Lindo, Delroy, Lindo: ‘Da 5 Blood’ pro Oscar

Lindo, Delroy, Lindo: ‘Da 5 Blood’ pro Oscar

Rodrigo Fonseca

13 de junho de 2020 | 12h34

Rodrigo Fonseca
Em poucas horas no ar, no grande N, “Destacamento Blood” (“Da 5 Blood”), o novo e doído filme de Shelton Jackson Spike Lee – exuberante em sua montagem – gerou um coro entre os netflixófilos e cinéfilos em geral: Oscar para Delroy George Lindo. Que interpretação magistral a do ator inglês de 67 anos, mais lembrado como coadjuvante do que como protagonista. Ele dá vida ao mais irascível integrante de um pelotão de quatro ex-combatentes do Vietnã – todos negros – que regressam a Saigon em busca de uma fortuna em ouro que enterraram na selva. A desculpa deles é resgatar a ossada de um quinto integrante do dito 5 Blood (o nome desse pelotão), Stromin’ Norman, vivido por Chadwick Boseman, o Pantera Negra. No grupo, estão Otis (Clarke Peters), Eddie (Norm Lewis), Melvin (Isiah Whitlock Jr.) e o furioso Paul, papel de Delroy, aqui dublado por Márcio Simões. De cara, ele é apresentado como o “chave de cadeia” do quarteto, eleitor de Trump, avesso à entrada de mexicanos nos EUA. Seu filho, o professor David (o ótimo Jonathan Majors), é encarado por ele como um fardo, quando o rapaz vai às florestas vietnamitas para ajudar o pai. Mas, aos poucos, delírios religiosos, fantasmas do passado e quilos de ódio (produzido pela exclusão) vão transformando o já intolerante Paul numa máquina de brutalidade, alheio ao afeto de seus irmãos de armas. Paul não é visto pelas lentes “denuncistas” de Spike como um vilão: ele é, sim, um Ahab, à caça de um cachalote chamado inclusão. A busca por barras de ouro pode devolver a ele uma respeitabilidade que o racismo amputou. E essa febre de cobiça é traduzida por Delroy numa atuação suarenta, de gritos e de ironia, que quebra a quarta parede em pelo menos dois sublimes momentos. Há, na obra de Spike, o interesse (autoral) em “retomar parceiros”, em escalar Angela Bassett, Wesley Snipes, Samuel L. Jackson e outras estrelas que ajudaram o cineasta ao longo de sua andança pelas telas. Agora é hora de Delroy, com que ele fez joias como “Malcolm X” (1992), Crooklyn – Uma Família de Pernas Pro Ar” (1994) e “Clockers – Irmãos de Sangue” (1995). Lindo é o seu desempenho agora, com todos os trocadilhos merecidos. E que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas reconheça isso.

Era grande a espera por “Da 5 Blood” e é forte (e apaixonada) a recepção à sua chegada ao streaming. Há cerca de um mês Thierry Frémaux, o diretor artístico de Cannes, falou do filme numa entrevista à revista “Screen Daily” (pra ler, vai no https://www.screendaily.com/interviews/thierry-fremaux-talks-cannes-2020-official-selection-plans-exclusive/5149699.article), comentado sobre os planos do festival e prometendo anunciar uma seleção competitiva até junho, tendo apalavrado com Spike Lee os planos de fazer dele o presidente do júri em 2021. Ele presidiria a competição deste ano, quando a maratona cinéfila da Côte d’Azur havia marcado suas projeções para começarem no dia 12 de maio. No papo com a “SD”, Frémaux crava: “Spike Lee nos disse que será fiel a nós, aconteça o que acontecer. Espero que sejamos capazes de fazer isso acontecer no próximo ano. Trocamos muitas mensagens. Ele simboliza uma cidade, Nova Iorque, que foi particularmente atingida pela epidemia. A curta-metragem que ele acabou de fazer, capturando a cidade sob bloqueio, com Sinatra cantando ‘New York, New York’, é extremamente comovente. Mas seu compromisso não o impede de ser bem-humorado em suas mensagens, que ele sempre termina com ‘Vive la France!’ e com muitas pequenas bandeiras azuis, brancas e vermelhas. E para contar tudo, ele nos mostrou um belo filme que ele fez com a Netflix, chamado ‘Da 5 Bloods’, que seria exibido em sessão ‘hors-concours’ marcando a volta da Netflix ao evento”.
Frémaux se refere ali a “Destacamento Blood”, que tem ainda Mélanie Thierry, Paul Walter Hauser e um inspirado Jean Reno no elenco. Spike lançou ainda um curta-metragem comovente, chamado “New York New York”, e em balado pela voz de Frank Sinatra, em apoio às vítimas da Covid-19. Ele ainda relançou na web seu comercial da Nike com Little Richards em respeito à morte do cantor. Em meio ao desenho de uma releitura hip hop de “Romeu e Julieta”, chamado “Prince of Cats” e já em idealização, Shelton Jackson Lee (o nome verdadeiro do cineasta, hoje com 63 anos) reafirmou sua parceria com Cannes, num momento em que o movimentos de inclusão racial mais avançam na luta contra o preconceito. O convite para que ele presidisse o festival chegou quase um ano depois de sua vitória no Oscar. Lee foi laureado com a estatueta de melhor roteiro adaptado por “BlacKkKlansman: Infiltrado na Klan”, filme que deu a ele também o Grande Prêmio do Júri na Croisette, em 2018. Foram vitórias que, somadas a uma bilheteria pantagruélica (custou US$ 15 milhões e faturou US$ 93 milhões), deram à sua carreira uma dose extra de produtividade. Sem contar a versão personalíssima dos Amantes de Verona, em que milita agora, ele prepara o .doc “American Utopia”, com David Byrne, que é esperado para as mostras de Veneza e Toronto. E, nessa expectativa, ele amadurece, como contador de histórias e como um porta-voz das desigualdades de cor nos EUA. Nenhum outro cineasta na História, nas últimas quatro décadas, conseguiu mobilizar tanto a opinião pública acerca da condição das populações negras, em relação às mazelas sociais e à violência estatal, quanto ele, realizador que fez de “Faça a Coisa Certa” (1989) uma bandeira contra a intolerância. E, a partir desse filme seminal para a definição estética dos rumos que o cinema tomaria de 1990 em diante, um exército de longas com características visuais muito particulares marchou nas telas, guiados pela busca estética, etnográfica e ética de Lee levando a marca de um nova narrativa politizada e humanizada mundo afora, incluindo aí “Quanto Mais Melhor” (1990), “A Febre da Selva” (1991) e “Malcolm X” (1992).

Delroy Lindo em “Crooklyn”

p.s.: Um novo título da Sergio Bonelli Editore, “Brad Barron” anda pelas gibiterias brasileiras, abordando as aventuras de um biólogo às voltas com uma invasão alienígena. Há ainda um outro herói das HQs italianas, best-seller na Europa, a caminho das bancas do Brasil: o agente Nathan Never. Especialista em estratégias de defesa, ela subverte parâmetros morais do vigilantes habituais dos quadrinhos em prol não apenas dos contratos comerciais de segurança a preço fixo que assina, mas também de seu senso de justiça particular. Até o fim do semestre, a Editora Graphite publicará o vigilante futurista da Bonelli seguindo a numeração da Itália desde o primeiro número, em formato 17X23cm, com 336 páginas em seu preto e branco estilizado e irrigado de chiaroscuros (com 24 páginas extras em cores). Este primeiro volume (que está sendo viabilizado via financiamento coletivo pelo site catarse.me/nn1) garante ao leitor brasileiro as três primeiras edições originais de Never, confeccionadas em Milão.

p.s.2: Vencedor do prêmio de melhor roteiro no Festival de Berlim de 2016, “Estados Unidos Pelo Amor” (“United States of Love”), de Tomasz Wasilewski, acaba de integrar a grade de joias do Globoplay. O filme monta um painel da vida de diferentes mulheres na Polônia de 1990, em meio a uma abertura política.

p.s.3: Às 19h deste sábado, a Associação de Produtores de Teatro do Rio de Janeiro promove uma live, via Instagram e Facebook (@APTROficial), reunindo Nany People, Rodrigo França, Marcelo Serrado e Eriberto Leão, para falar de arte e resistência. Desde que a pandemia começou, a APTR vem fazendo uma seleta de papos, a fim de reunir doações para os operários das artes cências, que vai muito além de um gesto de solidariedade – embora esta seja fundamental. O que vemos é uma reflexão riquíssima sobre arte dramática, conduzida pelo produtor Eduardo Barata não como entrevista ou como encontro entre amigos, mas sim como uma ágora de múltiplos saberes da cena. Barata se revela um VJ de mão cheia (ou liVJ), com bom humor, conhecimento enciclopédico, generosidade e um sorriso que faz a gente acreditar na máxima de que “a arte existe porque a vida não basta”. É um achado o trabalho dele, numa arqueologia da encenação e na busca por um novo formato de narrar, que passa pela jira e pelo depoimento. Coisa linda de ver e viver.

p.s.4: Tem filme francês pop na Globo esta madrugada, às 3h, no “Corujão”, pilotado pela atriz Reem Kherici: “Paris a Qualquer Preço”. Em seu longa de estreia como cineasta, lançado em 2013, com o título original de “Paris à Tout Prix”, ela vive Maya, uma mulher empoderada, mas cheia de arrogância que se vê forçada a regressar a seu Marrocos de berço, e deixar a França, por ditames legais. Nessa deportação anunciada, Maya estuda mudar seu temperamento e abrandar sua fúria.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: