Liberdade é poesia nas veredas de ‘Joaquim’

Liberdade é poesia nas veredas de ‘Joaquim’

Rodrigo Fonseca

19 Abril 2017 | 11h09

Julio Machado tem uma atuação magistral como Tiradentes em

Julio Machado tem uma atuação magistral como Tiradentes em “Joaquim”, do diretor Marcelo Gomes

RODRIGO FONSECA
Tudo em Joaquim – surpreendente thriller político de época indicado ao Urso de Ouro no Festival de Berlim, em fevereiro – começa numa cabeça, metonímia de um corpo dilacerado após um enforcamento. E não é qualquer corpo: estamos diante de restos mortais de uma das poucas figuras de nossa História a quem a palavra herói se gruda como adjetivo de maneira inquestionável: Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Na tela, o recorte de sua trajetória pelas Gerais do século XVIII adotado pelo diretor Marcelo Gomes (do precioso Cinema, Aspirinas e Urubus) é o do militarismo: sob a farda de alferes, ele se submete a uma série de aventuras em nome de um estado corrupto, que enxerga nele uma potência rebelde encasulada, um ovo de serpente. E dessa percepção institucional choca-se um rebelde entre feitos representados no filme como perseguições, fugas e combates de uma precisão plástica e de um ritmo atípicos para o padrão brasileiro de produção.

Pai da brasilidade em nosso audiovisual, o cineasta mineiro Humberto Mauro defendia que “o cinema não deveria dar aulas de História e sim converter História em prática” – uma tese que ganha corpo nos solavancos de minas percorridas pelo alferes Joaquim, abrindo uma veia latina americano onde o sangue ético é dos mais espessos: a doença da apropriação indevida legitimada pelo governo. Com um domínio pleno da cartilha da aventura, Gomes construiu – com base nas memórias simbólicas sobre Tiradentes – um Game of Thrones com todos os ingredientes do seriado. Menos épico e mais subterrâneo, o arranjo narrativo criado pelo cineasta pernambucano é o de uma conspiração pelo Poder. Existem tratadores de joias incumbidos pela Corte lusa de fechar os olhos para deslizes pontuais do Brasil Colônia desde que embolsem uma pedra preciosa como um cala a boca. Tudo se compra: até negros compram escravos. Tudo é carnaval na realidade de Minas Gerais ali retratada, que serve como um berço de herói para o lado revolucionário de Joaquim José da Silva Xavier. Beira o sublime a forma como Julio Machado esculpe o casulo no qual a centelha heróica inflamada pelos abusos da Coroa vai entrando em combustão.

Nenhuma atuação masculina de toda a Berlinale deste ano teve o requinte paradoxal (de usar a delicadeza para expor brutalidade e fúria) da que Machado apresentou. A interpretação dele merece estar no mesmo panteão onde nossa cinematografia imortalizou Zé Pequeno, Capitão Nascimento e Antonio das Mortes. Existe, no longa, um visual de cores esmaecidas, quase enlameado, como os rios onde cascalhos são lavados em busca de tesouros naturais. Tudo é pardo, pois não se trata de um filme de explosões e sim de implosões, pois… é no silêncio que as revoluções – as humanitárias, altruístas – nascem no Brasil. E a deste filme que se candidata à eternidade em nosso planisfério latino é uma revolução alimentada pelo desejo e pela paixão, expressos no querer de Joaquim pela escrava Preta (Isabeé Zuaa, beldade lusa que atua de modo visceral para dar cor ao instinto libertário dos quilombolas). No fundo, liberdade é a palavra que o Brasil prostituiu em suas viradas de governo, indo para Império e República. Mas, ali, naquele contesto, “liberdade” ainda é algo imbuído de poesia.

Cotação: Excelente