‘Les Deux Alfred’: afeto pro fecho de Cannes

‘Les Deux Alfred’: afeto pro fecho de Cannes

Rodrigo Fonseca

29 de outubro de 2020 | 18h18

Projeção de “Les Deux Alfred” na Croisette

Rodrigo Fonseca
Dois dias depois de uma divertidíssima abertura, com “Un Triomphe”, no qual Kad Merad faz uma desconstrução de sua persona, Cannes voltou a recorrer ao riso para encerrar a edição pocket que escolheu fazer em 2020, em meio ao pico da covid-19 (com direito a lockdown a ser imposta a partir desta sexta) e aos atentados terroristas desta quinta em Nice, lembrados com tristeza no palco, com um minuto de silêncio às vítimas, antes de “Les Deux Alfred” (ou “Les 2 Alfred”) começar. Essa foi a bela escolha para o encerramento, após a entrega da Palma de Ouro de Curtas ao egípcio “I Am Afraid to Forget Your Face”, de Sameh Alaa. Uma escolha que começa mal, dá uns tropeços na morosidade nos primeiros 20 minutos, mas acaba por se impor pelas piadas hilárias acerca da nossa dependência da tecnologia. E como o carisma da atriz Sandrine Kiberlain faz esse novo filme do ator Bruno Podalydès crescer. Há 22 anos, ele brigou pelo Leopardo de Ouro de Locarno com “Dieu seul me voit” (1998) e fez fama, como realizador, com “Adeus Berthe: O Enterro da Vovó” (2012) e “Um Doce Refúgio” (2015). De volta ao posto de cineasta, também atuado (e muito bem), ele apara as arestas visuais de seu palavroso veio de contador de histórias, trazendo enquadramentos mais dionisíacos, menos subservientes ao texto. Em cena, Bruno divide as telas com o irmão, o comediante Denis Podalydès, em uma reflexão sobre reposicionamento profissional de quem já está na faixa dos 50 anos. Denis vive Alexandre, um desempregado pai de família que cuida com dificuldade dos filhos (uma bebê e um guri de uns 4 anos) ao longo dos dois meses em que sua mulher (Vanessa Paradis) trabalha embarcada em um submarino. Começa aí o primeiro ataque (necessário e bem-vindo) do longa ao sexismo. O segundo ataque vem na leveza da figura de Arcimboldo (encarnado por Bruno), um pai já em alforria, pois seu filho adolesceu e saiu de casa. É ele quem vai ajudar Alexandre a cuidar de seus rebentos. O cuidado se faz mais exigente quando ele consegue trabalho numa start up implacável com os horários de seus funcionários. Sandrine vai brilha em cena (a ponto de roubar cenas inteiras para si) como Severine, uma empregada dessa exigente companhia de tecnologias, impaciente com os colegas. A primeira reunião dela com Alexandre é de rachar o bico.

É pena que Podalydès escorregue em demasia no ritmo na arrancada do filme. Quando ele alcança o tom, a narrativa só faz decolar. Mas custa a chegar a esse ponto, patinando num blábláblá que só Sandrine consegue tornar saboroso, pois mesmo o Arcimboldo é mal usado no início. Apesar disso, “Les Deux Alfred” (o título é uma referência aos macaquinhos de pelúcia da prole de Alexandre) aqueceu o coração de Cannes, em pânico pelo avanço do coronavírus e da indefensável islamofobia, num traço de intolerância religiosa.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: