grangheia – com uma pontual adesão da plateia. Brinca-se de La, Le, Li, Lo, Lu… Va, Ve, Vi, Vo, Vu… Pla, Plé, Pli, Pló, Plu… e por aí vai, numa progressão aritmética de vogais e consoantes que leva ao riso. No início de tudo, exortações indígenas resvalam no verso “o piche no muro nu”, capaz de transpirar toda a lírica aliterada de Tom Zé. A dado momento, Paschoal da Conceição regurgita com elegância um poema e toda a trupe – formada por ele Amanda; Grangheia; uma Laís Lacôrte que inunda a cena com invenções gestuais; uma dionisíaca Georgette Fadel e Rodrigo Bolzan, em luminosas investigações de suas múltiplas potências – se reúne para excursionar pela “PanAmérica”, de José Agrippino de Paula (1937-2007). Da mesma forma como se dava nas divagações literárias de Glauber por Euclides da Cunha (1866-1909) e Mário Faustino (1930-1962), a dramaturgia de Hirsch, feita sob a consultoria de Caetano Galindo, é fluida, obedecendo a um roteiro de poemas, cartas e jograis que investigam o papel da língua para a gênese ou para o sepultamento de uma civilização. O segundo caso se refere à destruição das expressões dos povos originários e à obliteração do falar das populações negras trazidas pra cá pelo crime da escravidão. O primeiro caso fala da invenção, dádiva da música e de outras artes, como o cinema de Glauber, às quais Hirsch se reporta na dimensão de autor. Seu RG autoral está na investigação das doenças que nos funda.
Múltiplas peças, a partir de “Baal Babilônia” (1993), fizeram de Hirsch um dos mais necessários encenadores do teatro brasileiro. Filmes, ele dirigiu um em parceria com a colega cenógrafa Daniela Thomas – o rizomático “Insolação”, de 2009 – e o belíssimo “Severina” (2017). Mas há um espetáculo dele que dialoga de maneira mais direta com “Língua Brasileira”: a montagem de “Temporada de gripe”, de 2003. Nela, a partir de um texto de Will Eno, temos um ambiente hospitalar, num futuro sem emoções, onde um homem sem nome é internado com uma estranha doença: a paixão. Há um sintoma temático – e autoral – similar ao dessa peça no espetáculo com que ele incendeia o Sesc Consolação. A paixão também adoece os entes narrativos e quase personagem dessa antologia de estados das línguas humanas. Uma paixão por aquilo que existe de oculto numa palavra. Uma paixão pela quietude que precede o esporro de um “já”, “jé”, “ji”, “jó”, “ju” no falar espoleta de Amanda Lyra, senhora de todas as sombras da iluminação de Sarah Salgado e Igor Sane. Uma paixão pelo dinosíaco que Georgette Fadel nos dá ao abrir a Caixa de Pandora por trás da diabólica condição de palavras considerada bárbaras, não catequizadas. O que Hirsch, seus Ultralíricos e Tom Zé fazem é uma Sapucaí do verbo. A serpentina está na semiótica de langue e parole de cada signo. O “Dez… Nota dez” dessa Acadêmicos do Vernáculo vem do silêncio que esculpe a cinzel o teor de vida em cada palavra. É uma autopsia em corpo vivo de nossa nação. É uma proposição de algo novo, que depende de se olhar pra trás. Um banho de descarrego. Um encenador-autor em seu apogeu.

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