Liam Nesson chegou multitela aos 70 anos

Liam Nesson chegou multitela aos 70 anos

Rodrigo Fonseca

26 de junho de 2022 | 11h31

A atração da Globo neste “Domingo Maior” é “Caçada Mortal” (“A Walk Among Tombstones”, 2014), com Liam Neeson dublado por Leonardo Camillo

RODRIGO FONSECA
Há uma torcida generalizada dos fãs da série (e que série!) “Obi-Wan Kenobi” para que o titã Liam Neeson apareça no sexto e último episódio, já no ar na Disney +, como mestre jedi Qui-Gon Jinn. E, esta noite, o ator irlandês de 70 anos tem um compromisso com a TV aberta do Brasil, às 23h40, via Rede Globo, à frente do potente “Caçada Mortal” (“A Walk Among Tombstones”, 2014). Ele foi dublado por Leonardo Camillo nesse thriller policial do diretor Scott Frank (de “O Gambito da Rainha”), baseado na prosa de Lawrence Block. Na trama, Neeson vive o detetive particular Matthew Scudder, um ex-policial amargurado, que trabalha em Nova York e, muitas vezes, age fora da lei. Ele é assombrado por uma tragédia do passado: Matthew não conseguiu impedir que uma garotinha de sete anos morresse em um tiroteio, o que o obrigou a se aposentar. Oito anos depois do incidente, ele aceita ajudar um traficante de drogas que está atrás dos homens que sequestraram e mataram sua esposa, o que o leva a uma conspiração. E ainda temos Neeson nos cinemas, à frente do sacolejante “Assassino Sem Rastro” (“Memory”), que segue no RJ no Kinoplex Madureira, no UCI New York e no Cinesystem Bangu.
Baseado em um romance do escritor belga Jef Geeraerts (1930–2015) e no filme derivado de suas páginas chamado “Alzheimer Case”, dirigido por Erik Van Looy em 2003, “Assassino Sem Rastro” surpreende todas as expectativas aplicáveis ao cinema de ação B, do início ao ousadíssimo fim, em parte pela assinatura autoral de seu realizador: o neozelandês Martin Campbell, de “A Máscara do Zorro” (1998). Por duas vezes, ele renovou a saga de James Bond, ao pilotar os primeiros filmes dos dois últimos 007s: Pierce Brosnan (“GoldenEye”) e Daniel Craig (“Cassino Royale”). Dirigiu ainda a volta por cima de Mel Gibson: “O Fim da Escuridão”, em 2010. E agora, ele tem nas mãos uma trinca incrível de atores, formada por Monica Bellucci e um inspirado Guy Pearce (nas raias da excelência, mesmo), ao lado de Liam Neeson. Este dá alma à figura de um matador de aluguel com problemas de memória que, ao ser contratado para matar uma criança (uma menina mexicana testemunha de uma rede de abuso a menores), decide se vingar de seus empregadores, com a ajuda de um agente do FBI afogado em luto (Pearce), deixando sangue respingar pelo rosto de uma empresária ligada a causas humanitárias (Monica). Como é do feitio de Campbell, as sequências de luta e de troca de tiros desafiam as leis da Física e o desfecho vai na margem oposta do tráfego do moralismo e da obviedade. No Brasil, a escolha de Elcio Romar, o Paulo Autran dos dubladores, para dar voz a Nesson foi um achado, ainda que seu habitual gogó, em território nacional, o ator paulista Armando Tiraboschi, seja genial. As toda a versão brasileira desse novo exercício narrativo do realizador de “Fuga de Absolom” (1994) seja um achado, incluindo a escalação do bamba Marco Antonio Costa como Pearce.

“Assassino Sem Rastro” está em circuito

Embora não tenha – ainda – se consolidado como sucesso de público nos EUA, “Assassino Sem Rastro” vitamina as engrenagens de um filão açoitado por chicotes morais, que se renova ainda com o seminal “Top Gun – Maverick”, com Tom Cruise. Mais patrulhado de todos os gêneros, sobretudo por correntes ideológicas que confundem transcendência estética com sociologia, o cinema de ação viu seu panteão de estrelas e os seus códigos narrativos serem esvaziado pelo politicamente correto ao longo dos anos 1990 para cá, substituindo o que nele havia de épico pelo patético da comédia e rejuvenescendo, ao nível da infantilização, seus protagonistas. Quando o último dos heróis anciões do filão, Charles Bronson, morreu, em 2003, acreditou-se que a perspectiva de um vigilantismo maduro, de cabelos grisalhos – e, por isso mesmo, aberto a autocríticas – estaria extinto para sempre, sobrevivendo apenas das iniciativas de Sylvester Stallone – o midas dessa seara – em juntar os mestres aposentados do passado na franquia “Os Mercenários” (2010-2014). Clint Eastwood que era também um vetusto herói pendeu mais para a direção. Will Smith, Vin Diesel, Charlize Theron e The Rock conjugaram com maestria os verbos do thriller, porém sempre seguindo uma linha mais próxima da aventura e do family film do que das convenções OMACs (One Man Army Combat), ou seja, “exércitos de uma pessoa só” dos anos 1970 e 80.

A Força está com Neeson no papel de Qui-Gon Jinn

Nesse campo, só dois astros brilharam, curiosamente ambos dublados pelo mesmo e talentoso Armando Tiraboschi: Jason Statham (que, em 2021, deu pra nós a joia “Infiltrado”) e Neeson. O primeiro enveredou mais por uma linha beeem B, de filmes graficamente explícitos no sangue e na quebra de ossos, numa reinvenção da fórmula do guerreiro imparável, como os ronins (samurais sem mestre) de Akira Kurosawa. Mas Neeson, não. Filmes de eficiência comercial (e artística) inquestionável, como “Assassino Sem Rastro”, lançado aqui no último fim de semana, comprovam que o irlandês de 70 anos não só assumiu o posto de Bronson – o de justiceiro com rugas no rosto – como humanizou arquétipo do vigilante experiente, tridimensionalizando papéis antes representados de modo raso, resumidos a suas jornadas. Neeson passou a aceitar heróis e anti-heróis como de “Memory” em série a partir de 2008. Naquele ano, Luc Besson produziu “Busca Implacável” (“Taken”), um thriller de US$ 25 milhões (ninharia para um filme da Fox), dirigido pelo francês Pierre Morel, que, ao ser lançado nos EUA, em 2009, faturou US$ 145 milhões só por lá. Ao todo, sua receita chegou a US$ 226 milhões, inspirando mais duas sequências e uma série no Amazon Prime. Na sequência veio o ótimo “Desconhecido” (2011), do espanhol Jaume Collet-Serra, de quem virou ator fetiche. Desde então, chove oferta para Neeson exercitar uma verve heroica talhada em anos e anos de palco, com Tchekov. E essa chuva vem graças ao bom resultado de bilheteria que ele tem. Para citar um bom exemplo: “Legado Explosivo” estreou nos Estados Unidos e na Europa no período mais crônico do circuito exibidor, em 2020, por conta da pandemia e ficou quase um mês entre os títulos mais vistos, faturando cerca de US$ 30 milhões. É uma prova de um carisma que deu a um gênero vilipendiado um sopro extra de vida… e de humanismo.
“Retribution”, de Nimród Antal, é seu próximo longa de Neeson.

“Saving Private Ryan” abre a madrugada na TV aberta global

Falando de TV Globo, nesta madrugada, à 1h35, a emissora exibe “O Resgate do Soldado Ryan” (1998) – um dos melhores filmes de guerra da História, que deu a Steven Spielberg seu segundo Oscar de Melhor Direção – numa versão brasileira muito bem dublada. Garcia Júnior, um titã da arte de dublar, cedeu a voz a Tom Hanks, que nos arrebata numa comovente interpretação. A trama se passa nos derradeiros momentos do conflito dos Aliados contra o Eixo. Ao desembarcar na Normandia, no dia 6 de junho de 1944, o Capitão Miller (Hanks) recebe a missão de comandar um grupo do Segundo Batalhão para o resgate do soldado James Ryan (Matt Damon), o caçula de quatro irmãos, dentre os quais três morreram em combate. Por ordens das Forças Armadas dos EUA, o pelotão de Miller precisa procurar Ryan e garantir o seu retorno, com vida, para casa. No elenco, no papel do soldado Caparzo, está um jovem Vin Diesel.

p.s.: Analisando a programação deste ano do Festival Varilux, vale uma especial atenção para “LE MONDE D’HIER”, de Diastème. Traduzido em solo brasileiro com o título “O Mundo de Ontem”, este thriller político arrebata a plateia à força de seu elenco. Presidente da República, Elisabeth de Raincy (Léa Drucker, em impecável desempenho), optou por se aposentar da vida política. Três dias antes do primeiro turno das eleições presidenciais, ela fica sabendo por seu secretário-geral, Franck L’Herbier (Denis Podalydès), que um escândalo do exterior atrapalhará seu sucessor designado e dará a vitória ao candidato de extrema direita. Eles têm três dias para mudar o curso da História. Tem projeção dele no Rio de Janeiro, o lar do P de Pop, neste domingo, às 16h25, no Espaço Itaú, com repeteco nesta quarta, às 16h10, no Instituto Moreira Salles (IMS).

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