‘Les Passagers de la Nuit’: bonde francês em Berlim

‘Les Passagers de la Nuit’: bonde francês em Berlim

Rodrigo Fonseca

13 de fevereiro de 2022 | 11h57

O diretor parisiense Mikhaël Hers na Berlinale, onde concorre ao Urso de Ouro

RODRIGO FONSECA
Graças a um trabalho de formiguinha feito ao longo dos últimos 365 dias pela Unifrance, um aparelho institucional do Ministério da Cultura da França dedicado ao audiovisual, os filmes da pátria de Truffaut se tornaram a iguaria mais fina do 72º Festival de Berlim, que vem sendo realizado presencialmente desde quinta-feira, sob pesado controle sanitário anticovid-19, com filmes com Paris e seus arredores no centro de suas narrativas mais aclamadas. Tem sido assim desde que “Peter von Kant”, de François Ozon, abriu o evento, com uma devastadora atuação de Denis Ménochet como um cineasta apaixonado por um rapaz que o rejeita. A boníssima impressão da arrancada só fez se confirmar nos dias seguintes, comprovando-se uma vez mais, neste domingo, com o sinuoso “Les Passagers De La Nuit”, de Mikhaël Hers. Seu filme é uma carta de amor aos anos 1980, mas é também um estudo sobre o poder de autorregeneração de corações partidos pelas imposturas da vida. É esse o tema, por excelência do realizador, aplaudido e premiado em Veneza, em 2018, com “Amanda”, de volta aqui ainda com toda a sua maturidade técnica. E com Charlotte Gainsbourg.
“Eu não queria me repetir e ficar em mais um painel da contemporaneidade. Preferi voltar à época da minha infância e juventude, quando eu construí uma certa mítica em torno de alguns filmes, os primeiros que vi, sem ter a noção do que era cinema de autor”, disse Hers ao P de Pop. “Viajo aqui de referências que vão de 1982 a 88. Além de me referir a toda uma cultura musical muito particular que a gente aprendeu a amar via rádio”.

Charlotte Gainsbourg em “Les Passagers De La Nuit”

Em seu novo longa, as eleições francesas de 1981 são recriadas a partir da rotina de Elisabeth (papel de uma visceral Charlotte), cuja vida acaba de virar do avesso com o fim abrupto de seu casamento. Ela tem uma filha que estuda política e um caçula que ama poesia. Ambos estão adolescentes quando tudo começa. Ficamos a maior parte do longa entre 84, quando Elisabeth perde o emprego e busca trabalho numa rádio, cuja locutora é vivida por Emmanuelle Béart. A cultura radiofônica é um dos elementos centrais do longa.
“Existiam vozes, sobretudo femininas, que conectavam milhares de ouvintes na França, pelo rádio, noite adentro, no passado, quando eu era mais jovem. A minha questão aqui não é o rádio como um media e, sim, a sua dimensão humana, a sua dramaturgia”, diz o cineasta, que impressionou a Berlinale com um enxutíssimo roteiro capaz de dar conta de cada um de seus personagens, sem deixar de lado o desejo de fazer uma crônica da vida francesa naqueles anos. “Locutoras e locutores são links para uma memória coletva”.
Entre tudo o que já se viu em Berlim, com uma alta qualidade generalizada, percebe-se algum favoritismo em torno de “Avec Amour et Acharnement” – um filme francês, como não poderia deixar de ser, frente à força que vem daquela pátria. Trata-se de um nevrálgico ensaio da parisiense Claire Denis sobre os fragmentos do discurso amoroso que espatifado durante a pandemia. Tem Juliette Binoche de um lado e o Antonio Fagundes europeu, Vincent Lindon (de “Titane”), do outro, como um casal sob o riso da atomização. A câmera espasmódica do fotógrafo Eric Gautier merece um troféu.

Sigourney Weaver e Elizabeth Banks no longa da estreante Phyllis Nagy, “Call Jane: um prato feito pra prêmios

Fora da seleção francesa, os EUA reluzem por aqui com “Call Jane”, uma ode à sororidade pilotada pela estreante Phyllis Nagy, uma dramaturga que nasceu nos EUA e fez carreira nos palcos de Londres, escrevendo e dirigindo peças. Seu filme recria a América dos anos 1960 a partir de um grupo de acolhimento a gestantes que necessitam de um aborto: As Janes. Joy (Elizabeth Banks) é uma grávida que corre risco de vida, por problemas cardíacos, e precisa interromper sua gestação. Os médicos lhe negam apoio, mas as Janes lhe estendem os braços e criam, com ela, um novo veio de ajuda a mulheres alvejadas pelo moralismo. Sigourney Weaver rouba todas as cenas em aparece no papel da ativista que lidera o grupo.
Neste domingo, o Brasil bate ponto na Berlinale, via Forum, com “Mato Seco em Chamas”, de Joana Pimenta e Adirley Queirós, e de “Três Tigres Tristes”, de Gustavo Vinagre. O festival termina no dia 20, mas a premiação sai antes, no dia 16.

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