Limonada romena abre o paladar de invenção de Berlim

Limonada romena abre o paladar de invenção de Berlim

Rodrigo Fonseca

19 de fevereiro de 2018 | 21h28

“Lemonade”, de Ioana Uricaru: surpresa romena na mostra Panorama de Berlim, antenado com o pleito feminista

Rodrigo Fonseca
Só a Romênia mesmo para desviar o foco das atenções da Berlinale das virtudes estéticas de José Padilha, que tomou o evento pra si, nesta segunda, com o racha de opiniões em torno de seu 7 Dias em Entebbe. É, disparadamente o trabalho mais reflexivo (e maduro) do cineasta no quesito dramaturgia e direção de atores. Como esta recriação para um sequestro de um avião Air France num voo Tel Aviv-Paris, em 1976, entrou aqui fora de concurso, uma iguaria vinda das Oropa, incluída no menu da mostra paralela Panorama, atraiu todos os holofotes para si ao traduzir de maneira inteligente o pleito denuncista acerca da violência contra a mulher: Lemonade, de Iona Uricaru. A moça é estreante em longas-metragens, mas é coalhada de curtas em seu currículo, o que justifica a precisão com que conduz o périplo em solo americano de uma enfermeira estrangeira, mãe de um guri de uns 10 anos, que sonha conseguir um Greencard. Na jornada dela, o que não faltam são abusadores, começando por um funcionário da Imigração dos EUA que não consegue manter o pênis sossegado dentro da calça e um marido frustrado. A protagonista, Malina Manovici, alcança a dose certa de retidão e fragilidade no papel de uma romena fora de sua terra, brigando pelo direito de criar seu rebento com dignidade, alheia ao abuso de machos.  

 

Há uma genealogia à qual Lemonade pertence. Ela se refere a esta noção de Primavera Romena, iniciada há 13 anos quando A Morte do Senhor Lazarescu (2005), de Cristi Puiu, lançou uma nova modalidade de realismo social, típica da Romênia, na qual investigações quase sempre irônicas (muitas delas de ritmo tenso) sobre falências institucionais. O procedimento básico da Primavera supõe usar uma estética desdramatizada (poucas ações), em locações reais, filmadas com um olhar próximo do documentário, onde as tramas são sempre mote para que se aborde a decadência politica (e moral) daquela nação a partir dos escombros sociais deixados como herança pelo Comunismo. E isso sempre é arejado por um humor dos mais ácidos. Desse projeto estético nasceram filmes cultuados como 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, ganhador da Palma de Ouro em 2007, sob a direção do já citado Mungiu; California Dreamin’, de Cristian Nemescu; e O Tesouro (2015), de Corneliu Porumboiu, e Sieranevada, do já citado Puiu. O filmaço de Ioana é mais um (grande) exemplar desse cinema que exuma cicatrizes nacionais para ficar para a posteridade no planisfério da imagem. Tem mais coisa boa desse povo aqui na Berlinale este ano: o .doc Infinite Football, de Poumboiu, incluído na seção Fórum, e a ficção Touch Me Not, de Adina Pintilie, que briga pelo Urso de Ouro.

 

De todos os filmes das mostras periféricas à briga pelo Urso de Ouro exibidos em Berlim até agora, nenhum tem um boca a boca mais apaixonado do que o documentário brasileiro Bixa Travesti, de Claudia Priscilla e Kiko Goifman. Espécie de Purple Rain queer, o filme conquistou a capital alemã com as performances da cantora trans Linn da Quebrada. Tinta Bruta, ficção gaúcha, também anda muito elogiada. Mas entre os títulos ficcionais da Panorama deste ano, o mais elogiado é Profile, de Timur Bekmanbetov, sobre uma jornalista que cria um perfil falso nas redes sociais para investigar jihadistas.

A Berlinale termina neste sábado, com a entrega do Urso de Ouro, e demais prêmios. Hoje, pintou na área um filme de horror ligado a um massacre real na Noruega, U-July 22, de Erik Poppe, que pode papar altas láureas por seu virtuosismo.

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