‘Leste Oeste’: estrada para a ousadia

‘Leste Oeste’: estrada para a ousadia

Rodrigo Fonseca

08 de agosto de 2019 | 04h36

Rodrigo Fonseca
À cata de uma vaga em circuito desde 2016, quando arrebatou corações no Cine PE e na Mostra de SP, o turbinado Leste Oeste, vindo lá do Paraná, vai enfim entrar em cartaz: estreia nesta quinta. É uma espécie de faroeste sobre quatro rodas, um drama on the road com cheiro de pneu queimado, costurado com uma elegância formal ímpar no atual seio do cinema brasileiro. Sua tessitura dramática é reforçada por uma linha afetiva das mais grossas, trançada com o cerol do desamparo. Seu realizador é Rodrigo Grota, um talento em curta metragem, celebrizado no formato pela potência da Trilogia do Esquecimento – formada por Satori Uso (2007), Booker Pitman (2008) e Haruo Ohara (2010). O dínamo Guilerme Peraro zela pela produção. Grota passa aos longas pelas curvas da ousadia, fazendo do ambiente das corridas de carro apenas uma biosfera para uma outra competição, de afetos, onde o troféu máximo é o amor de uma mulher que catalisa todos os quereres e todos os poderes de três gerações de homens de uma família. O currículo internacional de vitórias do longa-metragem inclui uma láurea no Van Gogh Awards: Prêmio Especial do Júri para Melhor Filme Dramático Internacional na 8ª edição do Amsterdam Film Festival, na Holanda. Ele recebeu ainda o prêmio de  Melhor Longa Narrativo no 3rd Erie International Film Festival, nos EUA.

‘An affair to remember’: Simone Iliescu,brilha em cena como Stela, o vetor feminino que acelera um mundo de pilotos

A julgar por clássicos como Grand Prix (1966), de John Frankenheimer, ou mesmo uma traquinagem pop como Roberto Carlos a 300 Km por Hora(1970), de Roberto Farias, os filmes de corrida tendem a liberar uma descarga de adrenalina na tela capaz de eternizar sequências de ação esportiva. Mas há algo mais do que cheiro de borracha e de testosterona nesta produção egressa do Paraná. Seu protagonista é Ezequiel, um ás das estradas vivido por Felipe Kannenberg. Já a força feminina por quem todos brigam é Stela, papel defendido com esplendor por Simone Iliescu. Ambos ganharam prêmios (melhor atriz e melhor ator) no Cine PE.

Com trilha sonora assinada por Rodrigo Guedes, líder do Grenade (uma das principais bandas do indie rock brasileiro), Leste Oeste foi filmado em meio a provas reais: as 100 Milhas de Kart e as 500 Milhas de Londrina. Na trama, o ex-piloto Ezequiel decide retornar à sua cidade natal, depois de um sumiço de 15 anos, para realizar uma última corrida. Lá, ele reencontra Stela, ex-mulher de seu irmão, Pedro, um jovem aspirante a piloto, e Angelo, o patriarca da família. Desse reencontro de almas danadas, nasce um combustível narrativo de explosão, que mais parece uma mistura do Corrida sem Fim, de Monte Hellman, com The Brown Bunny, de Vincent Gallo.

O diretor Rodrigo Grota em ação

Qual é o maior desafio de se representar a velocidade, a das pistas e a dos amores?
Rodrigo Grota: A velocidade sempre nos escapa: dessa forma pensei em quadros fixos, cuja imobilidade potencializasse o dinamismo das pistas. Já em relação aos amores, para mim, o mais precioso e também inacessível (do ponto de vista visual) é sempre o que ocorre em nosso mundo interior. Dessa forma, o maior desafio do filme era: como expressar o subtexto pela palavra presente no roteiro? Como apresentar o vestígio do sentimento sem ser didático ou reducionista? Uma saída foi buscar um falso naturalismo – principalmente para os diálogos de Ezequiel (Felipe Kannenberg) e Stela (Simone Iliescu).

De que maneira a narrativa joga com imagens de arquivo?
Rodrigo Grota: No caso do Leste Oeste, eu utilizei cenas de pesquisa para o filme, como aquela que abre o longa-metragem e aquela usada na sequência dos créditos iniciais. Essas cenas foram rodadas pelo nosso diretor de fotografia, Guilherme Gerais, na Turquia e na Alemanha, em 2011, já como estudos para o filme. Fazendo uma analogia à música, eu adoro os outtakes e os esboços, gravações incompletas. Acho que o estudo inicial, embora incompleto, sempre traz aquela vitalidade tão essencial para qualquer filme. E foi por isso que incorporei essas imagens ao corte final. No caso das corridas, começamos a filmar três meses antes, alguns estudos no Kartódromo e no Autódromo, e eles acabaram entrando no filme. A lógica é a mesma: o filme precisa sempre estar vivo: não gosto de ficar condicionado apenas ao período de filmagem das cenas principais.

Felipe Kannenberg é o samurai das pistas, que volta para enfrentar o passado e o luto

O que a trajetória dos teus curtas de falsos documentários te revelaram sobre a ficção?
Rodrigo Grota: No fundo, devo confessar: sempre me considerei um ficcionista. Entre a lenda e o fato, prefiro a lenda. Nossa vida é muito triste sem o aspecto místico da fabulação e das histórias lendárias. Somos o que imaginamos. Todos criamos um imaginário próprio para nós mesmos. Isso se dá mesmo até de forma inconsciente. E é por isso que fui sentindo que eu conseguiria ser mais ficcional à medida que a minha abordagem nos filmes fosse ainda mais documental. Um certo paradoxo, talvez. Mas alguns cineastas já haviam estimulado essa aproximação, desde os irmãos Lumière (cuja obra, para mim, é pura ficção) até Godard, Tonacci, Kiarostami, Herzog, John Cassavetes, Welles, Fellini, Bergman, Sganzerla. Os cineastas que mais amo sempre caminharam nessa linha tênue (e que talvez não exista) de não separar ficção do documentário.

Quais são as novas curvas das suas estradas nas telas?
Rodrigo Grota: No momento estou finalizando a montagem de um longa chamado Passagem Secreta, que rodamos no começo desse ano com recursos do antigo edital de BO do antigo Minc. É uma ficção científica voltada ao público infantil. Dois projetos que dirigi devem estrear nesse segundo semestre: a série de TV infantil Super Família (26 episódios de 13 minutos), e o curta-metragem Pequenos Delitos. Desde o ano passado, estou escrevendo o roteiro do filme Isto é um Assalto, sobre o maior episódio da história criminal de Londrina: em 10 de dezembro de 1987, sete homens armados mantiveram 300 pessoas como reféns por 7 horas no centro de Londrina. Eles queriam 30 milhões de cruzados e começaram a protestar contra o Governo Sarney, o que fez parte da população ficar do lado deles. E, por último,estamos filmando a série Cientistas Brasileiros (cinco episódios de 60 minutos cada), que deve estrear em 2020 no Canal Curta. Acabamos de filmar dois episódios nos EUA – em Los Angeles e Pasadena, na Nasa; e também na região de Boston, na Costa Leste. As filmagens devem se estender até o início do ano que vem. No teatro, devo montar em breve a peça O Homem de Costas, que escrevi paralelamente ao roteiro de Leste Oeste. E, em literatura, estamos lançando o livro Anotações para o Leste, que traz textos curtos que escrevi entre 2011 e 2014, para me aproximar das paisagens e personagens do Leste. Esse livro conta com fotos do Guilherme Gerais e desenhos do José de Aguiar que eram estudos pro filme. Esse livro está sendo lançado nas sessões de pré-estreia do Leste Oeste com distribuição gratuita para o público.

 

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