Levante da Geórgia nas telas do Festival do Cairo

Levante da Geórgia nas telas do Festival do Cairo

Rodrigo Fonseca

28 de novembro de 2021 | 07h20

RODRIGO FONSECA
Laureado com o prêmio da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci) na Berlinale, em março, “What Do We See When We Look at the Sky?” é um exercício de realismo mágico que comprova a força do novíssimo cinema da Geórgia, convidada pelo 43º Festival do Cairo para deslumbrar os espectadores do Egito com sua narração aforísmica, cheia de frases poéticas, de tom existencialista. Já assegurada no Brasil pela MUBI (www.mubi.com), essa love story cheio de tropeços é dirigida por Alexandre Koberidze, pautada pela certeza de que o inusitado dita as regras das relações interpessoais. Exuberante, a fotografia de Faraz Fesharaki abusa do colorido de aparência sépia ao retratar tanto espaços abertos quanto ambientes íntimos. É uma narrativa que valoriza ao máximo a geografia a seu redor, mas sem abrir mão da geopolítica da intimidade, no silêncio de seus personagens.
Tudo o que se passa em “What Do We See When We Look at the Sky?” é responsabilidade de um livro que cai no chão, abrindo uma progressão aritmética de acontecimentos, muitos deles na chave do querer, do beijo na boca, do beijo que não cabe em bocas que não se tocam. A partir do desencontro – forçado por um evento metafísico digno de Luis Buñuel – de um futuro quase casal, um corriqueiro enredo de boy meets girl vira uma árvore de signos, como vem sendo a tônica de alguns grandes filmes da Geórgia nas telas. Veio de lá, em 2020, o devastador “Beginning” (“Dasatskisi”), de Dea Kulumbegashvili, ganhador da Concha de Ouro do Festival de San Sebastián, e também em cartaz na MUBI. Tal qual vimos nesse trabalho da estreante Dea, o filme de Koberidze também envereda por trilhas místicas, embora não necessariamente bíblicas. E silêncio não é, no caso dele, uma virtude, em parte porque existe no realizador de “Colophon” (2015) uma necessidade de se ressignificar o valor das palavras no cinema – pelo excesso.
Batizado “Ras vkhedavt, rodesac cas vukurebt?” em seu país de origem, o longa parte de um casal de jovens, Lisa e Giorgi, que se esbarra na rua, e deixa cair um livro, fica encantado e marca um encontro. Os dois vão para um date mas não conseguem se ver. O motivo: da noite para o dia, eles mudaram de forma. É uma espécie de feitiço, no efeito do abrir do livro, que muda tudo o que se passa naquele mundinho onde vivem, refletindo as transformações sociais e políticas daquela nação. Um mundinho apaixonado por futebol, mas também pelo ato de ler. Vinhetas, legendas e um narrador onisciente conversam conosco, dando a essa fábula uma aparência de hipertexto da web, unindo tradição e contemporaneidade. A busca de Giorgi por Lisa é de uma beleza avassaladora, capaz de evocar o Michel Gondry do suspirante “Brilho Eterno De Uma Mente Sem Lembranças” (2004), um marco do ultrarromantismo.

Tem filme no Festival do Cairo 4.3 até o dia 5. Dos 14 concorrentes à Pirâmide de Ouro de 2021, a serem avaliados por um júri presidido por Emir Kusturica, o título que carrega a maior torcida e expectativa é o drama sul-coreano “Aloners”, de Hong Seong-eun, sobre uma jovem solitária que reavalia sua vida após a morte de um vizinho. Elogia-se muito o roteiro de “Miracle”, uma produção romena, dirigida por Bogdan George Aperi, sobre uma jovem freira que sofre uma violência sexual em meio a uma enigmática missão em nome de Deus. “Esse filme é parte de uma trilogia que eu iniciei em 2020, com ‘Sem Suspeitas’, alternando olhares sobre masculino e feminino, partindo do princípio de que as descobertas que um espectador faz, diante de uma trama, deve ser gradual”, explicou o cineasta ao P de Pop. “Os filmes atuais hoje nos contam tudo em dez minutos. Quero evitar isso e preservar o mistério interno das personagens”.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.