‘Liga da Justiça’ é um dos melhores filmes de 2017

‘Liga da Justiça’ é um dos melhores filmes de 2017

Rodrigo Fonseca

17 de novembro de 2017 | 09h50

Rodrigo Fonseca
Futuras genealogias morais do cinema em 2017 hão de apontar – a julgar a tudo o que foi lançado de janeiro para cá – a seguinte lista de filmes essenciais:

Dunkirk
Silêncio
Liga da Justiça
No Intenso Agora
La La Land
+ Blade Runner 2049
Joaquim + A Criada
Call Me By Your Name (se este ñ estrear… vamos de Invasão Zumbi)
Guardiões da Galaxia – Vol. 2 + It, a Coisa
O Outro Lado da Esperança
O Apartamento

E tem ainda… Logan, Moonlight, Guerra do Paraguay e A Tartaruga Vermelha, que correm por fora.

E o pior momento audiovisual: A Praça é Nos… digo… Thor Ragnarok.

O que torna a Liga da Justiça tão bom? Bom…

Nesta era fantasiada de pop em que as HQs se tornaram o combustível da indústria audiovisual do entretenimento, ofertando à dramaturgia um formato inusitado e renovador (o de saga), o febril Liga da Justiça é um balão de oxigênio para a fantasia, que põe em xeque o desamparo moral, o emasculamento, as desavenças de pontos de vista e o culto ao ódio. É uma aventura perfumada a adrenalina, de tônus bem-humorado, mas aberta a debates éticos, cujo intuito é celebrar a comunhão como alternativa à submissão e à derrota. Zack Snyder (apoiado de forma não creditada por Joss Whedon) equilibra riso, ação, reflexão, mitologia e o timbre sombrio (mais adulto) típico da tradição DC Comics nas telas. Entre a alegoria política e o fliperama, numa narrativa adulta sombria, sem medo de sangue, o longa-metragem faz jus à confiança que os estúdios Warner depositaram sobre os ombros de Ben Affleck ao confiar ao galã o manto do Homem-Morcego. Seu desempenho é irretocável, trazendo um Batman pós-trauma, zangado e sem esperanças, menos existencialista do que o de Christian Bale.

Há filmes de super-herói que se propõem a serem metáforas secas sobre nossas carências políticas: caso da trilogia Batman de Christopher Nolan ou de Logan, de James Mangold. Há títulos que optam pelo desbunde: Guardiões da GaláxiaDeadpool. Mas Liga… consegue unir o melhor dos dois mundos – graças sobretudo ao show de carisma do jovem Flash Ezra Miller e do Aquaman Jason Momoa -, estabelecendo-se como um debate vívido sobre a falta de pertencimento. Tem um cheirinho de Wim Wenders no que há por trás das cenas de batalha magistralmente fotografadas pelo alemão Fabian Wagner (da série Game of Thrones). E há ainda uma afirmação oxigenada (e bem-vinda) do feminino (não do feminisimo) no desenho da Mulher-Maravilha feito a partir da atriz Gal Gadot. A oxigenação se dá ainda na marca autoral de seu diretor. Talvez por transitar entre signos de autossacrifício consciente, Snyder muda um pouco seu traço estético mais pessoal – o niilismo – e esculpe, na edição final, uma alegria algo menos desesperançada da condição humana. Talvez ele o faça como sintoma da tragédia pessoal (a perda de uma filha, por suicídio) durante a finalização do longa-metragem. Não cabe julgá-lo. Cabe entendê-lo e comemorar esse sopro de leveza que traz a assinatura dele no corte definitivo do projeto.

Filmes de super-herói, sustentáculo da economia cinematográfica, são, por essência,  épicas de autossacrifício: existem cordeiros que se oferecem à imolação em prol da Humanidade. Não existe humor na espinha dorsal desse gesto. Pode haver gargalhada como apêndice, como efeito de oxigenação da tensão, como um respiro para o que há de bruto na peleja do sacrificado contra a moléstia moral que o leva a se arriscar em prol de quem precisa de auxílio. Pode e deve, pois o riso é um convite ao carisma. Mas esse riso não pode superpor a essência das narrativas super-heróicas, cuja gênese  quadrinística vem da ação, da aventura, da adrenalina e não da troça. Tem quadrinho pra rir e tem quadrinho de super-herói. É assim desde as primeiras viagens galácticas de Buck Rogers, em janeiro de 1929: a pedra fundamental pop do filão. Snyder entende isso como ninguém.

 

Em sua nova trama, ambientada num mundo em luto pela morte do super-homem, reside a centelha niilista snyderiana por excelência: há três objetos na Terra, chamados de caixas maternas, que congregam em si um coeficiente de energia raro. Uma ficou na Atlântida de Aquaman, outra na Ilha Paraíso da Mulher-Maravilha e a terceira foi dada à raça humana, cuja falibilidade garante zero segurança a um bem tão precioso, cujo núcleo energético pode nos levar a extinção se cair em mão erradas. Tal premissa é uma clara conexão com a figura de Darkseid, um dos maiores vilões da DC, cujo nome só é citado de leve no filme. É a ele e a seus irmãos algozes, os Novos Deuses, que as caixas pertencem. Em vez dele, fala-se apenas da filiação dessas caixas a um amo poderoso. Quem o diz é Lobo da Estepe, um guerreiro (com a voz de Ciarán Hinds) dotado de superforça, armado com um machado energético, que faz marchar, sob suas ordens, uma horda alada de construtos robóticos, similares a libélulas. Os tais robôs (ou quase isso) já apareceram nos pesadelos de Bruce Wayne (de novo confiado a Ben Affleck, agora mais solto e nada sisudo) no (brilhante) Batman vs. Superman: A Origem da Justiça (2016). Aqui dá para entender porque ele sonhava com as criaturas e porque esses pesadelos fizeram com que o cruzado de Gotham City reunisse uma tropa de vigilantes, incluindo a amazona, o rei dos oceanos e mais dois: o velocista Flash e um ex-atleta cujo corpo é meio máquina, meio gente: o Cyborg, interpretado por Ray Fisher, cuja atuação é a melhor de todo o elenco. Ezra Miller, como o corredor superveloz, tem tiradas antológicas, que arejam a narrativa. Mas é Fisherquem melhor traduz o coeficiente de dor de Liga da Justiça. Ele e Gal, cada vez requintada no traço da heroína que melhor simboliza o (necessário e tardio) reposicionamento inclusivo da voz feminina.

Darkseid é um quebra-mundos e o Lobo da Estepe é seu lacaio mais grosseiro. Dá um certo incômodo a sua virtualidade no filme de Snyder. Mas o grande adversário é a massa fantasma de dor que reside no peito dos heróis, como metáfora para as exclusões políticas de uma América convulsionada por Trump. Confira com respeito a versão dublada, sobretudo para se deleitar com o trabalho de Guilherme Briggs dando voz ao Homem de Aço e com a eficácia de Jorge Lucas no gogó de Batman.

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